Entrevista:O Estado inteligente

sábado, maio 30, 2009

Merval Pereira Metas para 2020

 O GLOBO


A crise entre o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, os produtores rurais, a quem chamou de "vigaristas", e os ministros "desenvolvimentistas" chega em um momento delicado, em que o Brasil é chamado a ter um papel relevante na política internacional de preservação do meio ambiente. O governo do presidente Lula parece preso a um paradoxo: gosta da parte ambiental que favorece o Brasil, como os combustíveis alternativos. Mas não se conforma com as normas ambientais que atrasam as obras do PAC.

O filósofo e historiador americano Jim Garrison, presidente do State of the World, uma ONG criada por Mikhail Gorbachev dedicada à preservação do meio ambiente, está no Brasil desde o início do ano tentando obter o apoio do governo brasileiro para um plano ambicioso de antecipar de 2050 para 2020 as metas de redução de emissão de gases de efeito estufa que devem ser definidas em uma reunião da ONU em Copenhagen no final do ano, em substituição ao Protocolo de Kyoto.

A ideia de Garrison é fazer uma conferência em uma cidade diferente nos próximos dez anos, "para chamar a atenção para esse enorme desafio", e o Brasil seria a sede de 2010.

Para ele, o Brasil deve ser um dos líderes desse movimento, levando em conta justamente a política de combustíveis alternativos como o biodiesel e as condições climáticas favoráveis também à energia solar e de ventos.

Jim Garrison acha que o Brasil, por ser um dos maiores países do mundo, ter recursos naturais, viver em paz com os vizinhos e ser grande produtor de energia de fonte limpa (hidrelétricas), pode assumir a liderança desse movimento.

Garrison cita como bom exemplo a Cemig, companhia de energia de Minas, que tem 82% de sua geração de fonte limpa. Segundo ele, a Cemig, cujas ações são cotadas em Nova York, é considerada pela Dow Jones um destaque entre empresas do mundo que atuam na economia sustentável.

Diz Garrison que, segundo estudo do MIT (Massachusetts Institute of Tecnology), mesmo que fosse alcançada uma redução de 80% nas emissões até 2050, a temperatura subiria 4 graus. Por isso a necessidade de antecipar a meta para 2020.

Outra consequência preocupante do aquecimento global seria a subida do nível dos oceanos. Com o derretimento do Ártico e Groenlândia, o nível dos oceanos subirá, no mínimo, 25 metros, adverte Garrison, o que atingiria todos os países que têm grandes costas marítimas, como o Brasil.

A elevação do nível dos oceanos forçará a migração das populações litorâneas para o interior, em meio à falta de alimentos.

O derretimento de geleiras afetará cerca de 2,5 bilhões de pessoas, especialmente na China e na Índia.

A ocorrência de secas também na América Central levará a que haja migrações para os Estados Unidos, e destes para o Canadá.

Será um "cataclismo", segundo Garrison, que não acredita que os Estados Unidos possam liderar uma mudança nos hábitos da humanidade por estarem envolvidos com uma crise econômica de graves proporções, embora acredite que o governo de Barack Obama estará comprometido, na reunião do fim do ano, com um programa de redução do efeito estufa.

Garrison levará o resultado das discussões no Brasil para uma reunião em Washington, em novembro, quando será debatido o que levar para Copenhagen onde, defende, deve-se lutar para fixar para 2020 a meta de corte de 80% das emissões.

Jim Garrison volta a alertar: "Se as emissões parassem amanhã, seriam necessários milhares de anos para o ambiente se recuperar".

Segundo ele, "o momentum (das emissões) é tão forte que já não se pode mais evitar que a temperatura suba de 4 a 5 graus até 2050".

Garrison alerta sobre as emissões naturais do metano para a atmosfera, causadas pelo degelo, segundo ele, em quantidade seis vezes maior que tudo que a Humanidade produziu desse gás até hoje.

Ele conta que um comandante russo de navio, ao navegar pelo Ártico, testemunhou que a água borbulhava. Era o escapamento de metano. Sobre o que fazer, ele afirma que não podemos mais evitar o aquecimento, mas podemos evitar "o pior".

"Se temos dez anos para nos preparar, temos que fazêlo decididamente".

Há dias, encerrou-se em Copenhagen um encontro empresarial internacional de preparação à reunião do fim do ano, e seis medidas foram decididas, algumas delas já para 2020.

O pressuposto de Jim Garrison de que é inevitável o aquecimento de 4 a 5 graus até 2050 não é aceito pelo fórum, que está propondo medidas para limitar esse aquecimento a 2 graus. São as seguintes as medidas: — Acordo para o estabelecimento de metas de redução do efeito estufa que sejam atingidas em 2020 e 2050, de forma a limitar a média do crescimento da temperatura a 2 graus. Medidas de curto prazo devem ser tomadas, e as de longo prazo devem focar o objetivo de fazer com que as emissões globais caiam pelo menos à metade dos níveis de 1990.

— Medição das emissões por atividade de negócios para que as metas possam ser verificadas.

— Incentivos para um aumento dramático nos financiamentos de tecnologia de baixas emissões.

— Desenvolvimento de novas tecnologias de baixas emissões.

— Fundos para tornar as comunidades mais capazes de se adaptar aos efeitos da mudança climática.

— Meios para financiamento da proteção das florestas.

A grande surpresa do encontro empresarial em Copenhagen foi a posição dos empresários chineses , comprometidos com metas de redução dos gases de efeito estufa e com energias alternativas. (Continua amanhã)

Reinaldo Azevedo:ONDE É QUE LULINHA ESTUDOU MESMO, LULÃO?

ONDE É QUE LULINHA ESTUDOU MESMO, LULÃO?

sábado, 30 de maio de 2009 | 5:53

Olhem, como se diz por aí, "na boa", não sei como Lula consegue se olhar no espelho depois de fazer certos discursos. Tá bom, vá lá, eu sei. Eu mesmo já identifiquei aqui uma possível patologia psíquica: Lula é destituído de superego. Por que isso agora? Ontem, esse gênio da raça descobriu os culpados pela baixa qualidade do ensino: a classe média: "Uma das razões pelas quais a escola pública foi se deteriorando é porque grande parte da classe média se afastou dela. Para não brigar [por qualidade], decidiu colocar os filhos na escola particular. E pagar na mensalidade de 3º ano primário o mesmo preço de uma universidade particular".

 

Não está sozinho nessa avaliação. Há alguns teóricos da educação — também de classe média ou acima disso, que jamais pisaram numa escola pública — que acham a mesma coisa. É a velha tese de que os responsáveis por seus problemas são as vítimas. Ora, a classe média se afastou da escola pública porque ela era ineficiente. Claro, claro: o pai e a mãe poderiam ter-se convertido em militantes da causa. Enquanto isso, os filhos ficariam comendo grama; enquanto isso, a esquerdopatia reinante nos sindicatos de professores ficariam promovendo greves. "Ah, os sindicatos só são assim porque as condições são ruins". Mentira! Em São Paulo, a Apeoesp se opôs a um programa de qualificação do corpo docente. É gente que promove queima de livro. Mas me afastei um pouco.

 

Lula, quando ainda dirigente da oposição, poderia ter dado o exemplo. Poderia ter posto os filhos para estudar na escola pública. Quem melhor do que ele para liderar o movimento, não é mesmo? Pois se preparem para uma revelação. Sabem o Fábio Luiz da Silva, o Lulinha, o Ronaldinho de Lula? ESTUDOU EM ESCOLA PARTICULAR. É, em escola particular. Mais precisamente, no Colégio Singular, em Santo André, uma das mais conceituadas da região. Como eu sei? EU DAVA AULA LÁ.

 

Mas é claro que a coisa foi feita à moda Lula. Fábio estudou no Colégio Singular, mas com bolsa de estudos, entenderam? Lula, o burguês do capital alheio, pôs o seu prestígio político a serviço da concessão de um privilégio — ou vocês acham que ele não tinha dinheiro para pagar a escola do seu gênio empresarial? Tinha. Mas, vocês sabem, onde há uma mamata, Lula está lá, mamando. "O cara" até recebe pensão por ter lutado contra a ditadura, ora essa!!! Enquanto ele "lutava", construía o PT, que o faria chegar à Presidência, constituía um patrimônio que nenhum outro trabalhador com o seu nível de instrução tem e garantia a melhor escola para os filhos — sem desembolsar um tostão por isso.

 

Do Singular, já saíram alunos que se transformaram em profissionais de primeiro time, alguns com renome internacional. Volta e meia, um ex-aluno de lá manda um comentário a este velho professor… Só tenho 47. É que comecei a dar aula muito cedo. Pois bem, não foi o caso de Lulinha. Cursou biologia, vagou aqui e ali etc. Quando o pai alcançou a Presidência, era monitor de Jardim Zoológico: "Lulinha, onde fica a zebra?" Ele indicava. "Lulinha, onde fica a anta?" Ele mostrava. "Lulinha, onde fica o jumento?" Ele dava o caminho. O pai chegou lá, e ele se transformou num empresário de enorme sucesso, não é? A Telemar — atual Oi, de que Sérgio Andrade, o principal financiador das campanhas do seu pai, é sócio — logo descobriu o seu talento para o mundo dos negócios. A fala a seguir é pura imaginação benevolente deste escrita: "Que é isso, Lulinha? Alguém com o seu talento em, bem…, em seja lá o que for, merece ser empresário". E Lulinha virou empresário. A família Andrade gosta da família Lula. Custeou a educação de Lurian em Paris.

 

Como a gente vê, o Brasil continua mesmo a ser um país injusto. É preciso pôr um fim nesse regime que garante a existência de fidalgos — sejam eles da antes chamada "burguesia", seja da antes chamada "classe operária". O que o Brasil ainda não conseguiu ser, de fato, é uma República. É preciso pôr fim ao regime dos aristocratas. E Lula é o seu mais pançudo representante.

 

Mais uma vez, este senhor é flagrado a fazer o exato oposto do que enuncia e anuncia

Veja Carta ao Leitor


Leões vegetarianos

ESQUERDA EFICIENTE
Cabral com o presidente Funes e Vanda, sua mulher, brasileira e petista

Oficialmente não consta da pauta brasileira de exportações de serviços o que, de certa ótica, talvez seja seu mais valioso item, a consultoria de moderação política e eficiência econômica dada a governos de esquerda da América Latina. Por canais que passam ao largo da diplomacia tradicional, o Brasil vem conseguindo influenciar pontual mas positivamente os governos do Paraguai, Bolívia, Equador e, com taxa menor de sucesso, os da Argentina e Venezuela. Mas está em El Salvador, na América Central, o exemplo mais completo dessa transferência de tecnologia de criação de "leões vegetarianos", apelido carinhoso dado a governantes de esquerda com adesão aos princípios democráticos e às políticas econômicas responsáveis. Os salvadorenhos ainda exibem as cicatrizes de um passado recente devastado pela intolerância política que mergulhou o país em uma sangrenta e duradoura guerra civil. Seu presente e seu futuro, porém, são animadores. Muito disso se deve à ajuda, digamos técnica, do PT e à decisão do presidente salvadorenho, Mauricio Funes, de adotar Lula como modelo.

VEJA mandou a El Salvador o jornalista Otávio Cabral, da sucursal de Brasília, com a missão de apurar as reais dimensões dessa inédita colaboração entre os dois países. Cabral voltou impressionado com a similaridade entre os processos de viabilização política de Lula no Brasil e de Funes em El Salvador: "Candidato pela Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional, até duas décadas atrás um violento movimento guerrilheiro, Funes foi pragmático. Ele só venceu a eleição porque conseguiu atrair parte do eleitorado conservador que temia um regime de esquerda radical. Lula e o PT foram sua inspiração".

Na reportagem que começa na página 66, o enviado de VEJA conta que os petistas do Brasil aconselharam Funes a escrever uma Carta ao Povo Salvadorenho nos mesmos moldes da Carta ao Povo Brasileiro, garantindo que não haveria rupturas econômicas. Eleito em uma disputa apertada, Funes indicou para comandar o Banco Central um economista respeitado nos grandes centros financeiros e contratou técnicos ligados à oposição. Ajudou muito no processo, é claro, o fato de Funes ser casado com a advogada brasileira Vanda Pignato, uma petista militante. Mas, com Fidel Castro e Hugo Chávez tão perto, é uma sorte para os salvadorenhos e para o continente que seu presidente esquerdista tenha se espelhado em Lula.

O processo contra o delegado Protógenes

da Veja

Agora ele é réu

Protógenes Queiroz, o delegado da Satiagraha, começa
a ser processado pelas ilegalidades que cometeu


Fábio Portela

Fernando Amorim/Ag. A Tarde/AE
NA JUSTIÇA
O delegado responderá por vazar informações sigilosas e fraudar provas processuais


VEJA TAMBÉM
Do arquivo
• Sem limites (11/3/2009) 
• Ele é um canhão à solta(18/3/2009)
• Ainda mais enrolado (25/3/2009) 
• Uma luz sobre os porões do grampo (13/5/2009)

Operação Satiagraha, que não sai do noticiário, pode ser resumida assim: para investigar secretamente um banqueiro suspeito de operações fraudulentas e cheio de inimigos, inclusive nas altas esferas do governo, um delegado da Polícia Federal une-se ao chefe do serviço de inteligência da Presidência da República e coloca na rua um bloco de quase uma centena de espiões – que não poderiam atuar como meganhas. Durante um ano e meio, eles vigiaram e grampearam, além do banqueiro, deputados, senadores, juízes, advogados e jornalistas – na maioria das vezes, de maneira ilegal. Ao final, o delegado produziu um relatório que se presta a ajustes de contas pessoais, políticas e empresariais. O nome do delegado é Protógenes Queiroz, o do chefe da inteligência é Paulo Lacerda e o do banqueiro, Daniel Dantas. Pelo fato de as duas autoridades terem usado o aparelho estatal de forma ilegítima e lançado uma série de acusações mal fundamentadas e formuladas, o resultado é que o banqueiro poderá se safar.

O que está em jogo nessa história toda de Satiagraha é muito mais do que destinos individuais de três homens. É a própria noção de estado de direito, no qual os ritos formais que regem a atuação da polícia, da Justiça e dos espiões oficiais representam uma garantia não só de que as liberdades dos cidadãos serão preservadas, como de que os culpados de crimes serão punidos e os inocentes, absolvidos, sem dar margem a dúvidas. Ao atropelar o estado de direito, o delegado Protógenes e o doutor Paulo Lacerda deverão pagar por seus atos, para que não se crie um perigoso precedente. O laço da Justiça já aperta o primeiro. A Justiça Federal o processa por violação de sigilo e fraude processual.

O delegado vazou informações sigilosas a repórteres da Rede Globo e pediu que eles filmassem um encontro de um policial com um emissário de Dantas, antes de a operação tornar-se pública. Na reunião, em um jantar, o policial pediu propina para excluir o banqueiro da operação. O representante caiu no flagrante armado. Dantas foi processado e condenado por corrupção. A prova do crime é o vídeo, que foi editado para retirar cenas nas quais os jornalistas apareciam. Como Protógenes alterou a prova, também cometeu fraude.

Grave, ainda, é a proximidade da relação do delegado com Rodrigo de Grandis e Fausto de Sanctis – procurador e juiz da Satiagraha, respectivamente. Os três deveriam atuar de maneira independente. A tarefa do policial é investigar. A do procurador, avaliar se há indícios para oferecer uma denúncia. A do juiz, decidir se o processo será aberto. "Os três só deveriam conversar oficialmente, por escrito. O distanciamento entre eles é o que garante a lisura do processo", diz o jurista Paulo Brossard, ex-ministro da Justiça. Na Satiagraha, porém, Protógenes, De Grandis e De Sanctis se falavam o tempo todo, como se formassem uma equipe. Em momentos-chave, os contatos telefônicos se intensificavam (veja o quadro abaixo), indicando que o trio combinava ações do inquérito. "Se um juiz deixa de ser o elemento de controle para tornar-se sócio da investigação, o estado democrático de direito fica amea-çado", diz o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes.

Outro pacote explosivo está prestes a ser aberto. O juiz Ali Mazloum, que instaurou o processo contra Protógenes, encontrou indícios de que um empresário ajudou a direcionar a Satiagraha: Luiz Roberto Demarco. Ele foi funcionário de Dantas. Demitido, passou a espionar o ex-patrão e a repassar as informações à Telecom Italia. Há indicações de que Demarco e Protógenes mantiveram contato durante a Satiagraha. Ou seja, a Polícia Federal pode ter sido usada para atender a interesses econômicos privados. Mazloum determinou a abertura de dois inquéritos: um apura a participação de Demarco na operação e outro afere o real alcance dos grampos ilegais. Para completar, a PF está convencida de que os personagens que mantinham contato com Protógenes – o trio De: Demarco, De Grandis e De Sanctis – conversavam por telefone, também, com Paulo Lacerda, o homem por trás da Satiagraha. Se tudo for confirmado, a operação inteira pode ser considerada ilegal. Isso não será culpa daqueles que a investigam agora, mas dos seus próprios autores – que não se preocuparam em agir dentro da lei.

 

 

Petismo O Brasil exporta a "revolução" lulista

da Veja

MODELO IMPORTADO
DO BRASIL

Depois de abandonar a guerrilha que deixou milhares
de mortos, a esquerda assume a Presidência da República
em El Salvador tendo Lula e o PT como modelos


Otávio Cabral, de San Salvador

Fotos Leonardo Wen/Folha Imagem e Edgar Romero/AP
ESPELHO
Mauricio Funes e Lula: ministros e assessores brasileiros envolvidos diretamente na campanha e na elaboração do plano de governo salvadorenho

Por doze anos, a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) manteve acesa uma sangrenta opção preferencial pela guerrilha com o objetivo de derrubar o governo e implantar o regime comunista em El Salvador. O conflito deixou um saldo de 75 000 mortos, dividiu o país e o mergulhou em uma profunda crise econômica, social e política. Nesta segunda-feira, dezessete anos depois de trocar as armas pelo palanque, finalmente a FMLN assume o poder. A festa da posse de Mauricio Funes, o novo presidente, marcará o triunfo da revolução que começou no século passado, embora pouco ou quase nada reste daquilo que os velhos guerrilheiros imaginavam como modelo de civilização. Fidel Castro e Che Guevara, os líderes que inspiravam as ações violentas do grupo no passado, serão citados como referências históricas de um tempo que já se foi. O destaque da festa será o presidente Lula, que encontrará um cenário muito familiar na menor nação continental da América Central. Para vencer a eleição, a FMLN abandonou o discurso radical, fez alianças com políticos antes hostilizados, firmou compromisso público de que não haveria rupturas econômicas e se comprometeu com ações que vão priorizar a parte mais pobre da população. Alguma semelhança com a campanha do PT em 2002? Toda.

O modelo brasileiro não só inspirou como ajudou a eleger o novo presidente salvadorenho. A FMLN, assim como o PT, surgiu em 1980, como a principal força de oposição a um governo militar. Derrotada no campo de batalha, a FMLN desvestiu a farda e aderiu ao jogo eleitoral democrático. Apareceu à luz do dia dividida em tendências, refratária a alianças, com uma ala ainda nostálgica da luta armada e prometendo desmontar a política econômica capitalista quando chegasse ao poder. A Frente, a exemplo do PT, também foi derrotada em três eleições presidenciais seguidas. Exatamente como o PT, os salvadorenhos perceberam que sem uma reforma interna não chegariam a lugar nenhum. El Salvador ainda é um país polarizado entre o que se convencionou chamar de direita e esquerda, e muitas de suas forças políticas vivem como se o mundo estivesse sob a Guerra Fria. Mas a maioria da população já chegou ao século XXI. Na campanha, os adversários de Mauricio Funes tentaram associar sua imagem à de Hugo Chávez e à de Fidel Castro – e assim caracterizá-lo como a ameaça comunista. Não colou. Usar o exemplo do Brasil foi o antídoto escolhido pelos ex-guerrilheiros para atrair parte do empresariado e do eleitorado tradicional da direita. "Lula é um modelo e um exemplo para mim", disse o presidente Funes na semana passada a VEJA, no escritório do governo de transição, em um hotel de luxo em San Salvador. "Da mesma maneira que Lula, eu sei que não é possível fazer um governo sectário, rompendo com tudo o que já foi feito no país. É preciso governar com toda a sociedade para que El Salvador supere sua grave crise econômica."

Susan Meiselas/Magnum/Latinstock
SEM TIROS
A guerrilha da FMLN lutou durante mais de uma década para implantar o comunismo em El Salvador: vitória nas urnas e compromisso com regime sem rupturas

A participação brasileira na campanha da FMLN não se resumiu a uma mera associação de imagens. O governo brasileiro e o PT despacharam para lá assessores e técnicos para ajudar na campanha eleitoral e, depois da vitória, na transição de governo. O responsável pelo marketing foi o publicitário João Santana, o mesmo da reeleição de Lula. Santana passou três meses instalado em um escritório em El Salvador comandando uma equipe de trinta pessoas – vinte delas brasileiras. Não por coincidência, o símbolo da campanha era uma estrela vermelha, o candidato Funes sempre aparecia trajando ternos bem cortados, falando serenamente e discursando a "esperança" e a possibilidade de ser ele o homem certo para a "mudança com responsabilidade". A FMLN não informa quanto foi gasto com propaganda, nem quem foi o responsável pelo pagamento. Os adversários derrotados, é natural, insinuam que a fonte dos recursos pode ser localizada no Brasil.

A estrutura da campanha presidencial da FMLN contou com outras figuras importantes do governo brasileiro e do petismo – cada uma levando sua própria experiência a El Salvador. Marco Aurélio Garcia, o assessor para assuntos internacionais de Lula, esteve lá três vezes. O ex-ministro José Dirceu, que tem trânsito livre e acesso direto ao presidente Mauricio Funes, ajudou na estratégia de montagem das alianças políticas internas. A socióloga Ana Fonseca, uma das mentoras do programa Bolsa Família, passou uma semana no país projetando o Rede Solidária, a versão local do benefício. No início do ano, quando o clima na campanha ficou acirrado, Funes precisou atrair parte do empresariado para seu lado. Foi a vez de o deputado e ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci dar sua contribuição. Responsável pelo plano de governo do PT, ele recomendou que o candidato redigisse uma carta nos mesmos moldes da Carta ao Povo Brasileiro, da campanha de Lula em 2002, na qual garantiria que contratos seriam honrados e que o país pagaria suas dívidas. Isso acalmou os mercados, possibilitou a injeção de recursos na campanha do esquerdista e praticamente assegurou a vitória do candidato oposicionista.

Fernando Amorim/Folha Imagem
MULHER FORTE
Petista militante, a primeira-dama Vanda Pignato foi a responsável pela aproximação com Lula


Mesmo no processo de transição, a tecnologia petista continuou sendo aplicada segundo o modelo utilizado no Brasil. Gilberto Carvalho, chefe de gabinete de Lula, passou três dias em San Salvador para "ensinar Funes a negociar com a direita", conforme suas próprias palavras. Para mostrar que não estava blefando, na semana passada, ao anunciar os nomes de sua equipe econômica, Funes indicou políticos moderados e economistas ligados ao mercado financeiro para os principais cargos, inclusive o Banco Central. Também anunciou a criação de programa similar ao PAC. "Lula comanda no Brasil um estado planejador na busca de crescimento econômico, distribuição de renda e combate à pobreza. É o mesmo modelo que pretendo adotar aqui em El Salvador, adaptado às realidades do país", afirmou Funes. As semelhanças, porém, param por aí. A situação que Funes herda é muito mais grave do que a enfrentada por Lula. El Salvador viveu uma guerra civil de 1980 a 1992 que deixou mais de 75 000 mortos e dividiu o país. Mesmo após um acordo de paz bancado pela ONU e uma lei de anistia ampla nos moldes da brasileira, a violência ainda impera no país, que tem o maior índice de homicídios da América Latina. É comum ver seguranças privados armados de escopetas e metralhadoras protegendo prédios comerciais e residenciais, sempre cercados por rolos de arame farpado eletrificado. A economia é dolarizada e frágil, o país praticamente não tem indústria e possui parcos recursos naturais. Para piorar, inconformados com as primeiras medidas econômicas, setores do próprio partido de Funes ameaçam boicotar o governo. Sindicatos rurais acenam com uma greve contra o ministro da Agricultura e a equipe do vice-presidente eleito, um ex-guerrilheiro, em protesto, ameaça não ir à cerimônia de posse.

"Funes está em uma encruzilhada. Se mantiver o discurso responsável da campanha, poderá ter sucesso na economia, mas vai desagradar a boa parte de seu partido, podendo provocar instabilidade política", analisa o cientista político Roberto Rubio-Fabián, diretor executivo da Fundação Nacional para o Desenvolvimento de El Salvador. "Se ceder às ideias da Frente e aderir ao socialismo bolivariano de Chávez, ele poderá acentuar a crise econômica e dividir o país." Entre a cruz e a espada, Mauricio Funes terá de se mostrar um bom negociador e compensar com a adesão do empresariado e de parte dos políticos conservadores uma eventual dissidência na Frente, conclui Rubio-Fabián. Não será uma tarefa fácil. Mas nada pode ser fácil em um país dividido politicamente e com uma das maiores desigualdades sociais do mundo.

Fabio Rodrigues Pozzebom/ABR
Sergio Lima/Folha Imagem
Alan Marques/Folha Imagem
ANTONIO PALOCCI
O ex-ministro sugeriu carta para garantir que não haveria quebras de contrato
ANA FONSECA
Esteve em El Salvador para ajudar no projeto de criação do Bolsa Família local
GILBERTO CARVALHO
Foi ao país para ensinar os ex-guerrilheiros comunistas a "negociar com a direita"

Apesar da estreita colaboração entre as equipes, o principal elo entre o Brasil e o novo governo salvadorenho é a advogada Vanda Pignato, a primeira-dama. Paulistana do Tatuapé e fundadora do PT, Vanda mudou-se para El Salvador em 1992, pouco depois de um acordo mediado pela ONU para pôr fim à guerra civil. Representante do PT para assuntos da América Central, há quinze anos ela conheceu Funes, então jornalista e apresentador de uma rede de televisão. Vanda foi essencial na escolha do marido como candidato da Frente e na estratégia de campanha, plugada na experiência do PT. Centralizadora, brigou com boa parte da velha guarda comunista, mas seu trabalho de aproximação com o Brasil e com o empresariado local lhe rendeu respeito – e inevitáveis comparações com o estilo do ex-ministro José Dirceu. A partir desta semana será possível começar a avaliar os resultados da vitória da "revolução" sem tiros. Se der certo, como se espera, Lula e o PT poderão dizer, com toda a razão, que "nunca antes neste continente...".

Deputado mensaleiro tinha conta secreta no exterior

da Veja

REVELAÇÕES DE UM CORRETOR

Em regime de delação premiada, o homem que ajudou 
a desvendar o escândalo do mensalão revela a existência
de uma conta secreta do deputado Valdemar Costa Neto


Diego Escosteguy

Fotos Dida Sampaio/AE, Sergio Lima/Folha Imagem e Diário de Mogi
DINHEIRO SUJO
O corretor de câmbio Lúcio Funaro, o deputado Valdemar Costa Neto e o banqueiro Henrique Borenstein: a conta secreta teria sido abastecida com dinheiro de propina recebida em negócios com o governo


VEJA TAMBÉM
Especial on-line
• O julgamento do mensalão

A delação premiada é, reconhecidamente, um dos instrumentos mais eficazes para produzir provas num processo criminal – tão eficiente quanto polêmico, registre-se. Esse expediente, por meio do qual um criminoso obtém perdão ao colaborar com as autoridades judiciárias, é empregado à larga pelos promotores de países como Estados Unidos e Itália, nos quais o poder e a extensão do crime organizado constituem uma constante ameaça à sociedade. No Brasil, a delação premiada, embora seja prevista em lei, ainda engatinha. Há poucos casos conhecidos de sua aplicação. Na semana passada, VEJA obteve detalhes da delação mais explosiva de que se tem notícia no país: o acordo firmado pela Procuradoria-Geral da República com Lúcio Bolonha Funaro, o corretor de câmbio que intermediou pagamentos de dinheiro no escândalo do mensalão. Ele aceitou contar tudo o que sabe ao Ministério Público. Ao longo dos últimos anos, Funaro entregou nomes, valores, datas e documentos bancários que incriminaram, em especial, o deputado paulista Valdemar Costa Neto, do Partido da República, um dos próceres do esquema do mensalão, réu por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. A acusação mais demolidora de Funaro é investigada em segredo. O corretor afirmou que Valdemar era beneficiário de uma conta no banco BCN de Nova York. Uma conta secreta e abastecida com dinheiro de propina.

Como o corretor cumpriu o acordo, o procurador-geral o excluiu da denúncia do mensalão. Funaro revelou que descobriu a conta em 2002, quando foi procurado pelo empresário Henrique Borenstein, ex-diretor do BCN, banco incorporado pelo Bradesco no fim dos anos 90. Nas eleições de 2002, o banqueiro pediu a Funaro que emprestasse 3 milhões de reais ao deputado, que precisaria pagar despesas de campanha. Como garantia do empréstimo, Borenstein apresentou a conta de Valdemar em Nova York. "Fique tranquilo. Eu administro essa conta e ela tem um saldo de 1,2 milhão de dólares. Se Valdemar não pagar, eu transfiro o dinheiro para você", assegurou Borenstein. Diante da garantia, o corretor resolveu emprestar o dinheiro ao deputado. Como se descobriu no decorrer do escândalo do mensalão, para quitar essa dívida Valdemar recorreu ao ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, que recorreu ao lobista Marcos Valério de Souza, que recorreu ao Banco Rural... No fim, graças à diligência da turma do mensalão, Borenstein não precisou limpar a conta secreta de Valdemar.

Funaro disse aos procuradores que, uma vez resolvida a dívida, se aproximou de Valdemar. Nessas conversas, o deputado narrou ao corretor as trambicagens que abasteciam a conta secreta. Valdemar, segundo ele, confidenciou que a conta fora aberta por Borenstein no começo dos anos 90, quando o pai do deputado era prefeito de Mogi das Cruzes. Na época, Waldemar Costa Filho determinou que a prefeitura contraísse empréstimos no BCN, o banco do amigo Borenstein, a juros "muito acima" dos praticados no mercado. O pagamento pela camaradagem do prefeito, ou seja, a propina, era depositado na conta aberta por Borenstein em Nova York, cujo beneficiário era o filho, o deputado Valdemar Neto. "Nós ganhamos muito dinheiro com isso", relatou o deputado, segundo contou Funaro. O empresário Henrique Borenstein admite que apresentou Valdemar ao corretor de câmbio, mas diz que "nada sabe" sobre a existência de uma conta do deputado no exterior. Já o parlamentar enviou a VEJA uma correspondência do banco em Nova York assegurando que não existe nenhuma conta em seu nome. O documento nada fala a respeito do pai do deputado.

Não é a primeira vez que se tem notícia sobre a existência de contas no exterior em nome de políticos. O ex-governador Paulo Maluf, por exemplo, guardava 200 milhões de reais em paraísos fiscais. Estima-se que brasileiros mantenham 70 bilhões de dólares no exterior em contas ilegais. Frise-se que não é ilegal abrir uma conta no exterior. Ilegal é não declará-la ao Fisco. Há duas razões para ocultá-la: sonegar impostos e, principalmente, esconder a origem do dinheiro. No caso de Valdemar, não há dúvidas de que se trata da segunda opção.

CPI da Petrobras O governo conseguiu blindar a empresa

da Veja

INSTALADA A CPI DO CQC

Dirigida por especialista em escândalos, a CPI da Petrobras 
já produziu uma certeza: vai custar caro ao contribuinte


Alexandre Oltramari

Fotos Ailton Freitas/Ag. Globo e Andre Dusek/AE 

UMA EQUIPE BEM EXPERIENTE Renan Calheiros, que comanda o circo,
e Romero Jucá, cotado para relator: se o assunto é fraude...

Um dos programas mais divertidos da televisão brasileira, o Custe o que Custar (CQC), vai ganhar um concorrente de peso. Nesta semana, o Senado instalará a CPI da Petrobras, investigação que deveria apurar suspeitas de malfeitorias na administração da maior empresa do país. A CPI, que já tem seus onze integrantes definidos, será dirigida por Renan Calheiros, um colecionador de escândalos especialista na arte de barganhar verbas e cargos por favores a governos. Seu elenco, que vai frequentar o horário nobre da televisão pelos próximos 180 dias, tem bastante experiência na área. Dos onze integrantes da CPI, oito são réus em ações criminais no Supremo Tribunal Federal ou tiveram sua campanha financiada por empresas que fazem negócios com a petrolífera. O favorito ao cargo de relator, o senador peemedebista Romero Jucá, é investigado em dois inquéritos e já foi indiciado por crimes de responsabilidade e corrupção eleitoral. Nas mãos de Calheiros e sua turma, portanto, a CPI da Petrobras tem tudo para se transformar em uma espécie de CQC. A diferença é que o humorístico dirigido por Calheiros, além de não ter nenhuma graça, custará muito caro aos cofres públicos.

A CPI da Petrobras nem começou e já mostrou a que veio. Um de seus integrantes, o senador João Pedro, do PT do Amazonas, sugeriu o roteiro que ele considera ideal: "Acho que temos de ir no passado da Petrobras e investigar coisas como o acidente da plataforma P-36 e os gestores durante o governo Fernando Henrique". Embora as auditorias do Tribunal de Contas da União (TCU) que serviram de base para a criação da CPI tenham identificado superfaturamento milionário (81,5 milhões numa única obra), contratos sem licitação e indícios de fraudes recentes, o petista pretende iniciar a CPI investigando fatos ocorridos há oito anos. A tecnologia de transformar CPIs em campeonatos de delitos é recente e eficaz, quando o objetivo é não apurar nada. Foi adotada na CPI dos Correios, em 2005, e na CPI dos Cartões, no ano passado – e começa a ser reprisada agora. E foi exatamente para garantir que as investigações sejam mantidas sob estrito controle dos interesses oficiais que o governo lançou mão dos valiosos serviços oferecidos por Renan Calheiros, Romero Jucá e outros integrantes do noticiário policial do Congresso. Eles estarão lá, atentos, de prontidão, dispostos, como sempre, a fazer o que for preciso, custe o que custar.

Naufraga projeto do terceiro mandato

da veja

O GOLPE DENTRO DO GOLPE

Tese do terceiro mandato fracassa e seus 
trambiques devem varrê-la para o lixo da história


Expedito Filho

Dida Sampaio
ELE OU ELA? Lula quer Dilma, mas dá asas ao "terceiro mandato" 
para não deixar nenhum vácuo de poder até o último dia no Planalto

O presidente Lula já disse diversas vezes que não aceita. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, também falou que a mais alta corte de Justiça do país não aprova. Até o PT, o maior interessado na mudança, divulgou um manifesto contra. Ainda assim, depois de quase três anos de desmentidos, começou a tramitar na semana passada a proposta de emenda à Constituição (PEC) que permite ao presidente Lula disputar um terceiro mandato no ano que vem. De autoria do deputado federal Jackson Barreto, do PMDB de Sergipe, a emenda foi apresentada com 215 assinaturas de deputados e condiciona o terceiro mandato à realização de plebiscito marcado para setembro. O golpe, que ganhou força com a luta da ministra Dilma Rousseff contra um câncer, mal começou sua marcha e já corre o risco de ser varrido para o lixo da história. É que, assim como seu conteúdo, a tramitação da PEC também é um trambique. Das 215 assinaturas apresentadas, 32 estavam duplicadas. As 183 restantes foram reduzidas para 166, cinco a menos do que o necessário, depois que dezessete parlamentares retiraram seu nome ou alegaram nunca ter assinado a tal lista. O golpe dentro do golpe fez a Câmara devolver a PEC ao deputado Barreto. Ele promete reapresentá-la nesta semana.

Sergio Lima/Folha Image,
ESTRANHO A emenda do deputado Jackson Barreto tinha até assinaturas duplicadas

A mudança constitucional que permitiria a Lula e aos atuais governadores e prefeitos disputar um terceiro mandato deve ser aprovada até o fim de setembro deste ano para produzir efeitos já nas eleições do ano que vem. Ela precisa ser aprovada em dois turnos na Câmara e no Senado antes de ser promulgada pelo Congresso. Todos os especialistas acham muito difícil a tramitação em tempo recorde, mas um precedente anima a turma dos golpistas. Em 1999, a PEC que prorrogou a CPMF, um tema nada popular, tramitou durante exatos 119 dias – prazo inferior ao que ainda existe para a aprovação da emenda do terceiro mandato. "Se houver consenso e vontade política, a emenda pode ser aprovada em dois meses e entrar em vigor nas próximas eleições", afirma Barreto. O deputado sergipano é o pai de aluguel da tese da re-reeleição. Ex-carteiro que se diz solidário a Lula desde as greves do ABC, Barreto herdou de Devanir Ribeiro (PT-SP), compadre do presidente, o apelo pela mudança constitucional. Barreto e Devanir não entendem por que Fernando Henrique pôde mudar a Constituição para disputar a reeleição e Lula não pode alterá-la para tentar o terceiro mandato. Simples. Dois mandatos é quase uma regra nas democracias. Três só existe na África e em países como Cuba e Venezuela.

O tratamento que José Alencar fará em Houston

da Veja

A força de Alencar

Ao submeter-se a um tratamento experimental 
contra o câncer, o vice-presidente dá outra 
demonstração admirável do seu espírito de luta


Adriana Dias Lopes

VEJA TAMBÉM
Exclusivo on-line
• Prevenção e tratamento do câncer

Na sexta-feira da semana passada, o vice-presidente da República, José Alencar, deu início na cidade americana de Houston a mais um capítulo na história de sua heroica luta contra o câncer – um sarcoma localizado no abdômen e descoberto pela primeira vez em 2006. É a sexta tentativa de destruir o tumor. Como já foram esgotados todos os recursos disponíveis para combater a doença, foi sugerido a ele que se submetesse a um tratamento experimental. Alencar concordou, tornando-se, dessa forma, um dos cerca de trinta voluntários dos estudos clínicos com um remédio de ação inédita, cujo nome provisório é R7112. Os testes são conduzidos por uma equipe do hospital MD Anderson, centro de excelência em pesquisas oncológicas. Pertencente à classe dos medicamentos de terapia-alvo e administrado por via oral, o R7112 tem um mecanismo de ação inédito: ele regula o funcionamento de uma proteína envolvida no processo de multiplicação celular e cujo defeito está presente em metade de todos os casos de câncer (veja o quadro abaixo). "Nós estamos nos oferecendo para participar do programa de testes. Essa nossa participação, ainda que possa redundar em benefícios para todos, é de meu interesse, porque, afinal de contas, isso pode ser realmente a minha cura", disse Alencar.

A sugestão do tratamento partiu do oncologista Paulo Hoff, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, que durante onze anos trabalhou no MD Anderson. Para participar dos testes com o novo remédio, o vice-presidente passou por uma batelada de exames durante dois dias. Ele só seria aceito se apresentasse um quadro clínico estável – ou seja, se suas funções vitais estivessem sob controle, apesar do câncer agressivo em estágio avançado. É impossível determinar como Alencar reagirá, mas a princípio ele deve retornar aos Estados Unidos a cada 28 dias, a fim de tomar a medicação.

A recidiva do sarcoma foi identificada em 12 de maio, durante exames de controle. Uma ressonância magnética identificou a presença de dezoito nódulos na porção inferior do abdômen, com medidas entre 0,5 centímetro e 2 centímetros. Menos de quatro meses antes, Alencar fora submetido a uma cirurgia para a remoção de quinze nódulos – um procedimento de altíssimo risco, que demorou quase dezoito horas. Apesar da má notícia, o vice-presidente não se abateu. Pouco antes de embarcar para Houston, ele disse: "Sou da roça e estou acostumado a montar em cavalo bravo".



O custo do dinheiro começou a cair

O CRÉDITO VOLTA À CENA

Sinais de melhora na economia e a convicção de que a 
inadimplência deverá recuar levam os maiores bancos 
do país a baixar juros e ampliar limites de empréstimos


Benedito Sverberi

Fernando Bizerra Jr/BG Press
O BB CEDEU
Na semana passada, o banco reduziu as taxas de nove linhas de crédito


VEJA TAMBÉM
Nesta reportagem
• 
Quadro: Crédito facilitado 

As maiores instituições financeiras do país anunciaram na semana passada mudanças que, pela combinação de juros menores e prazos mais longos para pagamento, facilitam o acesso dos brasileiros aos empréstimos. O Banco do Brasil foi o mais agressivo no relaxamento das condições de crédito, estendendo seu "pacote de bondades" a nove tipos de financiamento. Além disso, aumentou o limite de crédito de 10 milhões de correntistas (um terço de sua base de clientes pessoas físicas), que agora têm 13 bilhões de reais a mais disponíveis para financiar suas compras. "Selecionamos clientes que têm bom relacionamento com o banco e com maior propensão a consumir", explica o vice-presidente de crédito, controladoria e risco global do BB, Ricardo Flores.

Ao que tudo indica, o Banco do Brasil cedeu às pressões por redução de juros vindas de seu acionista majoritário, o governo federal. O desejo do governo de ver os juros cair mais rapidamente para ajudar no crescimento da economia é legítimo. Contudo, quando se cogita o eventual uso dos bancos públicos para atingir esse objetivo, o temor é que haja repetição de algo que se viu no passado. Descuidos no controle de risco dos empréstimos, devido a ingerências políticas, já impuseram pesados prejuízos ao BB e à Caixa Econômica Federal, que tiveram de ser socorridos pelo Tesouro. A última vez que isso ocorreu foi em 2001, quando foi instalado o Programa de Fortalecimento das Instituições Financeiras (Proef), com custo de 12 bilhões de reais aos cofres públicos. Felizmente, a gestão desses bancos melhorou nos últimos anos, com a criação de mecanismos internos que procuram protegê-los das interferências políticas. Para o secretário extraordinário de reformas econômico-fiscais do Ministério da Fazenda, Bernard Appy, a atual política do BB é feita sob boas práticas bancárias. "O que se vê é somente uma postura mais agressiva para ganhar participação no mercado", declarou. O ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola reconhece os avanços de gestão, mas adota uma certa cautela. "Recentemente, o governo trocou a direção do Banco do Brasil para forçar a queda dos juros. Isso é um sinal ruim", diz.

As preocupações com a ingerência política só se reduzem neste momento porque as condições econômicas são favoráveis. De maneira geral, os bancos já não vislumbram um futuro tão tenebroso – e essa é a explicação para o atual barateamento do custo dos empréstimos. Existe hoje um conhecimento mais preciso da extensão da crise global. Além disso, a economia brasileira tem emitido sinais positivos. O BC revelou, na última quarta-feira, que as concessões de empréstimo para pessoa física se aceleraram em abril, com alta de 1,1% sobre março. Além disso, confirmou-se o declínio da inadimplência, com recuo de 8,4% para 8,2% nos atrasos acima de noventa dias. "Quando os bancos alongam os prazos de financiamento, é porque já existe a certeza de que a inadimplência 'bateu no teto' e que, daqui para a frente, tende a cair", diz o vice-presidente do Bradesco, Norberto Barbedo. Ainda não foi desta vez que as empresas se viram contempladas com facilidades na contratação de empréstimos. E a cautela dos bancos está em linha com os números do BC. As pessoas jurídicas ainda contam os prejuízos da parada por que passaram no fim de 2008, e seu índice de inadimplência subiu de 2,6% para 2,9% entre março e abril.

Por trás de toda essa discussão está a necessidade de o Brasil reduzir o spread bancário – a diferença entre o custo de captação dos bancos e os valores cobrados do cidadão na boca do caixa. Trata-se de um problema estrutural que tem de ser atacado em diversas frentes. A boa notícia é que os spreads já estão em declínio. Os últimos dados do BC revelaram que o spread médio dos empréstimos para pessoa física recobrou o nível de antes da crise, em setembro de 2008. Com os juros em queda, os bancos têm de compensar sua perda de receita com o aumento do volume de empréstimos. A saída é partir para a competição. Nesse contexto, a atuação do BB pode ser aplaudida. Somente se espera que não haja exagero na dose.

A concordata da GM

da Veja

Uma nova GM, agora estatal

Cai mais um ícone do capitalismo


Luís Guilherme Barrucho

Tony Gutierrez/AP
RECOMEÇO
Depois da reestruturação, a GM ficará apenas com as fábricas mais lucrativas

A General Motors, que já foi um dos símbolos de pujança da economia americana, viu-se, na semana passada, em meio a um impasse do qual dependia sua sobrevivência. Atolada na maior crise de sua história, a companhia precisava fechar um acordo com os detentores de títulos de sua dívida, a quem deve 27 bilhões de dólares – a metade do total –, para dar início a um inevitável processo de concordata. O plano é dividir a empresa entre uma "Velha GM", que ficará com fábricas deficitárias, contratos e outros passivos, para ser futuramente vendida, e uma "Nova GM", que permanecerá com as plantas, marcas e concessionárias mais lucrativas. A primeira tentativa de negociação da montadora com seus credores era justamente trocar a dívida por 10% dos ativos dessa "Nova GM" – mas a proposta foi recusada. Diante disso, o alto escalão da empresa subiu a oferta. Além do que havia oferecido, deu aos credores prioridade na compra de mais 15% da companhia já reestruturada. Isso com a promessa de cobrar pelas ações preço inferior ao valor de mercado. A única condição imposta pela GM era que não se colocasse nenhum obstáculo no processo de recuperação judicial. Dessa vez, a proposta teve boa acolhida. A montadora e o Tesouro americano, que já injetou 20 bilhões de dólares na GM, esperavam ouvir o o.k. final dos credores no sábado.

A "Nova GM" deve surgir em até noventa dias – com o governo americano como o maior acionista, com 72,5% das ações. Espera-se que o sindicato dos funcionários do setor fique com outros 17,5% e os detentores de títulos da dívida, com aqueles 10%. A estatização da GM foi a única solução encontrada para salvar a empresa. "Deixá-la quebrar aprofundaria a crise no setor e milhares de pessoas perderiam o emprego", diz Tereza Fernandez, da consultoria MB Associados. Ainda na semana passada, o governo alemão, a fabricante de autopeças canadense Magna e a GM chegaram a um acordo para a venda da subsidiária europeia da empresa Opel. Não chega a resolver a situação da montadora. Para se ter uma ideia, seu atual valor de mercado, 457 milhões de dólares, equivale a apenas 0,4% do da Toyota, hoje a maior fabricante de carros do mundo. Nada que faça lembrar os bons tempos em que a GM era uma das "Três Grandes de Detroit".

Coreia Armas nucleares em poder de insanos

da Veja

A bomba nas mãos de insanos

A posse de armas nucleares por países isolados e
instáveis, como a Coreia do Norte, aumenta o risco
de o gatilho atômico ser acionado por terroristas


Thomaz Favaro e Duda Teixeira

Montagem com fotos de David Guttenfelder/AP e Corbis/Latinstock
HERANÇA ATÔMICA
Muito doente, Kim Jong-Il vai deixar para seu herdeiro um legado infernal: um arsenal nuclear e o país mais isolado do mundo


VEJA TAMBÉM
Nesta reportagem
• 
Quadro: O fora da lei 
com gatilho atômico
 
Exclusivo on-line
• Os planos do ditador coreano

Terá chegado o momento de sentir saudade da segurança relativa da Guerra Fria? Naquele tempo sombrio, quando a humanidade segurava o fôlego diante da ameaça de aniquilação, pelo menos era possível acreditar que o gatilho nuclear estava em mãos inimigas responsáveis. O cenário atual é mais incerto e mais perigoso. Os dois únicos testes nucleares deste século foram realizados pela Coreia do Norte, uma ditadura tão enigmática quanto insana. O segundo deles, na segunda-feira passada, numa região montanhosa e inóspita no nordeste do país, reverberou como a confirmação de que a proliferação nuclear atingiu o patamar a partir do qual o perigo é imediato e urgente. Dois fatos principais justificam o alarme. A posse de um artefato atômico por um país isolado e pobre demonstra que o desenvolvimento desse tipo de armamento está ao alcance de qualquer nação disposta a investir os recursos necessários para fazê-lo. Se países miseráveis e com governos frágeis se armam com átomos, não está distante o momento em que o gatilho atômico cairá na mão do terrorismo. Um estudo da Universidade Stanford estimou a probabilidade de um ataque terrorista com o uso de bombas sujas (ou seja, explosivos comuns misturados a material radioativo) em 20%. Com bombas nucleares, cai para 1%. Qualquer estimativa acima de zero é um pesadelo quando se fala da combinação de terroristas e plutônio.

O mais notável fenômeno da era nuclear talvez seja o fato de que desde o ataque a Hiroshima e Nagasaki, em 1945, o último ano da II Guerra Mundial, nenhum país ousou detonar uma bomba atômica em combate. Os Estados Unidos tiveram o monopólio do átomo entre 1945 e 1949, mas não o usaram contra a União Soviética, apesar das provocações de Stalin. Também poderiam ter empregado esse recurso no Vietnã, onde a tonelagem de explosivos convencionais lançados equivaleu a dúzias de bombas como a de Hiroshima. Armas nucleares não foram usadas nem em situações desesperadas. A Casa Branca rejeitou os apelos nesse sentido do general Douglas MacArthur, que se viu impotente diante do avanço das divisões chinesas na Guerra da Coreia. O conflito terminou em 1953 no impasse que ainda hoje divide a península coreana entre dois inimigos mortais. É complicado explicar um evento que não ocorreu, mas é comum ouvir que o temor da aniquilação mútua conteve os ímpetos guerreiros dos Estados Unidos e da União Soviética. Porém isso não explica o comedimento em circunstâncias nas quais não havia o temor de retaliação, caso dos soviéticos no Afeganistão e dos americanos no Iraque.

Fotos Rizwan Tabussum/AFP
QUESTÃO DE COMANDO
O contraste entre a guarda de mísseis no Paquistão (à esq.) e as instalações modernas do Comando Norte-Americano de Defesa Aeroespacial. À direita, manifestante paquistanês: o risco de armas nucleares em um país pobre e instável

O cientista político James Lee Ray, da Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, acredita que por trás desse fenômeno reside uma espécie de "progresso moral". Esses conceitos éticos obedeceriam aos mesmos padrões daqueles que determinaram a eliminação da escravidão no século XIX – e, que, até hoje, mantêm a repulsa à sujeição de seres humanos. Mesmo sem uma proibição formal do uso de armas nucleares, as sociedades desenvolveram uma aversão moral a esse armamento. "As considerações éticas ajudaram a evitar o uso de armas nucleares desde 1945, pelo menos no que diz respeito a países detentores de um arsenal nuclear contra outros desprovidos dos mesmos artefatos", disse Lee Ray a VEJA. Com o fim da Guerra Fria, os países civilizados que assinaram o Tratado de Não Proliferação Nuclear, em 1968 (Estados Unidos, Rússia, China, Inglaterra e França), reduziram seus arsenais atômicos. Desde 1986, o número de ogivas no planeta caiu de 70 000 para 25 000, das quais cerca de 8 000 são operacionais. Outros países desistiram da bomba. Esse cenário animador, infelizmente, está agora virado de cabeça para baixo.

O fim da Guerra Fria também fomentou o comércio ilegal e a proliferação de programas nucleares em países periféricos, politicamente conturbados, como o Paquistão, quando não governados por fanáticos, como o Irã. Com a bomba na mão desse tipo de país, o capítulo seguinte se torna totalmente imprevisível. "Eu não diria que o progresso moral eliminou as possibilidades de que países instáveis, como a Coreia de Kim Jong-Il, desencadeiem uma guerra nuclear. No caso desses estados, na verdade, nem sei se posso falar em progresso moral", diz Lee Ray. O ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-Il, é uma figurinha ridícula, que usa sapatos com salto plataforma para compensar a baixa estatura e um topete ouriçado no estilo de Elvis Presley. Mas não deve ser visto como irracional ou suicida. As negociações em torno do programa nuclear norte-coreano se repetem há anos. Em bom português, pode-se dizer que a Coreia do Norte se especializou em chantagem diplomática. Em alguns momentos, senta-se à mesa com os demais países e acena com a paralisação de seu programa nuclear. Em outros, abandona rispidamente os encontros – o último foi há dois meses –, lança mísseis e faz novas ameaças. Com essa estratégia, Kim Jong-Il conseguiu ampliar o recebimento de ajuda humanitária internacional, da qual depende um terço da população, combustível e algum dinheiro. "O ditador norte-coreano quer mostrar firmeza e enviar mensagem que possa render-lhe novas concessões", disse a VEJA Stephen Noerper, analista do Nautilus Institute, na Califórnia.

Corbis/Sigma/Latinstock
ARSENAIS MENORES
Russos desmontam mísseis capazes de levar armas nucleares, em 1995: temor de que ogivas soviéticas acabassem nas mãos de terroristas

Por isso é difícil interpretar o acesso de fúria que tomou conta do governo de Pyongyang na semana passada. A escalada começou com o teste nuclear, subiu alguns tons com o disparo de meia dúzia de mísseis e se tornou estridente com o anúncio de que o país se retirava do acordo de armistício de 1953, que pôs fim à guerra. Em termos técnicos, está-se de volta ao tempo em que o general MacArthur queria vaporizar os comunistas. Desde a morte de Kim Il Sung, fundador e oficialmente presidente eterno, em 1994, não se via um comportamento tão errático da Coreia do Norte. Há explicações variadas, nenhuma delas tranquilizadora. A deterioração do país coincide agora com a decadência física de Kim Jong-Il. Ele sofreu um derrame cerebral no ano passado e, pelo que se vê nas fotos, o que sobrou é sombra do sujeito rechonchudo do passado. Aos 68 anos, ele tem a aparência de um agonizante, caminha com passos trôpegos e já não se arrisca a pronunciar uma única palavra em público.

O comunismo produziu um governo dinástico que tem mais a ver com os reis coreanos do passado do que com os ensinamentos de Marx e Lenin. Até a boa vontade divina para com o delfim é realçada na versão oficial de que Kim Jong-Il nasceu nas encostas do sagrado Monte Paektu e seu nascimento foi saudado por um duplo arco-íris. Na realidade, ele nasceu em um acampamento militar na Rússia, quando seu pai comandava o batalhão coreano do Exército Vermelho. O regime está inquieto com a sucessão – e talvez seja essa a razão de tanto rebuliço. O filho mais velho, Kim Jong-nam, de 38 anos, seria o candidato natural à sucessão, mas perdeu a vez depois do vexame de ser preso com passaporte falso no Japão, onde pretendia visitar a Disneylândia, em 2001. Também atrapalha sua presença assídua nos cassinos de Macau. O segundo, Kim Jong-chol, não conta. É homossexual e prefere assistir a um concerto de Eric Clapton na Alemanha ao tédio de um desfile militar. O favorito do ditador é o filho caçula, Kim Jong-un, de 26 anos. Educado na Suíça, fala diversas línguas, adora artes marciais e, dizem, tem a cara e o temperamento do pai: é prepotente, não gosta de ser questionado e se enfurece facilmente. É nas mãos desse jovem desconhecido que pode estar a bomba nuclear.

Bettmann/Corbis/Latinstock
PÂNICO NA ESCOLA
Estudantes americanos aprendem a se proteger de um ataque nuclear na década de 60: medo de uma hecatombe atômica nos anos da Guerra Fria

A possibilidade de a Coreia do Norte desfechar um ataque nuclear contra seja lá quem for é pequena. Em parte, porque sabe que, mesmo que arrase Seul, que está a apenas 40 quilômetros de distância, não escaparia de ser igualmente devastada. Há também que considerar que o desenvolvimento de seus artefatos bélicos está em estágio primitivo. Os dois dispositivos testados possuem mais de 3 metros de comprimento e pesam 4 toneladas. Com tais medidas, seria impossível colocá-los na ponta de um míssil. "Os dispositivos coreanos são grandes e rudimentares e não podem ser transportados nem mesmo a bordo de um avião", disse a VEJA o americano Rodger Baker, analista da Stratfor, uma consultoria de geopolítica com sede nos Estados Unidos. Estima-se que o artefato testado na semana passada tenha um poder de destruição de 4 quilotons, ou 4 000 toneladas de dinamite. A capacidade é menor do que a da bomba lançada pelos americanos sobre a cidade japonesa de Hiroshima, de 17 quilotons, mas dez vezes superior àquela testada pelos norte-coreanos em 2006.

A simples existência do programa norte-coreano é a prova da fragilidade dos mecanismos contra a proliferação nuclear. O Paquistão iniciou seu programa nuclear com os manuais de centrífugas de enriquecimento de urânio que o engenheiro Abdul Qadeer Khan roubou da empresa em que trabalhava na Holanda. O projeto da bomba foi comprado dos chineses. Festejado como herói nacional, Khan revelou-se um ladrão. Montou um esquema para vender equipamentos e tecnologia nuclear a quem tivesse interesse. Entre seus fregueses estavam o Irã, a Líbia e a Coreia do Norte. O esquema desabou em 2003, quando um carregamento com material para montar 1 000 centrífugas foi interceptado a caminho da Líbia. A Coreia do Norte agora tem parceria com o Irã no desenvolvimento de mísseis de longo alcance, capazes de levar ogivas nucleares. Montar um programa nuclear clandestino custa mais caro, mas é perfeitamente possível. Israel construiu seu arsenal às escondidas, nos anos 60. É verdade que até então não existia um tratado de não proliferação nuclear e nenhum país tinha obrigação legal de se privar de armas atômicas.

Fotos Bettmann/Corbis/Latinstock e AKG/Latinstock
LEMBRANÇA DO HORROR
Little Boy, a bomba atômica lançada sobre Hiroshima: modelo rudimentar, mas letal

Hoje é formalmente diferente. Devido ao tratado e à fiscalização da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), ligada à ONU, só os países isolados podem tocar seus programas militares sem ligar para a opinião da comunidade internacional. O Irã escondeu por duas décadas sua produção de urânio enriquecido e insiste em não cooperar com as inspeções da AIEA. Que tipo de responsabilidade se pode esperar de aiatolás com dentes nucleares? O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, fala abertamente em varrer Israel do mapa. Basta esse tipo de exortação ao genocídio para dar ideia do que esse país seria capaz de fazer se tivesse uma bomba nuclear, o que pode ocorrer dentro de dois ou três anos. "A incerteza sobre o comportamento desses regimes pode dar início a uma corrida armamentista no Oriente Médio e na Ásia", disse a VEJA a americana Nina Tannenwald, autora do livro The Nuclear Taboo (O Tabu Nuclear).

Apesar das sanções econômicas impostas pela ONU, o Irã segue desafiando o mundo com seu programa nuclear e está a dois ou três anos de ter a bomba. O arsenal nuclear do Paquistão está, por enquanto, sob a guarda da instituição mais sólida do país, o Exército. Mas há uma guerra aberta com o Talibã, que controla regiões fronteiriças com o Afeganistão. "Não podemos nem contemplar a possibilidade de o Talibã ter acesso ao arsenal nuclear do país", disse a secretária de Estado americana, Hillary Clinton. A possibilidade de terroristas produzirem uma bomba a partir do zero é ínfima. O processo é caro, exige tecnologia e pessoal altamente especializado. É mais simples fabricar uma bomba suja, feita com explosivos comuns e material radioativo. Ninguém precisa pensar muito para ver a conexão entre o perigo de um terrorismo atômico e os programas nucleares em países instáveis e repletos de fanáticos religiosos ou políticos. Essas condições fazem de cada um deles um potencial provedor de material atômico para grupos terroristas. O terrorista, como se sabe, só se ocupa de promover a maior atrocidade possível, sem nenhuma estratégia política que atenue sua perversidade. Se isso ocorrer, a Guerra Fria poderá vir a ser lembrada como o saudoso tempo em que o gatilho nuclear estava em mãos responsáveis.

Com reportagem de Gabriela Carelli

Estados Unidos Uma hispânica na Suprema Corte

da Veja

UMA CORTE MAIS 
PARECIDA COM O PAÍS

Obama indica a primeira hispânica para a mais alta 
instância da Justiça dos EUA, prestigiando a massa de
latinos, que já supera o contingente de negros no país


André Petry, de Nova York

Fotos Alex Brandon/AP e Reuters

A JUÍZA E A TORCEDORA Sotomayor, ao ser anunciada pelo presidente Obama, 
e no antigo estádio dos Yankees: ela se senta na geral

A Suprema Corte dos Estados Unidos, inicialmente formada por seis magistrados protestantes, levou 46 anos para admitir o primeiro católico. Seu nome era Roger Taney. Escravocrata até a medula, dizia que nem os escravos libertos podiam ser considerados cidadãos. Em 1916, a Suprema Corte recebeu o primeiro judeu, Louis Brandeis, magistrado à frente de seu tempo e preocupado com uma coisa exótica chamada direitos humanos. Em 1967, assumiu o primeiro negro, Thurgood Marshall, cuja trajetória como advogado e depois como juiz foi pautada pela defesa da emancipação racial. Em 1981, tomou posse a primeira mulher, Sandra Day O'Connor, cujas preocupações eram conservadoras em quase todos os campos, exceto no que dizia respeito às mulheres. Sendo a instituição que mais influencia a vida dos americanos, e é por eles influenciada, a Suprema Corte é um reflexo, nem sempre fiel, da sociedade – e, enfim, chegou a vez de receber a primeira juíza hispânica, denominação atribuída aos cidadãos cujos ascendentes vieram de algum país das Américas em que se fala espanhol. É Sonia Sotomayor, 54 anos, divorciada, sem filhos, torcedora dos Yankees, a cujos jogos assiste sentada na geral, junto da galera. Seus pais vieram da ilha de Porto Rico, "estado associado" aos EUA há mais de um século.

Os hispânicos correspondem a 15% da população dos Estados Unidos. Há mais hispânicos (47 milhões) do que negros (40 milhões). A juíza Sonia Sotomayor chegou exibindo o estandarte de sua latinidade e o orgulho de ser "nyorican", algo como "nova-iorquenha", mistura de nova-iorquina com porto-riquenha. Entre menos de uma dezena de candidatos, na maioria mulheres, o presidente Barack Obama escolheu Sotomayor por tudo o que ela representa: é hispânica, é mulher e percorreu, nas palavras de Obama, uma "jornada extraordinária", que ecoa a do próprio presidente. É diabética desde os 8 anos, toma insulina diariamente, perdeu o pai aos 9 e foi criada pela mãe, uma telefonista que virou enfermeira, em um conjunto habitacional popular no Bronx, no norte de Nova York. Basta lembrar-se dos filmes: prédios atulhados de hispânicos e negros, com paredes pichadas e tráfico de drogas na soleira do edifício. Nos tempos da juíza, diga-se, não era assim tão barra-pesada. Mas também nada sugeria que ela pudesse sair dali para estudar nas melhores universidades americanas (Princeton e Yale), tornar-se a primeira juíza federal hispânica em Nova York e viver num apartamento no Greenwich Village. Fosse no Rio, seria como trocar o Irajá pela Lagoa.

Karen Bleier/AFP
É DA TURMA DO CONTRA...? Ato contra o aborto: eles também temem que Sotomayor seja uma rival

A indicação de Sotomayor deflagrou o debate nacional que sempre acontece quando um novo juiz é indicado: liberal ou conservador? Traduzindo, nos termos em que as correntes se dividem: contra ou a favor do aborto? Atualmente, a corte tem um equilíbrio delicadíssimo entre os liberais e os conservadores. Embora sete dos nove membros tenham sido nomeados por republicanos – de Gerald Ford a Bush filho –, nem todos rezam pela mesma cartilha e as decisões mais polêmicas costumam sair pelo placar de 5 a 4. O fiel da balança é Anthony Kennedy, implacável inquisidor dos advogados que sobem à tribuna para defender seus clientes. Foi indicado pelo presidente Ronald Reagan e ora vota com os liberais, ora com os conservadores. Os magistrados da corte têm isso de positivo. São indicados por republicanos ou democratas, mas na hora H decidem no embate de sua consciência com os códigos. Sotomayor vai substituir David Souter, que chegou à corte com fama de ser contra o aborto, foi alvo de protestos de feministas – o slogan era: "Fora Souter, ou as mulheres morrerão" – e, dois anos depois, surpreendeu votando a favor do aborto.

De Sotomayor, já se disse de tudo. "Racista às avessas", berrou a voz mais radical da direita, o radialista Rush Limbaugh, porque a juíza, num discurso antigo, disse a bobagem segundo a qual uma juíza latina, com sua experiência de mulher e hispânica, deve decidir melhor do que um juiz branco, com a pobreza de ser homem e europeu. A direita diz que é a favor do aborto. A esquerda diz o contrário, e até já mandou carta aos congressistas alertando para essa possibilidade. "Acredito que ela será mais imprevisível do que estão pensando", diz Stephen Carter, professor de direito em Yale, velho amigo de Sotomayor e ex-assistente de Marshall, o primeiro negro da corte. "Eu acho isso bom", acrescenta ele. "A última coisa de que precisamos é atulhar a corte de magistrados com opiniões definitivas sobre todas as questões relevantes." Na sabatina no Senado, Sotomayor será bombardeada com perguntas sobre todas as questões relevantes. Ao contrário do que ocorre no Brasil, o Senado americano não faz figuração ao questionar os indicados. Mais aprova do que rejeita, mas, quando o candidato não agrada, rejeita-o sem pejo.

OU É DA TURMA A FAVOR...? Ato contra o aborto: 
eles também temem que Sotomayor seja uma rival

A influência mútua entre a corte e a sociedade é uma das preciosidades da história jurídica dos EUA. Como as instituições não nascem prontas, a Suprema Corte é uma delicada construção da democracia americana. Em fevereiro de 1790, a primeira reunião, improvisada num modesto prédio de dois andares em Nova York, foi cancelada por falta de quórum. Só três juízes apareceram. Seus primeiros integrantes – entre eles, um caloteiro, que chegou a ser preso duas vezes, um senil e outro meio maluco – não lhe davam a mínima. Um renunciou cinco dias depois de indicado. Outro jamais compareceu a uma única sessão. Em seus 219 anos de história, no entanto, a Suprema Corte foi ganhando autonomia e respeito. O primeiro recado de que não estava ali para brincadeira veio em 1803, quando derrubou uma lei aprovada pelo Congresso. Hoje é uma instituição invejável. "A relação entre a corte e a sociedade é complexa e dinâmica", diz Linda Greenhouse, que cobriu 2 691 decisões da corte em quase trinta anos como repórter do New York Times e agora dá aulas em Yale. "A corte busca o meio da estrada, refletindo as correntes de opinião majoritárias da sociedade, mas com alguma frequência os juízes perdem essa sintonia porque ficam na corte muito depois do presidente que os nomeou com uma agenda que já perdeu relevância."

"Não sei se esse equilíbrio mútuo entre a corte e a sociedade é bom ou ruim, mas sei que seria difícil eliminá-lo", diz o professor Jesse Choper, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, ex-assistente de Earl Warren, que presidiu a corte de 1953 a 1969. As decisões da Suprema Corte têm força notável e chegam a se incorporar no vocabulário cotidiano dos americanos – como a expressão "devido processo legal" –, mas não calam a voz das ruas. O aborto, legalizado em 1973, até hoje é polêmico. Em 1857, quando decidiu que o Congresso não tinha poder para abolir a escravidão, pôs lenha na guerra civil. Não provocou nenhum distúrbio de rua quando, em 1896, legalizou a segregação racial na tristemente famosa expressão "iguais mas separados". Mas a violência racial sensibilizou a corte 58 anos depois, quando acabou com a segregação sob a formulação singela segundo a qual a separação carrega em si a desigualdade. "Prova de que as decisões da corte moldam a paisagem política do país, mas a própria corte é moldada pelo intelecto e pela personalidade dos seus magistrados", afirma Philip Bobbitt, autor de sete livros e professor de jurisprudência da Universidade Columbia, em Nova York.

Fotos Tina Fineberg/AP e Cynthia Johnson/Getty Images
MAGISTRADOS PIONEIROS Sandra O'Connor, a primeira mulher da Suprema Corte, e Thurgood Marshall, o primeiro negro

Os juízes da Suprema Corte ganham menos de 30 000 reais por mês, como os congressistas, mas têm a vantagem de ocupar cargo vitalício ou aposentar-se com salário integral. Começam a trabalhar na primeira segunda-feira de outubro e encerram o ano no fim de junho. Em média, ficam quinze anos no cargo, e um novo é nomeado a cada 22 meses. Todo ano, recebem 10 000 processos, dos quais 100 são debatidos em plenária, uma carga de trabalho de dar inveja aos ministros brasileiros, que ganham 100 000 processos por ano. Por tradição, antes de cada debate os nove juízes se cumprimentam com um aperto de mãos. É uma forma de evitar entreveros de joaquins e gilmares, lembrando aos presentes que, apesar das divergências, deve prevalecer um ambiente de harmonia. Parece bobagem, mas ali se sentam pessoas com experiências radicalmente distintas. O mais antigo, John Paul Stevens, 89 anos, nasceu em uma família milionária do ramo dos seguros e da hotelaria em Chicago. Ao seu lado, agora, estará Sonia Sotomayor, do Bronx.

Arquivo do blog