Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, agosto 22, 2014

PERCA TEMPO - O BLOG DO MURILO: Aviso do Fed - CELSO MING

PERCA TEMPO - O BLOG DO MURILO: Aviso do Fed - CELSO MING

Aviso do Fed - CELSO MING

O ESTADÃO - 22/08


Vai começar a retirar moeda da economia; Essa política está listada entre aquelas em que os Estados Unidos tossem e provocam pneumonia no resto do mundo;E o Brasil não está imunizado contra isso

O Fed (banco central dos Estados Unidos) avisou quarta-feira que está preparando a retomada da alta dos juros. Ou seja, vai começar a retirar moeda da economia. Essa política está listada entre aquelas em que os Estados Unidos tossem e provocam pneumonia no resto do mundo. E o Brasil não está imunizado contra isso.

Por enquanto, a política do Fed, presidido por Janet Yellen (foto), ainda é de injeção de dólares por meio da compra de títulos. Mas o ritmo já é de reversão. Em dezembro de 2013, ainda comprava US$ 85 bilhões por mês. De lá para cá, essa ração mensal é cortada à proporção de US$ 10 bilhões por mês. Em outubro, espera-se que esse processo conhecido como tapering (afunilamento) se estancará.

A ata da última reunião do Fed (julho) divulgada quarta-feira ainda menciona a necessidade de observar um intervalo entre o fim do tapering e a retomada da alta dos juros, se o comportamento da economia americana continuar favorável.

O quadro é hoje de recuperação, os relatórios sobre o desempenho da atividade econômica mostram que, depois de um longo período de estagnação, o crescimento anualizado do PIB no segundo trimestre alcançou 3,0%. E as estatísticas que medem o comportamento do mercado de trabalho acusam melhora.

O principal recado do Fed é o de que não vai ficar parado. Pode voltar a puxar pelos juros assim que sentir que há condições. Isso pode acontecer no segundo trimestre de 2015 ou ainda no primeiro.

É elevadíssima a oferta de moeda no mundo, coisa aí de mais de US$ 5 trilhões. Mas o aviso de que o enxugamento não tardará deve atuar como fator de escassez de moeda forte no mundo.

E o Brasil com isso? Ao longo de 2012 e de 2013, o governo brasileiro denunciava a superabundância. A presidente Dilma se queixava do "tsunami monetário" e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, da "guerra cambial". Acusavam a política dos grandes bancos centrais – e não só a do Fed – de inundar o mercado internacional com dinheiro emitido do nada. Uma boa fatia dessa massa monetária desembarcou no Brasil, o que ajudou a provocar valorização cambial (alta do dólar em reais), fator que passou a tirar a competitividade do produto brasileiro.

Mas essa retórica parou na segunda metade de 2013. Em junho, o governo se queixava do movimento contrário: o de que a simples perspectiva de reversão da política do Fed reduziu o fluxo de moeda estrangeira para o Brasil, passou a puxar as cotações do dólar para cima e, com o encarecimento dos produtos importados, a inflação disparou por aqui.

A reação do governo foi zerar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) na entrada de capitais destinados às aplicações em renda fixa. Ou seja, foi voltar a incentivar a entrada de recursos, não importando se fossem especulativos. Para mantê-los por aqui, o Banco Central tratou de estabilizar as cotações do câmbio por meio de operações de swap, equivalentes à venda de moeda estrangeira, cujo estoque hoje é de US$ 92 bilhões.

A operação de retirada de dólares pelo Fed acontece justamente quando o governo brasileiro faz o contrário do que pretendia: passou a atrair capitais. Mais ainda, acontece num momento em que crescem as incertezas sobre o comportamento da economia brasileira a partir de 2015, sob um novo governo, com ou sem Dilma Rousseff.

Desaquecimento


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Difícil convivência - João Bosco Rabelo

Difícil convivência - João Bosco

quinta-feira 21/08/14


As queixas do presidente do PSB, Roberto Amaral, com relação ao noticiário político nos dias que se seguiram à tragédia aérea que tirou de cena o ex-governador Eduardo Campos, antes de exibir um descontentamento pessoal, refletem mais a crise interna que dividiu o partido em relação à candidatura de Marina Silva. Esse aspecto é mais [...]

As queixas do presidente do PSB, Roberto Amaral, com relação ao noticiário político nos dias que se seguiram à tragédia aérea que tirou de cena o ex-governador Eduardo Campos, antes de exibir um descontentamento pessoal, refletem mais a crise interna que dividiu o partido em relação à candidatura de Marina Silva.

Esse aspecto é mais importante que o aborrecimento de Amaral com a leitura que o colocou como opositor da candidatura da ex-senadora. O presidente do PSB faz parte da corrente que considerava melhor um realinhamento com o PT, do que é atestado insofismável sua reunião com o ex-presidente Lula antes ainda do sepultamento de Campos.

Amaral tomou esse registro da imprensa como uma crítica ao momento da reunião, mas a referência temporal teve o objetivo simples de mostrar que não era possível fazer a roda parar de girar. Como disse o ex-secretário de Meio Ambiente do governo de Pernambuco, Sérgio Xavier, as circunstâncias estabelecem que "é hora de chorar e trabalhar ao mesmo tempo".

O tempo conspirou contra a extensão das homenagens a Campos e para que o luto pudesse firmar o hiato político ideal. A uma semana do início do programa de televisão, o partido precisava definir com rapidez se abdicaria da disputa pela Presidência ou se faria de Marina sua candidata em substituição a Campos.

Tanto assim, que a própria viúva, Renata Campos, em meio à dor e sofrimento pessoal, encontrou força para orientar o desejo da família pela consolidação da candidatura de Marina. Antes dela, o irmão de Campos fez o mesmo à porta da casa da família. Assim, a síntese de Xavier estava autorizada.

Daí que o aspecto da reunião com Lula ganha importância apenas pelo que tem de importante: a possibilidade de realinhamento do PSB com o PT, de interesse óbvio do ex-presidente, e posição defendida por Amaral. Esse conflito perde o poder objetivo com a confirmação de Marina, mas não se desfaz, porque tem seu gene nas divergências internas entre Rede e PSB.

Como o próprio Amaral definiu, como presidente cabe a ele conduzir as questões do partido – e as contradições da coligação são parte dessa pauta. Confirmada Marina como candidata e, agora, o deputado Beto Albuquerque como seu vice, essas contradições se materializarão na condução do programa comum e da campanha pela sua nova titular.

Não é exagero dizer que essa convivência interna é desafio maior para a coligação do que sustentar um crescimento eleitoral consistente de Marina. O problema é que um depende do outro e a posição reafirmada da candidata em São Paulo, por exemplo, dá a medida da dificuldade de convivência.

No maior colégio eleitoral do país, onde a presidente Dilma registra um índice de rejeição altíssimo, de 49%, Marina está decidida a manter a posição de não participar da campanha em que o PSB está aliado ao PSDB.

Essa posição foi firmada quando Campos ainda era o candidato à presidência e tratava-se, então, de a sua vice não associar sua imagem à campanha do governador Geraldo Alckmin. Agora ela é a candidata e sua omissão significa a ausência da candidata à presidência do PSB da campanha do aliado em São Paulo.

O cenário paulista põe em dúvida a base do acordo que precedeu a confirmação de Marina, de que ela honraria as alianças deixadas por Campos. Em que pese a distância de São Paulo fazer parte do acordo com o ex-governador, mantê-lo agora equivale a desconsiderar que o candidato morto supriria a ausência da vice, o que não pode mais ocorrer.

Marina não teve o apoio do presidente do PSB paulista, deputado Márcio França, para suceder Campos, exatamente por isso. Vice na chapa de Alckmin, o deputado seguirá com o partido, mas deixa claro sua discordância em relação a essa e outras posturas da ex-senadora.

Em Minas, a candidatura de Tarcísio Delgado também saiu a fórceps, pois a regional do partido desejava a aliança com Aécio Neves, o que pode levar à cristianização de Marina no Estado. São Paulo e Minas são apenas dois casos entre muitos outros que afetam as bases eleitorais.

O grito de marina contra o agronegócio , que já havia desfeito acordos importantes para o PSB em regiões como mo Centro-Oeste, agrava-se com a sua ascensão ao lugar antes de Campos. Em Mato Grosso do Sul, o candidato Nelsinho Trad já anunciou sua saída da aliança.

A coerência que Marina procura manter em relação aos seus princípios éticos podem constituir uma virtude pessoal, mas não necessariamente política. Quando se parte de uma premissa falsa, todo o raciocínio que a sucede estará contaminado por um erro de origem.

Ou seja, pode haver coerência no erro, se a inflexibilidade for seu ponto de partida. No caso presente, haverá mais dificuldades se a ex-senadora não partir do princípio de que não se dá um salto mágico da velha para a nova política, porque todo processo impõe a transição.

No ato de anúncio da coligação que surpreendeu o mundo político, Marina e Campos a justificaram como uma aliança programática, mas seu objetivo principal – de interromper o ciclo do PT no poder, também afirmado por ambos -, revela a prevalência do pragmatismo político no acordo.

Como não há convergências nos pontos essenciais da coligação – ou, pelo menos, as divergências são mais consistentes -, não parece possível sustentar em primeiro plano a tese programática em um contexto que o pragmatismo, expresso no objetivo de derrotar o PT, é a argamassa da construção política abalada pela morte de seu protagonista principal.



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Aviso do Fed - Celso Ming

Aviso do Fed - Celso Ming


Vai começar a retirar moeda da economia; Essa política está listada entre aquelas em que os Estados Unidos tossem e provocam pneumonia no resto do mundo;E o Brasil não está imunizado contra isso

O Fed (banco central dos Estados Unidos) avisou quarta-feira que está preparando a retomada da alta dos juros. Ou seja, vai começar a retirar moeda da economia. Essa política está listada entre aquelas em que os Estados Unidos tossem e provocam pneumonia no resto do mundo. E o Brasil não está imunizado contra isso.

Por enquanto, a política do Fed, presidido por Janet Yellen (foto), ainda é de injeção de dólares por meio da compra de títulos. Mas o ritmo já é de reversão. Em dezembro de 2013, ainda comprava US$ 85 bilhões por mês. De lá para cá, essa ração mensal é cortada à proporção de US$ 10 bilhões por mês. Em outubro, espera-se que esse processo conhecido como tapering (afunilamento) se estancará.

A ata da última reunião do Fed (julho) divulgada quarta-feira ainda menciona a necessidade de observar um intervalo entre o fim do tapering e a retomada da alta dos juros, se o comportamento da economia americana continuar favorável.

Yellen. A alta dos juros vem aí  (FOTO:SUSAN WALSH/AP)

O quadro é hoje de recuperação, os relatórios sobre o desempenho da atividade econômica mostram que, depois de um longo período de estagnação, o crescimento anualizado do PIB no segundo trimestre alcançou 3,0%. E as estatísticas que medem o comportamento do mercado de trabalho acusam melhora.

O principal recado do Fed é o de que não vai ficar parado. Pode voltar a puxar pelos juros assim que sentir que há condições. Isso pode acontecer no segundo trimestre de 2015 ou ainda no primeiro.

É elevadíssima a oferta de moeda no mundo, coisa aí de mais de US$ 5 trilhões. Mas o aviso de que o enxugamento não tardará deve atuar como fator de escassez de moeda forte no mundo.

E o Brasil com isso? Ao longo de 2012 e de 2013, o governo brasileiro denunciava a superabundância. A presidente Dilma se queixava do "tsunami monetário" e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, da "guerra cambial". Acusavam a política dos grandes bancos centrais – e não só a do Fed – de inundar o mercado internacional com dinheiro emitido do nada. Uma boa fatia dessa massa monetária desembarcou no Brasil, o que ajudou a provocar valorização cambial (alta do dólar em reais), fator que passou a tirar a competitividade do produto brasileiro.

Mas essa retórica parou na segunda metade de 2013. Em junho, o governo se queixava do movimento contrário: o de que a simples perspectiva de reversão da política do Fed reduziu o fluxo de moeda estrangeira para o Brasil, passou a puxar as cotações do dólar para cima e, com o encarecimento dos produtos importados, a inflação disparou por aqui.

A reação do governo foi zerar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) na entrada de capitais destinados às aplicações em renda fixa. Ou seja, foi voltar a incentivar a entrada de recursos, não importando se fossem especulativos. Para mantê-los por aqui, o Banco Central tratou de estabilizar as cotações do câmbio por meio de operações de swap, equivalentes à venda de moeda estrangeira, cujo estoque hoje é de US$ 92 bilhões.

A operação de retirada de dólares pelo Fed acontece justamente quando o governo brasileiro faz o contrário do que pretendia: passou a atrair capitais. Mais ainda, acontece num momento em que crescem as incertezas sobre o comportamento da economia brasileira a partir de 2015, sob um novo governo, com ou sem Dilma Rousseff.

CONFIRA:

A abertura de vagas de trabalho com registro em carteira está baixando com força, como mostra o gráfico.

Desaquecimento
Julho foi mês de Copa do Mundo e de mau desempenho não só da seleção, mas de toda a atividade econômica. Mas, independentemente desse fator, já se aprofunda o desaquecimento do mercado de trabalho, como mostram os dados acima, do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). A outra estatística, a que aponta para a procura de emprego, continua prejudicada pela greve dos funcionários do IBGE.



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quinta-feira, agosto 21, 2014

A gente não atira no ‘basso’ - Carlos Alberto Sardenberg

A gente não atira no 'basso' - Jornal O Globo

Faz algum tempo, correu na rede a notícia de que uma pessoa conhecida havia sofrido um tiro no "basso". Isso mesmo. O redator do primeiro site a contar a história não acertou no baço, e assim circulou a suposta informação.

Parece que nem era isso, mas não importa. Mesmo que tivesse havido uma primeira apuração criteriosa, o resto foi copiar e colar. Isso passa longe do jornalismo.

O caso é simples, mas quem faz jornalismo está constantemente diante de situações assim — a de checar a informação que chega à redação, mesmo quando parece clara.

Estávamos ao vivo na CBN no dia em que caiu o Cessna que levava Eduardo Campos. A primeira informação que nos chegou, e que colocamos no ar, dava conta da queda de um helicóptero.

Era um erro. Testemunhas diziam isso, mas, a rigor, não havia ainda como saber se era mesmo um helicóptero. Já se viam fogo e destruição, e muita gente vira algo desabar do céu.

Ora, só podia ser um helicóptero. Um jato não passa por ali, não pelo menos voando tão baixo a ponto de atingir as casas e cair.

Mas aconteceu. Portanto, o melhor seria ter dito que havia caído uma aeronave. Fizemos isso logo depois, no curso da apuração, quando repórteres e as diversas fontes seguras — naquelas circunstâncias — não conseguiam ver hélices ou algo que identificasse um helicóptero. Parecia já um desastre bem maior.

Nesse momento, a apuração percorria diversos caminhos, das testemunhas locais aos órgãos de controle de voo, polícias, hospitais e políticos.

E a tragédia se desenhou num tempo que pareceu longo, mas foi questão de minutos: um Cessna partira do Rio para Santos levando Eduardo Campos e sua comitiva; o candidato não aparecera onde era esperado; assessores não o encontravam pelo celular; um jato tentara pousar no Guarujá e arremetera.

Era evidente a conclusão. Mas não colocamos no ar enquanto era só isso, uma conclusão abstrata tirada de uma série de indícios. Excesso de zelo?

Nada. Apenas o exercício do jornalismo. Não se pode dar uma notícia dessas na base do "parece que" ou "tudo leva a crer"... Afinal, poderia ser outro avião que caíra em Santos, tendo o de Eduardo Campos feito um pouso de emergência sabe-se lá onde.

Impossível? Muita coincidência?

Mas já tínhamos exatamente isso — uma história impossível, que estava acontecendo bem diante de nossos olhos.

Faz muito tempo, quando o jornalismo brasileiro estava numa fase de modernização, participei de um debate com um colega americano, então impressionado com a sem-cerimônia com que nossos jornais diziam: fulano matou; o assassino foi capturado; o prefeito roubou.

Era preciso escrever: o suposto crime; o acusado; o denunciado.

Está certo, comentávamos, mas há casos evidentes, em que se vê a coisa acontecer. Mesmo assim, dizia-nos o colega americano. E passou um filme que mostrava a cena chocante em que Jack Ruby matava a tiros Lee Oswald, ao vivo, na TV. Oswald está sendo levado por policiais, Ruby sai de um grupo de jornalistas, empunha o revólver e executa Oswald , que viria a morrer.

Nenhuma dúvida.

Não mesmo? Suponha, provocava-nos o colega, que Ruby errou o tiro ou que seu revólver falhou ou algo assim. E que o pessoal da CIA aproveitou a circunstância, levou Oswald para um canto e o assassinou. Ou ainda, teria a CIA armado tudo?

Não podemos, nós, jornalistas, cair nas teorias conspiratórias. Mas é preciso desconfiar, apurar e rechecar.

A um determinado momento na quarta-feira da semana passada, entre meio-dia e uma da tarde, já estávamos certos de que havia caído o avião de Eduardo Campos e que não havia sobreviventes. Mas esperamos até obter várias confirmações para dar a notícia toda.

Fizemos jornalismo. Não copiamos nem colamos nada. Assim fizeram muitos outros colegas de muitos outros veículos.

Nesses momentos, aumenta exponencialmente a audiência em todas as mídias, mas não a de todos os veículos. O público sabe onde buscar a informação confiável.

Neste momento em que se discutem o futuro e, sobretudo, a qualidade do jornalismo no Brasil, queria deixar este depoimento, entre o pessoal e o profissional. Depois de mais de quase 45 anos de jornalismo, alguma coisa se aprende.

Tudo isso para dizer que, aqui no sistema Globo, a gente não atira no "basso" de ninguém, não faz nada escondido e, sobretudo, não usa anônimos para mexer no perfil dos outros.

Carlos Alberto Sardenberg é jornalista



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Quanto vai ser a conta de luz? - Adriano Pires e Abel Holtz

Quanto vai ser a conta de luz? - Jornal O Globo

O Globo

O imbróglio e o impacto do caos deflagrado pela "bem estruturada" Medida Provisória 579 continuam a causar estragos no setor elétrico. Além de constrangimento de bancos privados para compor os empréstimos que estão sendo suportados pelos contribuintes e que depois passarão para os consumidores, sendo que ambos não possuem responsabilidade alguma pelas barbeiragens cometidas pelo governo através das mudanças promovidas a partir da MP.

O diretor-geral da Aneel estimou em 8% o incremento de tarifas nas contas de luz para os próximos dois anos, em razão dos empréstimos concedidos às distribuidoras que, por ora, somam R$ 17,7 bilhões.

Alguns analistas de bancos projetam um aumento de 15% no ano que vem. Já uma consultoria superespecializada trabalha com a expectativa de reajuste médio de cerca de 17% em 2015, o que levaria o IPCA a 6,3%.

Na sequência, o secretário executivo do Ministério de Minas e Energia afirma que a tarifa deve aumentar 2,6% em 2015; 5,5% em 2016; 1,4%, em 2017. Número diferente da projeção da Aneel, o que demonstra que, de fato, ninguém sabe qual será o incremento tarifário. No momento eleitoral, temos que prestigiar o desconhecimento e o despreparo da sociedade para avaliar o que, de fato, será imposto após as eleições.

Agentes de governo, num ar de especialistas, falam de aumentos menores porque novas usinas vão entrar no regime de cotas, sem considerar que a ilação pode não se verificar. O processo da Cemig, hoje em contestação, pode demorar.

Também é simplesmente falsa a afirmativa de que a energia das usinas com concessão renovada é barata. Quando não tem água, o Mecanismo de Realocação de Energia rebaixa todo mundo, e os distribuidores não recebem toda a energia, tendo que comprar a diferença no Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) alto. Portanto, o custo das cotas terá que considerar receita paga às usinas (as RAGs), acrescida do custo da energia a complementar ao valor do PLD.

Mesmo que entrem mais usinas no regime de cotas, o custo não vai cair tão cedo porque, no ano que vem, a hidrologia pode continuar ruim. O aumento vai ser maior do que o que o governo quer que acreditemos, porque agora o consumidor ficou com todo o risco hidrológico dessas usinas, quando antes não tinha nenhum.

Portanto, os cenários para a energia elétrica não são nada otimistas. Se chover no período úmido a partir de novembro até março, evitaremos o racionamento, mas o PLD deve manter-se em torno de R$ 300/MWh. Caso não chova o suficiente, aumenta em muito ou será mesmo inevitável um racionamento no início de 2015, em proporções muito maiores que os de 2001.

O Brasil não pode e nem deve permanecer refém de hidrologias favoráveis. Na medida em que optamos de forma incorreta por reservatórios a fio de água, temos de entender que precisamos construir uma matriz hidrotérmica consistente e estruturada. Caso contrário, todos os anos vamos ficar dependentes da boa vontade de São Pedro. E, o pior, talvez nem São Pedro consiga nos atender. Para construir essa nova matriz elétrica, é essencial que abandonemos a ideia fixa da modicidade tarifária e entendamos que é preciso estabelecer um trade-off entre modicidade e aumento da oferta de energia. Só assim, com o aumento da oferta por meio de uma diversificação de fontes energéticas, é que alcançaremos a segurança de abastecimento e tarifas competitivas em relação a outros países. É preciso entender, de uma vez por todas, que segurança energética e preços competitivos só serão alcançados com estabilidade regulatória, segurança jurídica e respeito à lógica e às regras de mercado, e não com a publicação de MPs, decretos e leis.

Adriano Pires é diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, Abel Holtz é diretor da Holtz Consultoria



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quarta-feira, agosto 06, 2014

Senado vai abrir sindicância para apurar suspeita de fraude em CPI

Democracia Política e novo Reformismo: Senado vai abrir sindicância para apurar suspeita de fraude em CPI

Senado vai abrir sindicância para apurar suspeita de fraude em CPI

• Presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), determina investigação sobre denúncias de combinação de perguntas e respostas entre integrantes da comissão e cúpula da estatal


Ricardo Brito - Agência Estado


BRASÍLIA - O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), afirmou nesta terça-feira, 5, que determinou a abertura de uma comissão de sindicância para apurar as suspeitas de que houve uma combinação de perguntas e respostas entre integrantes da comissão e a cúpula da estatal. O caso veio à tona no último final de semana, após a revista Veja ter revelado um vídeo no qual depoentes representantes da Petrobrás conversam sobre o "gabarito" das apurações.


Renan disse ter determinado a abertura da apuração interna para esclarecer todas as responsabilidades do episódio. A gravação aponta que poderiam estar envolvidos parlamentares e assessores técnicos da CPI - que negam as acusações.


O presidente do Senado descartou a suspensão dos trabalhos durante as investigações. "Não precisa suspender nada absolutamente. Precisamos apurar absolutamente tudo o que foi denunciado", disse, ao destacar que a CPI é um instrumento que não pode sair arranhado.


Fora dos microfones, perguntado se as denúncias são graves, o presidente do Senado assentiu com a cabeça que sim.


Também nesta terça, o presidente da CPI, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), pediu investigação do caso à Polícia Federal.



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Bens de Graça Foster devem ser bloqueados hoje pelo TCU

Democracia Política e novo Reformismo: Bens de Graça Foster devem ser bloqueados hoje pelo TCU

Bens de Graça Foster devem ser bloqueados hoje pelo TCU

• Falha deixou presidente da estatal fora da relação de responsáveis por Pasadena


Eduardo Bresciani - O Globo


BRASÍLIA - O Tribunal de Contas da União (TCU) discutirá hoje se inclui a presidente da Petrobras, Graça Foster, na relação de responsáveis pelo prejuízo pela compra da refinaria de Pasadena, nos EUA, e se estenderá a ela o bloqueio de bens determinado em relação aos outros diretores da estatal responsabilizados anteriormente. Apesar da substituição de três ministros em relação ao último julgamento, a tendência é de inclusão de Graça na relação.


A Petrobras já recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF), em nome de seus diretores e ex-diretores, questionando a medida relativa aos bens. O TCU argumentou que ela é fundamental para garantir o ressarcimento aos cofres públicos do prejuízo, estimado em US$ 792,3 milhões.


O GLOBO revelou que, por um erro do próprio TCU, Graça Foster acabou de fora da lista de responsáveis aprovada há duas semanas. Os ministros consideraram que a decisão tomada em 2009 pela diretoria executiva da estatal, de não cumprir a sentença arbitral que obrigava a Petrobras a compra a segunda metade da refinaria, ampliou o prejuízo da compra em US$ 92,3 milhões. Na hora de apontar os integrantes da diretoria, porém, foram incluídos Ildo Sauer e Nestor Cerveró, que já tinham sido substituídos por Graça Foster e Jorge Luiz Zelada, um ano antes da decisão.


A Secretaria de Controle Externo de Estatais do TCU confirmou o equívoco, e encaminhou ao relator, ministro José Jorge, um texto sobre a correção. Além de Graça e Zelada, deverão ser incluídos no rol os ex-presidentes da Petrobras América, Alberto da Fonseca Guimarães e José Orlando de Azevedo. 



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Planalto controlou perguntas e ações da CPI da Petrobras

Democracia Política e novo Reformismo: Planalto controlou perguntas e ações da CPI da Petrobras

Planalto controlou perguntas e ações da CPI da Petrobras

• Número 2 de ministro coordenou com Petrobras e PT estratégia no Senado


• PT compartilhou com o governo mais de cem perguntas preparadas para comissão que investiga a estatal


Andréia Sadi e Natuza Nery – Folha de Paulo


BRASÍLIA - Assessores do Palácio do Planalto coordenaram a atuação da Petrobras e da liderança do PT no Senado durante as investigações da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) criada para examinar os negócios da estatal.


O encarregado do trabalho foi o número 2 do ministro Ricardo Berzoini, chefe da Secretaria de Relações Institucionais do Planalto, responsável pela articulação política do governo com o Congresso.


Segundo a Folha apurou, o secretário-executivo do ministério, Luiz Azevedo, ajudou a elaborar o plano de trabalho apresentado pela comissão em maio, que incluía um roteiro para a investigação e sugestões de perguntas.


Azevedo foi o estrategista escalado pelo governo para blindar a presidente Dilma Rousseff e evitar que o trabalho da CPI atingisse a atual diretoria da Petrobras. Seu papel era fazer a interlocução com a empresa estatal e afinar a tática governista na CPI.


Além de Azevedo, o Planalto destacou ainda Paulo Argenta, outro assessor de Berzoini, para evitar que a CPI saísse do controle ou causasse sobressaltos ao governo.


Para a oposição, que não participa da CPI, o roteiro de uma investigação parlamentar deveria ser definido por seus próprios integrantes, sem interferência do governo.


Reportagem publicada pela revista "Veja" nesta semana diz que a presidente da Petrobras, Graça Foster, e ex-diretores da estatal receberam antecipadamente as perguntas que responderiam na CPI.


A empresa afirma que só teve acesso antecipadamente às perguntas apresentadas pela comissão com a divulgação de seu plano de trabalho.


A Folha apurou que o governo também discutiu com assessores do PT no Senado e o chefe do escritório da Petrobras em Brasília, José Eduardo Barrocas, a conveniência da aprovação de requerimentos específicos da comissão.


Os assessores do Planalto pediram que a CPI não votasse vários requerimentos que poderiam criar embaraço para a Petrobras e o governo.


Azevedo e Argenta tiveram acesso antecipado às perguntas que o relator da comissão, José Pimentel (PT-CE), faria aos executivos sobre contratos suspeitos aprovados pelo conselho da companhia.


A Folha apurou que mais de cem perguntas preparadas para a CPI foram compartilhadas pelo PT com o governo. Os participantes da operação ouvidos pela Folha negam ter repassado as perguntas a dirigentes da Petrobras.


Os lotes com as perguntas foram entregues ao Planalto por Marcos Rogério de Souza, assessor da liderança do PT no Senado.


O governo argumenta que qualquer parlamentar tem direito de inquirir depoentes e que a bancada oposicionista boicotou os trabalhos da CPI.


A Secretaria de Relações Institucionais informou que faz parte de suas atribuições, "portanto dos servidores mencionados, acompanhar as atividades legislativas, inclusive as Comissões Parlamentares de Inquérito".


Nova CPI

Numa tentativa de abafar o barulho que a oposição tem feito com suas críticas à CPI da Petrobras, o PT articulou a instalação nesta quarta-feira (6) de uma nova CPI para investigar o cartel de empresas acusado de fraudar licitações do Metrô de São Paulo.


Composta por deputados federais e senadores, a comissão tem potencial para criar desgaste para o PSDB, que governa São Paulo há quase duas décadas e é o partido do principal rival de Dilma Rousseff na corrida presidencial, o senador Aécio Neves (MG).


Colaborou Gabriela Guerreiro, de Brasília



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Para FHC, Petrobrás e Congresso devem explicações sobre CPI

Democracia Política e novo Reformismo: Para FHC, Petrobrás e Congresso devem explicações sobre CPI

Para FHC, Petrobrás e Congresso devem explicações sobre CPI

• Ex-presidente afirma que, se combinação de perguntas e respostas for confirmada, parlamentares estão participando de 'uma farsa'


José Roberto Castro - Agência Estado


O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou nesta terça-feira, 5, que cabem à Petrobrás e ao Congresso dar explicações sobre a denúncia de suposta combinação de perguntas e respostas entre integrantes da CPI instalada no Senado e a cúpula da estatal. O tucano disse que, caso fique provado o envio prévio dos questionamentos, o Congresso estará participando de uma "farsa".


"Não é o governo, é a Petrobrás que tem que dar explicações e o Congresso. Realmente o Congresso tem que explicar. Se isso for assim, o Congresso está participando de uma farsa, o que é inaceitável", afirmou FHC. Nessa segunda, 4, questionada sobre o caso, a presidente Dilma Rousseff disse que o Congresso Nacional deveria responder sobre o caso. Perguntado sobre um possível aparelhamento da Petrobrás, FHC disse que ele não visa beneficiar exatamente o governo, mas os partidos aliados.


Na edição desta terça, o Estado revelou que o encontro que discutiu perguntas e respostas de interrogados na Comissão do Senado foi realizado em sala anexa à da presidente da empresa, Graça Foster. A reunião foi filmada e as imagens foram reveladas pela revista Veja. A Petrobrás se defende afirmando que as perguntas eram públicas e foram disponibilizadas no site do Senado. A CPI foi criada para investigar a compra da refinaria de Pasadena, no Texas (EUA), pela estatal brasileira.


O presidente da CPI, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), pediu abertura de sindicância para apurar o envolvimento de servidores e senadores, além de investigação pela Polícia Federal.


Lula. Fernando Henrique falou ainda sobre sua relação com seu sucessor Luiz Inácio Lula da Silva, de quem disse que não se considera inimigo. Respondendo a uma pergunta do programa humorístico CQC, o tucano disse que convidaria o petista para assistir a um jogo do Corinthians em sua casa. "Eu nunca o considerei inimigo político, esse negócio de inimigo quem gosta é o Lula, o nós e eles."


Nas últimas semanas, os presidentes de honra dos dois partidos que polarizam há 20 anos a disputa política no Brasil trocaram farpas pela imprensa. FHC escreveu um artigo criticando a postura Lula durante o período eleitoral. Perguntado sobre o que achava do texto, Lula se limitou a dizer que não lia Fernando Henrique Cardoso. "Somos todos brasileiros, é um concorrente, espero que ele veja assim e não fique com essa história de nós e eles".

Lula é mais hábil com Congresso, avalia FHC
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse nesta terça-feira que Luiz Inácio Lula da Silva teve "mais sorte" durante seu período de governo do que Dilma Rousseff. A declaração foi dada após um questionamento do programa humorístico CQC, que queria saber quem FHC considerava melhor presidente entre os dois petistas.

"Acho difícil uma avaliação desse tipo. O Lula teve mais sorte, pegou a economia crescendo. Ela pegou a economia baixando. O Lula é mais hábil com o Congresso, mas tem uma certa tendência a se aliar com determinados setores que eu acho que a Dilma preferiria não se aliar", comentou o tucano após palestra no evento GreenBuilding Brasil em que falou de desenvolvimento sustentável.

Sobre a relação entre seu partido e o PT, Fernando Henrique Cardoso disse que gostaria que houvesse entendimento em alguns casos. "Há certas questões que o povo precisa de todo mundo e que não dá pra ficar fazendo picuinha. Infelizmente não é a visão que o PT tem". Perguntado pelo programa humorístico se o PT "ameaça a democracia brasileira", FHC disse que não. "Não vou a tanto".


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Elio Gaspari: Dilma Rousseff, mulher de sorte

Democracia Política e novo Reformismo: Elio Gaspari: Dilma Rousseff, mulher de sorte

Elio Gaspari: Dilma Rousseff, mulher de sorte

- O Globo


O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro concluiu o inventário do arquivo do presidente Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), coordenado pela professora Regina Wanderley. Ele contém 475 itens documentais e centenas de fotografias. O acervo foi doado em 2004 ao instituto por Roberto, filho e assessor especial do general.


No meio da papelada há a cópia de uma lista apreendida na casa de um dirigente da Vanguarda Popular Revolucionária, provavelmente em maio de 1970. Nela estão os nomes de 28 presos de São Paulo que deveriam ser libertados em troca de um embaixador cujo sequestro planejava-se. O 27º nome era o de Dilma Vana Rousseff, a "Estela", da VAR-Palmares, presa desde janeiro.


A "tigrada" do DOI sabia que se organizava um sequestro. Sabia também que a vítima passava pela rua Cândido Mendes, na Glória. Num dos maiores frangos do período, não impediu o sequestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, em junho. (Pela rua Cândido Mendes passavam três embaixadores, ele, o núncio apostólico e o argelino.)


Holleben foi trocado por 40 presos, mas da lista de 28 entraram só seis. Se Dilma tivesse sido mantida no grupo, teria ido para a Argélia e só retornaria ao Brasil em 1979, depois da Anistia. Sua vida teria sido outra, pois acabou libertada em 1972, foi para o Rio Grande do Sul, passou pela Unicamp, militou no PDT, na campanha pela Anistia e empregou-se na Fundação de Economia e Estatística do governo gaúcho. Esse pode ter sido seu segundo momento de sorte. Se uma tentativa de sequestro do cônsul em Porto Alegre tivesse dado certo, o seu líder, Fernando Pimentel, muito provavelmente teria incluído a amiga na lista dos presos a serem trocados. (O diplomata jogou o carro em cima dos sequestradores, tomou um tiro, mas foi para casa.)


No arquivo de Médici há outras pérolas. Lá, confirma-se a história segundo a qual ele guardava dois telegramas de senadores do partido governista expedidos depois da edição do Ato Institucional nº 5. Era um amuleto para lembrar-lhe a fidelidade dos políticos. No primeiro, 20 protestavam. No segundo, 34 apoiavam o AI-5. Até aí, jogo jogado, mas sete assinaram os dois. Médici guardou também uma representação do ministro da Justiça, Luís Antônio da Gama e Silva, ex-reitor da Universidade de São Paulo e ex-diretor de sua Faculdade de Direito, propondo a cassação dos 20 signatários do primeiro telegrama. Passaria na lâmina figuras como Milton Campos, Ney Braga, Daniel Krieger, Carvalho Pinto e Teotonio Vilela. Se "Gaminha" tivesse prevalecido, a ditadura tomaria outro rumo, mais radical.


Ainda há áulicos sustentando que Médici nada teve a ver com a tortura praticada durante seu governo. É uma conversa fiada implausível. Ele guardou pelo menos três lotes de documentos denunciando o que sucedia nas prisões. Se nada fez, e no inventário não há registro disso, o problema ficou para sua biografia.


O arquivo de Médici confirma sua personalidade obsessivamente austera. Cauteloso, deixou poucas anotações manuscritas, mas guardou um grampo telefônico, registrado pelo apelido palaciano de "Dragão". Um príncipe italiano aparentado com a casa florentina dos Medici perguntou-lhe numa carta se descendia dessa linhagem. Ao que tudo indica, não respondeu.



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sábado, agosto 02, 2014

A economia dos poderes mágicos da mente - Rolf Kuntz

A economia dos poderes mágicos da mente - Opinião - Estadão

- O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2014 |

A presidente Dilma Rousseff é uma batalhadora. Essa virtude ninguém pode negar. Ela briga com as palavras, a lógica, os fatos, os números, a teoria econômica e os princípios mais simples da administração. Não é uma vida fácil, até porque os números têm o hábito lamentável de atacar traiçoeiramente. Enquanto ela pregava otimismo aos empresários, na quarta-feira à tarde, o Tesouro Nacional divulgava as contas do governo central, com mais um déficit primário - de R$ 1,95 bilhão em junho - e mais uma coleção de cifras assustadoras. No dia seguinte o Banco Central (BC) mostrou um quadro ainda mais feio, ao publicar as contas consolidadas do setor público. Segundo seu critério, o mês de junho havia terminado com um buraco de R$ 2,7 bilhões na administração central e de R$ 2,1 bilhões no conjunto, com desempenho pouco melhor dos governos regionais e das empresas controladas. Na sexta-feira, novo ataque dos números mostrou mais um tombo da produção industrial: o volume foi 1,4% inferior ao de maio e 6,9% menor que o de junho do ano passado.

No mesmo dia, à tarde, as cifras do comércio exterior pareceram trazer alguma ajuda: as contas de julho foram fechadas com superávit de US$ 1,57 bilhão. Mas pouco mais de metade desse valor, US$ 866 milhões, foi garantido pela exportação fictícia de uma plataforma de exploração de petróleo. Além disso, no acumulado do ano restou um déficit de US$ 916 milhões. Sem aquela operação - legal, mas fictícia, porque a plataforma continua no País - o déficit de janeiro a julho ainda seria US$ 1,78 bilhão.

Mas a presidente, auxiliada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, continua cobrando otimismo de todos, como se isso garantisse um desempenho melhor da economia brasileira. Os dois atribuem os problemas - pequenos, naturalmente - ao pessimismo espalhado pelos mercados e às condições da economia internacional. Na Confederação Nacional da Indústria (CNI), na quarta-feira, a presidente chegou a falar em protecionismo no mundo rico para explicar o enfraquecimento das exportações. Em relação ao comércio exterior e à competitividade, os números e dados conhecidos também têm sido adversos às teses presidenciais.

A presidente Dilma Rousseff e seu ministro da Fazenda têm aplicado à economia uma criativa mistura de ideias. As teses de Norman Vincent Peale, autor do best-seller O Poder do Pensamento Positivo, aparecem mescladas com crenças primitivas em faculdades mágicas da mente. Além de injusta em relação ao pastor Peale, essa mistura passa longe de qualquer ideia econômica sobre a importância das expectativas. Decisões sobre consumo, produção e investimento são realmente afetadas por expectativas, e isso os economistas sabem há muito tempo. Mas os fatos são muito mais complexos e, quando se trata de explicar o desempenho de uma economia, é sempre bom levar em conta a qualidade da política. Expectativas podem ser importantes, mas a competência de quem conduz a política também pesa.

De janeiro a junho deste ano a produção industrial foi 2,6% menor que a do primeiro semestre do ano passado. Em 2013 o produto industrial aumentou 2%, mas havia diminuído 2,3% em 2012. Nem retornou, portanto, ao nível de 2011, quando o pífio crescimento havia ficado em 0,4%. Desde o primeiro ano do governo Rousseff, qualquer iniciativa rotulada como política industrial fracassou, portanto, de forma indisfarçável.

Atribuir esse resultado ao pessimismo generalizado seria um exagero, até porque os consumidores demonstraram boa disposição e considerável otimismo durante boa parte desse período. Talvez seja o caso, diante desses dados, de abandonar a conversa sobre expectativas pessimistas e explicar o fiasco da política pelo mau-olhado. Por que não, se o poder mágico da mente é tão relevante? A culpa deve ser de oposicionistas, de neoliberais invejosos e, de modo geral, de pessoas sem patriotismo. Afinal, o crítico do governo, segundo o discurso oficial, sempre torce pelo pior e é inimigo da Pátria.

Mas as falas da presidente e do ministro revelam algo mais que a crença nos poderes mágicos do pensamento, positivo ou negativo Denunciam também uma concepção muito especial da expectativa. Uma estranha noção está implícita nessa conversa: as pessoas podem ser pessimistas ou otimistas em relação aos fatos ou dados conhecidos. Se são conhecidos, no entanto, como falar de pessimismo ou otimismo? Um fato é claro: o mau humor de empresários e analistas está associado em primeiro lugar a informações amplamente difundidas, como a persistência de pressões inflacionárias, o emperramento da indústria, a piora das contas públicas e as más condições do comércio exterior.

Informações mais detalhadas podem tornar pior esse humor. Exemplo: de janeiro a junho deste ano, a produção de bens de capital, isto é, de máquinas e equipamentos, foi 8,3% menor que a do primeiro semestre do ano passado. Em 2012 e 2013 essa produção ficou estagnada. Além disso, entre janeiro e julho o valor gasto com a importação de bens de capital foi 6% menor que o dos mesmos meses de 2013. Conclusão inescapável: os brasileiros estão investindo menos na ampliação e na modernização da capacidade produtiva. Como o crescimento da economia depende do investimento, exceto quando há grande capacidade ociosa, o potencial de expansão do Brasil continua comprometido. É uma relação elementar. Não é questão de pessimismo. Embora seja difícil calcular aquele potencial, respeitáveis economistas concordam pelo menos quanto a um ponto: sem investir muito mais o Brasil pouco poderá crescer nos próximos anos.

As autoridades às vezes parecem admitir esse raciocínio. Mas continuam falando como se os fatos conhecidos fossem positivos e as más expectativas, infundadas, George Orwell chamou de "duplipensar" a sustentação de ideias incompatíveis. Em alguns casos, talvez fosse mais adequada outra palavra: "semipensar".

*Jornalista



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Tentáculos - Miguel Reale Júnior

Tentáculos - Opinião - Estadão

Tentáculos

- O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2014 | 02h 04

A participação popular junto à administração pública não é nada de novo. Constituía, desde 1980, uma das ideias-força de Franco Montoro, a se realizar por meio da descentralização. Para Montoro, "descentralizar é colocar o governo mais perto do povo e, por isso, torná-lo mais participativo, mais eficiente, mais democrático".

Montoro ponderava que não se mora na União nem no Estado, mas no município, razão por que a população local deve, por melhor conhecer seus problemas e soluções, participar dos órgãos comunitários a serem ouvidos pela administração no diagnóstico da situação e na sugestão de caminhos a serem trilhados. A seu ver, tudo o que puder ser decidido e realizado pelo bairro, pelo município, pela região não deve ser absorvido pela administração superior, vindo a facilitar a participação popular, motivo pelo qual descentralização e participação se imbricam: uma acompanha a outra, permitindo que Estado e sociedade se aproximem.

Montoro não ficou apenas no plano do discurso, pois deu efetividade às suas ideias, desconcentrando competências e fiscalização, como ocorreu, dentre tantos exemplos, na municipalização da merenda escolar, com repasse de recursos para tanto e a criação de Conselhos Municipais da Merenda Escolar, compostos por representantes da prefeitura, da Câmara Municipal, da Secretaria de Educação, da Associação e Pais e Mestres e de produtores e fornecedores locais. No governo paulista, criou, por exemplo, o Conselho da Condição Feminina, o Conselho Estadual da Comunidade Negra, os Conselhos Comunitários de Segurança Pública.

Com a participação de especialistas, já na década de 1930 se instituíra o Conselho Nacional da Saúde, depois paulatinamente democratizado com maior número de representantes da sociedade, antes mesmo da Constituição de 1988. No plano nacional, em 1985 surgiu o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e o Conselho Nacional do Consumidor.

A Constituição de 1988 consagrou, em diversos artigos, a participação da sociedade no auxílio à formulação de políticas públicas e na fiscalização da gestão, como se pode verificar: 1) no artigo 10.º se assegura a participação de trabalhadores e empregadores nos colegiados dos órgãos públicos em que haja discussão e deliberação de seus interesses profissionais ou previdenciários; 2) no artigo 187 se prevê que a política agrícola seja planejada e executada com a participação efetiva do setor da produção, envolvendo produtores e trabalhadores rurais, além dos setores de comercialização, armazenamento e transporte; 3) no artigo 198, III, se estabelece a participação da comunidade no âmbito dos serviços públicos de saúde.

Depois da atual Constituição federal muitos conselhos se formaram, tal como o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), ou tiveram ampliada a participação da sociedade, conforme se deu no Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). Assim, a participação da sociedade em diversos organismos para apresentar à administração a realidade a ser enfrentada, com sugestão de soluções, acompanhamento e controle de sua efetividade, é fato consagrado na realidade política brasileira.

O que espanta, então, no recente Decreto n.º 8.243, da presidente Dilma Rousseff, ao instituir a Política Nacional de Participação Social, não é o reconhecimento da participação da comunidade como auxiliar da administração, mas a tentativa de engessar essa participação à Presidência da República, mais especificamente, à sua Secretaria-Geral. Pelo decreto, verifica-se que a absolutamente necessária descentralização e a independência de organismos integrados e formados pela comunidade se esboroam, com o aparelhamento da sociedade civil, pois ficam sujeitos a um processo de centralização e de dominação da Secretaria-Geral da Presidência da República.

Malgrado se estatua ser diretriz a autonomia das organizações da sociedade civil, na verdade, submete-se sua participação à Secretaria-Geral da Presidência, à qual incumbirá orientar todos os órgãos da administração sobre a forma de implementar a contribuição da sociedade civil, bem como avaliar tal contribuição, consoante preceitua o artigo 5, parágrafos 1.º e 2.º. Para tanto se cria-se, por decreto, de forma inconstitucional, um órgão, o Comitê Governamental de Participação Social, coordenado pela Secretaria-Geral da Presidência, incumbido de a assessorar no monitoramento e implementação da Política de Participação Social.

No mais, o decreto disciplina totalmente como devem funcionar as diversas instâncias da participação social - conselhos de políticas públicas, comissões de políticas públicas, conferências nacionais, mesa de diálogo, fórum interconselhos, audiência pública, consulta pública, ambiente virtual de participação - que ficarão subordinadas à Presidência da República, retirando desses órgãos da sociedade civil sua vitalidade e sua espontaneidade ao burocratizá-los e submetê-los à orientação e avaliação de sua atuação por parte do comitê centralizador ligado à Secretaria-Geral da Presidência.

Tal centralização e o controle das instâncias de participação defluem claramente do disposto no artigo 8.º do decreto, segundo o qual compete à Secretaria-Geral da Presidência "realizar estudos técnicos e promover avaliações e sistematizações das instâncias e dos mecanismos de participação social definidos neste Decreto". Dessa maneira, as instâncias de participação ficam sugadas de sua liberdade ao serem sempre avaliadas pela Secretaria-Geral da Presidência e ao deverem obedecer à sistematização por ela imposta.

Em suma, a propalada Política de Participação Social não passa de um instrumento que, em vez de arejar a administração em contato com a sociedade, sujeita os organismos vitais da sociedade ao crivo constante do poder central, atraindo a sociedade para aprisioná-la nos tentáculos de uma insaciável sede de domínio.

*Advogado, professor titular aposentado da faculdade de Direito da USP, membro da Academia Paulista de Letras, foi ministro da Justiça



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Merval Pereira: Mentir é pecado

Democracia Política e novo Reformismo: Merval Pereira: Mentir é pecado

- O Globo


Recebi telefonemas do cardeal Dom Orani Tempesta e da ministra da Cultura, Marta Suplicy, ambos negando a notícia que dei aqui ontem de que o governo havia ameaçado retirar da Igreja Católica a guarda da imagem do Cristo Redentor devido à polêmica proibição do uso da imagem no filme de José Padilha sobre o Rio, que afinal foi revogada.


Pelo relato dos dois, como a Batalha de Itararé, a guerra que não aconteceu, também não houve o embate que noticiei. Como confirmei a informação, antes de publicar, com duas pessoas, disse a eles que manteria minha versão.


A única explicação que tenho, já que mentir é pecado, é que houve um tremendo mal-entendido nos momentos mais tensos da negociação para a liberação do filme.


O fato de o diretor José Padilha ter escrito um artigo em que questionava a autorização para que a Igreja Católica controle a imagem do Cristo — "Será que faz sentido a lei permitir que uma organização religiosa controle a imagem de um monumento que se situa em um local proeminente na paisagem do Rio de Janeiro e que é considerado um símbolo da cidade?" — acendeu o sinal de alerta na Cúria Metropolitana.


Assim como a intervenção do prefeito Eduardo Paes, defendendo a importância do uso da imagem para a propaganda da cidade do Rio de Janeiro. Nas muitas reuniões que aconteceram sobre o assunto, o artigo de Padilha e declarações de outros artistas foram citados como sinais de uma campanha contra a Igreja, a tal ponto que alguém chegou a sugerir que fosse comprada uma montanha e para lá se transferisse o monumento do Corcovado, que fica no Parque da Tijuca, sob jurisdição federal.


Citei esse fato a Dom Orani como prova de que o tema fora abordado nas reuniões, e ele, rindo muito, admitiu que "nessas reuniões, às vezes tensas, dizem-se coisas que não valem a pena levar a sério". É claro que a sugestão era inviável, mas retrata bem como a ameaça de retaliação governamental estava no ar. Dom Orani acha que não há razão para uma retaliação do governo, e lembra que é a Igreja que cuida do monumento, e já o restaurou por duas vezes nos últimos anos, tendo conseguido patrocínio privado para tanto. "Nenhum dinheiro do bondinho e de outras atividades vai para a Igreja, fica tudo com o Parque (da Tijuca)".


A ministra Marta Suplicy propôs que ela e Dom Orani dessem uma nota conjunta, mas o cardeal do Rio preferiu conversar comigo. O relato dos dois coincide, tanto no tom de amabilidade com que ocorreu a conversa, quanto nos detalhes, pois ambos se recordam de que a ministra se disse preocupada com a repercussão internacional da crise.


Como responsável também pelo turismo, havia trabalhado para que a imagem do Cristo fosse eleita uma das modernas Sete Maravilhas do Mundo, e essa crise com o filme poderia gerar noticiário negativo.


Perguntei então a Dom Orani se ele ou algum assessor havia recebido, mesmo de maneira indireta, ameaça de perder o controle da imagem do Cristo, e ele negou, embora admitisse que "com tantas críticas, tantas pressões, sempre há um receio de que alguma coisa possa acontecer". E acrescentou: "Se em Brasília há algum movimento nesse sentido, nós não sabemos".


Por sua vez, a ministra da Cultura se disse preocupada com a situação, pois surgira na notícia no papel de adversária da Igreja Católica, quando nada havia acontecido. Ela negou peremptoriamente que exista um decreto presidencial retirando da Igreja o controle da imagem.


Com outra pessoa do jornal, Marta foi mais longe, afirmando que "estamos numa disputa política", que "deveriam existir limites", e que "isso foi feito para pôr toda a Igreja Católica contra o governo". Que seu nome fora usado sob medida por conta das suas posições.


Não tenho a menor ideia se as posições da ministra deram ares de verdade a uma suposta ameaça nem se seu papel de representante oficial da Cultura serviu para reforçar a imagem de que estaria apoiando o movimento dos artistas em protesto contra o que foi considerado por muitos, inclusive eu, uma censura artística.


O fato é que a possibilidade de o governo tomar uma atitude no sentido de retirar ou mesmo reduzir os poderes da Igreja Católica sobre a imagem do Cristo foi discutida diversas vezes na Cúria Metropolitana nos dias do impasse sobre o filme de José Padilha.



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