Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, março 07, 2006

Celso Ming - Falhas de comunicação



Celso Ming
O Estado de S. Paulo
7/3/2006

Semana do Copom, como esta, é sempre boa oportunidade para apontar holofotes sobre o Banco Central.

Apesar da sua aparente coerência, o BC não opera sempre com consistência. Sua comunicação com o governo, com a sociedade e com o mercado financeiro, espinha dorsal da administração das expectativas, é, muitas vezes, complicada, omissa ou misturada a desinformação.

Alguns exemplos deixam isso mais claro. O Tesouro faz um esforço danado para reduzir a parcela da dívida amarrada aos juros básicos (Selic) e, no entanto, o BC despeja bilhões em Selic nas operações de troca de dívida cambial (swap cambial reverso). Vai que o Tesouro esteja errado. Se for isso, em nenhum momento o BC se dispõe a mostrar que a nova entrada de dólares orquestrada pelo Tesouro atropela ou a política destinada a "evitar volatilidade cambial" ou a operação de troca de dívidas.

Em 2005, o governo federal expandiu suas despesas correntes em 10,1% sobre as do ano anterior, muito acima da inflação e do PIB e, no entanto, o BC não ousa denunciar essa política fiscal expansionista que trabalha contra a política monetária contracionista e força a expansão exagerada dos juros.

O crédito consignado (com desconto em folha de pagamentos) cresceu 82,7% em 2005 e também jogou contra a política de juros porque estimulou o consumo enquanto o BC fazia o oposto. Mas, em vez de dirimir essa contradição, o BC apenas endossa a expansão como se fosse um avanço estrutural no perfil do crédito, sem questionar até que ponto esse avanço atrapalha ou não o controle da inflação. Não importa aqui o que seja mais certo ou mais errado. Importa que, na área do próprio BC, o beque é incentivado a fazer gol contra.

Os dirigentes do BC dizem que sua prioridade é garantir o cumprimento das metas de inflação e, no entanto, dispõem-se a comprar dezenas de bilhões de dólares no câmbio interno e, assim, a impedir que a derrubada do dólar imponha as conseqüências desejadas por ele próprio. Outra vez, não cabe aqui dizer se o BC está certo ou não ao comprar tamanho volume de dólares. Mas cabe dizer que, quando compra dólares, nas condições em que vem comprando e com o custo fiscal que isso impõe, o BC desmente suas reiteradas afirmações de que seu compromisso é com o enquadramento da inflação dentro da meta. Enfim, o BC trabalha com outros objetivos (como o da recomposição das reservas), e confunde todos com seu jogo duplo.

Outro ponto. O BC faz questão da unanimidade dentro do Copom. Qualquer um sabe que, em discussões dessa envergadura, quando oito dirigentes definem questões tão controversas como a da dose correta dos juros, são naturais as divergências. Como diz o ministro da Previdência, Nelson Machado, são cinco os dedos da mão e nenhum é igual ao outro. No entanto, são raras as reuniões do Copom em que se registram votos dissidentes. Quando acontecem, o BC não explica nem expõe as razões dos votos vencidos.

Em entrevista publicada dia 1º de março no jornal Valor, o economista Ilan Goldfajn, que tem uma bela quilometragem rodada no Copom, advertiu que o BC enfrenta hostilidades do governo e, por isso, se comunica menos (e pior) do que deveria.

Por que o BC tem de esconder os rachas se o governo não esconde os seus? Se as opiniões da ministra Dilma Rousseff podem conviver com as do ministro Palocci, por que as opiniões dentro do BC têm de ser empurradas para baixo do tapete?

Se uma matéria é colocada em votação é por que se esperam votos divergentes. Exibir unanimidade onde não há lembra as decisões no centralismo democrático das administrações stalinistas que, em vez de passar solidez, alimentavam boataria e fragilidade interna.

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