Entrevista:O Estado inteligente

sábado, maio 10, 2003

Diogo Mainardi A arte de Lula



"É com propaganda que Lula pretende
governar. Tudo virou propaganda. Fome
é propaganda. Reforma da Previdência
é propaganda. Cotação do dólar é
propaganda. Não surpreende que
a cultura também seja recrutada
para difundir a palavra do governo"

Eletrobrás e Furnas anunciaram que só iriam patrocinar projetos culturais que atuassem "em sintonia com a política governamental". Ou seja, para faturar um dinheirinho público, os artistas teriam de divulgar as obras sociais do governo. O cineasta Cacá Diegues esperneou. Ilustres representantes do meio artístico o apoiaram. Diante de tantos protestos, o governo achou melhor ganhar tempo.

Em momento algum os artistas ousaram atacar diretamente Lula. Para Cacá Diegues, o presidente não tinha "conhecimento específico do que estava acontecendo nesse âmbito". Para Arnaldo Jabor, ele não estava "inteirado" do assunto. O medo de desafiar Lula é tão grande que os artistas preferiram tratá-lo como um bobo que desconhecia as iniciativas de seu próprio governo. Lula não é bobo. Pode não ter ouvido falar em Homero ou Eisenstein, mas sabe perfeitamente o que quer do meio cultural. O documento com as novas regras de patrocínio das estatais seguia, ponto por ponto, o programa do PT e as declarações do ministro Gilberto Gil, com todo aquele lero-lero populista de identidade nacional, folclore e inclusão social. Por anos e anos, o setor da cultura viveu exclusivamente à custa do Estado, embolsando bilhões em generosos financiamentos públicos. Era natural que, a certa altura, o poder político resolvesse cobrar a dívida, estabelecendo que, para continuar a usufruir dessa relação parasitária, os artistas oferecessem a chamada "contrapartida social", que nada mais é do que propaganda camuflada do governo.

Lula acredita em propaganda. Foi graças a ela que ganhou as eleições. E é com ela que pretende governar. Tudo virou propaganda. Fome é propaganda. Reforma da Previdência é propaganda. Cotação do dólar é propaganda. Não é surpreendente que a cultura também seja recrutada para difundir a palavra do governo. Empresas estatais, com seus 200 milhões em patrocínio, podem chantagear atores e cineastas. Quanto aos escritores, é ainda mais fácil. Basta o ministro Cristovam Buarque levar adiante uma de suas idéias estapafúrdias, como a de instituir bibliotecas em canteiros de obras ou a de incluir livros na cesta básica. Quero ver a reação de um faminto piauiense ao encontrar um livro de Verissimo no meio dos sacos de farinha.

Historicamente, esquerdistas não gostam de esquerdistas. Lula não é exceção. Ele não manda os velhos companheiros para o paredão, como líderes esquerdistas do passado, mas se deleita em contrariar todas as suas expectativas. Os funcionários públicos foram tachados de contra-revolucionários e terão suas aposentadorias cortadas. Os ecologistas foram obrigados a engolir a usina nuclear Angra 3. O MST teve de escutar calado o discurso de Lula aos pecuaristas de Uberaba. A CUT aceitou o aumento salarial de 1%. A CNBB perdeu o controle do filão da caridade. Os desenvolvimentistas abaixaram a cabeça para Henrique Meirelles. Por fim, Lula começou a enquadrar o meio cultural, que sempre o apoiou incondicionalmente. Conhecendo o caráter de nossos artistas, estou certo de que, depois de um pouco de gritaria, eles saberão se adaptar aos novos tempos. E o dinheiro voltará a circular.

sábado, maio 03, 2003

Diogo Mainardi Fora, Zumbi!

Diogo Mainardi Fora, Zumbi!
Fora, Zumbi!

"A luta contra o racismo não se
dá glorificando
a figura de Zumbi
nos livros escolares, mas ensinando
que
os brancos são negros e os
negros são brancos"

Como Macunaíma, nascemos pretos e fomos embranquecendo à medida que nos afastávamos de nossa terra de origem. É o que ensina Genes, Povos e Línguas, do geneticista italiano Luigi Luca Cavalli-Sforza. Ele analisou mais exames de DNA do que o Ratinho. E, ao contrário do Ratinho, não usou o resultado dos exames para vender mais xampus contra piolho, e sim para traçar um mapa da evolução humana. Seus estudos demonstram que nossos conceitos de raça são uma empulhação. Não existe preto, branco nem amarelo. Ou dividimos a humanidade em mais de 1.000 etnias e línguas, ou acabamos com a classificação por raças, admitindo que somos todos parentes. Os primeiros homens surgiram na África. Tínhamos a pele preta porque ela servia de proteção contra o sol equatorial. Os cabelos eram encarapinhados para reter o suor e resfriar a cabeça. Quando começamos a nos espalhar pelo mundo, 100.000 anos atrás, nossas características físicas foram se adaptando às novas condições climáticas. Quem se mudou para a Europa ficou com a pele branca para captar melhor os raios ultravioleta e suprir a carência de vitamina D. As narinas se estreitaram para aquecer o ar antes da chegada aos pulmões. Os que migraram para o Oriente ganharam dobras adiposas em volta dos olhos para se proteger dos gélidos ventos siberianos. Debochamos muito de Michael Jackson, mas nossos antepassados sofreram as mesmas transformações que ele. Um sueco é um sudanês subnutrido. Um mongol é um pigmeu com frio.

O presidente Lula nomeou uma ministra para combater a discriminação racial. Ela é negra. Teria sido melhor se fosse branca, para mostrar que a discriminação racial não é nociva apenas para os negros, mas para a sociedade inteira, inclusive para os brancos. A ministra defende a política de cotas adotada nos Estados Unidos. É a lógica do gueto. Eu tentaria inverter a questão, extinguindo não só a discriminação racial, mas o próprio conceito de raça. Não é tão difícil assim. Quando eu era pequeno, a escola ensinava que nossos índios pertenciam à raça vermelha. Certo dia, mudou-se de idéia e passou-se a ensinar que, na verdade, a raça vermelha não existia, porque os índios eram amarelos que tinham atravessado o Estreito de Bering 32.000 anos atrás. Seguindo o mesmo raciocínio, a raça amarela também não existe, tendo sido formada por africanos que migraram para a Ásia 100.000 anos atrás. E a raça branca, constituída por asiáticos que se mudaram para a Europa 43.000 anos atrás, é outra ficção genética. Hoje em dia ninguém mais fala em raça vermelha. Seria igualmente correto que ninguém mais falasse em raça negra, branca ou amarela. O melhor jeito para acabar com o racismo no Brasil é eliminar o critério de raça. O movimento negro sempre lutou para que os negros se orgulhassem da própria cor. Eu aboliria essa idéia. Aboliria o Dia Nacional da Consciência Negra, a política de cotas, as ações afirmativas. Aboliria também o mito da miscigenação racial brasileira.

Quando se considera toda a história da humanidade, os alemães são tão miscigenados quanto nós. Raça é uma noção arcaica. Não tem base científica. A luta contra o racismo não se dá glorificando a figura de Zumbi nos livros escolares, mas ensinando que os brancos são negros e os negros são brancos.


sábado, abril 12, 2003

Diogo Mainardi Enfim, como diria Gil...

"Lula atribuiu-se o mérito de ter
salvado a economia. Como os índices
só haviam piorado porque acreditaram
em suas bravatas, não há do que se
gabar. Ele só consertou um pouco
do estrago que havia feito"

Gilberto Gil almoçou na Associação Comercial do Rio de Janeiro. Depois do almoço, discurso. Depois do discurso, entrevista coletiva. Depois da entrevista coletiva, deslocamento para a Biblioteca Nacional. Outro discurso. Não sei para onde Gil foi depois disso. Desisti de segui-lo. Cansei. Durante o almoço, Gil revelou gostar da vida de ministro. Há algo de errado em quem gosta da vida de ministro.

Entre uma coisa e outra, acompanhei Gil por cerca de cinco horas. Não consegui colher uma única declaração aproveitável. No discurso da Biblioteca Nacional, por exemplo, a propósito de um dicionário de música popular brasileira, ele citou Octavio Paz, que teria escrito sobre a "suspensão no ar, na atmosfera, no éter, de signos, símbolos, microrganismos, partículas, células, em extraordinária rotação sobre nossas cabeças, que são os verbetes, em seu próprio suporte, as palavras, com todos os seus interstícios, em suas materializações nos livros...". Preciso reler Octavio Paz urgentemente. Nesse ponto do discurso, perdi a concentração. Deixei de transcrevê-lo. Para passar o tempo, comecei a contar quantas vezes Gil empregava a interjeição "enfim". Foram dezessete.

Bem melhor do que ouvir um discurso de Gil é ouvir um de Lula. Nunca houve, em nossa história, um presidente que falasse tão claro quanto ele. Poucos dias atrás, em Barcarena, no Pará, Lula disse que o Brasil foi castigado por políticos que pensam apenas em seu mandato. No mesmo discurso, ele demonstrou que, como o resto dos políticos, pensa apenas em seu mandato, reivindicando mais quatro anos no poder. Ou seja, 100 dias depois da posse, já estamos novamente em campanha eleitoral. E podemos contar com um presidente que, segundo sua própria definição, se considera um castigo para o país.

Na semana anterior, Lula havia declarado algo ainda mais espantoso. Ele reconheceu que, quando estava na oposição, disparava bravatas o tempo todo. Indiretamente, ele chamou seus eleitores de otários. Porque quem acredita em bravatas só pode ser otário. Lula está certo, claro. Porém é surpreendente que ele tenha a coragem de debochar de seus eleitores em público, de forma tão ostensiva. Nem o mais brucutu dos coronéis nordestinos trataria seu curral eleitoral com tanto desdém. Estou começando a desconfiar dessa história de que Lula saiu de Pernambuco num pau-de-arara. Ele deve ter algum parente latifundiário em Garanhuns.

Na segunda-feira, em cadeia nacional, Lula traçou um balanço de seus primeiros meses de governo. Atribuiu-se o mérito de ter salvado a economia, melhorando câmbio, balança comercial e risco país. Como esses índices só tinham piorado porque os investidores acreditaram em suas bravatas, não há do que se gabar, visto que ele se limitou a consertar um pouco do estrago feito anteriormente. Com muito laquê e piscando o olho esquerdo sem parar, Lula levou cinco horas para extrair nove minutos de programa. Pois eu passei cinco horas com Gil e extraí ainda menos. Ponto para Lula.

domingo, abril 06, 2003

Diogo Mainardi A comédia da fome


O Iraque será reconstruído pelas mesmas empresas que construíram o Brasil. A Halliburton, por exemplo, quando ainda era comandada pelo atual vice-presidente americano, Dick Cheney, construiu o gasoduto Brasil–Bolívia. A Bechtel também foi convidada para repartir o bolo bilionário da reconstrução iraquiana. Em suas atividades no Brasil, a Bechtel ergueu desde usinas elétricas até fábricas de meias de náilon, mas seu nome é recordado, sobretudo, pelos reatores nucleares de Angra dos Reis. A Fluor, cujo nome é associado à instalação de grandes siderúrgicas e fábricas de automóveis no Brasil, irá participar, igualmente, da boca-livre iraquiana, da mesma forma que a Washington Group International, a empreiteira responsável, entre nós, pelas obras da hidrelétrica de Itaipu. Tudo indica, portanto, que o Iraque, depois da guerra, ficará igual ao Brasil. Bagdá será uma réplica exata de Teresina. Basra, uma réplica de Francinópolis. Nassiriah, uma réplica de Guaribas.

O trabalho de reconstrução do Iraque será coordenado pela Usaid, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional. Andrew Natsios, seu diretor, ficou conhecido no mundo todo por ter declarado, algum tempo atrás, que os africanos não deveriam receber remédios contra a Aids porque nem sabiam ler as horas. A Usaid sempre foi muito ativa no Brasil. Em 1964, depois do golpe militar, mandou seus técnicos para cá e reformou nosso ensino, do primário até a universidade. Se aplicar a mesma receita educacional no Iraque, conseguirá dobrar o número de analfabetos em poucos anos. Até hoje a Usaid financia programas assistenciais no Brasil, ligados à preservação da floresta tropical, à prevenção da tuberculose e à luta contra a exploração sexual de crianças. Durante a viagem de Lula aos Estados Unidos, cogitou-se inclusive de a Usaid ajudar no Fome Zero.

Não que o Fome Zero precise de ajuda. As melhores mentes do governo já estão engajadas no projeto. Outro dia, o Ministério da Cultura anunciou que pretende oferecer incentivos fiscais aos produtores que se dispuserem a rodar seus filmes em regiões carentes, usando mão-de-obra e figurantes locais. Depois do bolsa-escola, bolsa-renda, bolsa-alimentação, bolsa-criança cidadã e bolsa-qualificação profissional, agora também querem lançar o bolsa-figuração. Guaribas vai virar um pólo cinematográfico, a futura Hollywood do agreste. O único inconveniente é que nordestinos famintos só servem para interpretar nordestinos famintos. Ficam um pouco inverossímeis em outros papéis. Temo que, nos próximos anos, tenhamos de assistir a uns dezoito filmes sobre Antônio Conselheiro e Canudos. Mas nunca se sabe. Pode ser que surja um novo Marlon Brando por lá. Ou um novo Fred Astaire, que revolucione o gênero musical. Se a experiência de implantar um pólo cinematográfico em Guaribas der certo, os técnicos do Ministério da Cultura, em direta concorrência com os da Usaid, podem ajudar a implantar um em Nassiriah, transformando-a numa Hollywood do deserto. Será nossa contribuição desinteressada para a reconstrução do Iraque. O problema da fome, pelo menos, estará resolvido. Tanto aqui como lá.

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