Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, novembro 29, 2013

As dificuldades da Petrobrás - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 29/11
Ao declarar que a metodologia de ajuste do preço dos combustíveis não pode ser inflacionária nem indexar a economia, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, mostrou ser remota a possibilidade de aprovação da proposta defendida pela Petrobrás, que implica a correção automática dos preços a partir de certo nível de inflação. O conselho de administração da empresa, que é presidido pelo ministro, havia adiado por uma semana a reunião inicialmente marcada para a sexta-feira passada, na qual deveria aprovar as novas regras para o reajuste dos combustíveis. A declaração de Mantega torna incerta a data da sua aprovação.
Seria nociva para o controle da inflação e para a economia brasileira a reintrodução do mecanismo de indexação de um preço tão influente como o dos combustíveis. A medida poderia estimular outros setores a adotar essa prática, com efeitos danosos para a estabilidade da economia. Mas, ao insistir em manter sob seu controle estrito os preços praticados pela Petrobrás - claramente com o objetivo de evitar seu impacto sobre os índices de inflação -, o governo a condena a um regime financeiro com resultados cada vez piores.
O mau desempenho financeiro da Petrobrás gera desconfianças crescentes sobre sua capacidade de realizar os investimentos pelos quais é responsável, sobretudo na área do pré-sal, e de remunerar adequadamente seus acionistas, a começar pelo Tesouro Nacional.
Apesar do bilionário aporte de capital quando assinou o contrato de cessão onerosa com a União, em dezembro de 2010, a estatal vem apresentando resultados ruins quando comparados com seu patrimônio. Na ocasião, para obter o direito de exploração de 5 bilhões de barris de petróleo da área do pré-sal, a Petrobrás pagou ao Tesouro Nacional R$ 74,8 bilhões, mas, por um processo de emissão e venda de ações preferenciais, recebeu R$ 120,25 bilhões, o que resultou liquidamente em aumento de caixa de R$ 45,5 bilhões.
A margem operacional da empresa - resultante da comparação do resultado operacional (excluídos o resultado financeiro e o pagamento do Imposto de Renda) com a receita líquida -, que era de 29,6% no início de 2006, baixou para 10,63% no início deste ano, como mostram alguns estudos. O retorno sobre o capital investido - que indica a relação entre o resultado operacional e o valor do capital investido na empresa - caiu de 29,2% no início de 2006 para 4,8% no primeiro trimestre deste ano. Apesar da capitalização, a dívida líquida triplicou entre 2008 e 2012.
A deterioração dos indicadores financeiros da empresa se manteve ao longo de 2013. Reportagem do jornal Valor (26/11) mostra que o endividamento - relação entre a dívida líquida e o patrimônio líquido - chegou a 56,24%, o nível mais alto desde 1999, ano em que a maxidesvalorização do real o elevou para 75,8%.
Boa parte do dinheiro que recebeu em 2010 a empresa devolveu ao governo como pagamento pela cessão onerosa; a parte que efetivamente lhe coube foi investida em projetos que ainda não produzem resultados. Já com relação àquilo que produz resultados, estes têm sido negativos em razão do severo controle de preços dos combustíveis imposto pelo governo.
A queda da lucratividade da empresa tem como principal causa a área de abastecimento, responsável pelo refino de petróleo e venda de derivados. Em 2011, por exemplo, o prejuízo dessa área somou R$ 10 bilhões; as perdas mais do que dobraram no ano passado, quando alcançaram R$ 23 bilhões.
O baixo preço dos derivados para os consumidores, além de causar prejuízos - que não são compensados por outras atividades -, estimula o consumo, o que força a Petrobrás a importar mais petróleo e derivados e, assim, a aumentar suas perdas. Com seus resultados piorando, é menor o interesse dos acionistas em capitalizar a empresa (sua ação vale a metade do que valia quando da megacapitalização) e maior sua dificuldade para captar os recursos de que necessita para executar seu ambicioso programa de investimentos, sobretudo no pré-sal, cuja realização é motivo de dúvidas cada vez mais fortes.

Gastança e retrocesso nos juros - CORREIO BRAZILIENSE


CORREIO BRAZILIENSE - 29/11O Banco Central (BC) fez seu papel. Demorou, mas fez. Ao aplicar mais um aperto de 0,5 ponto percentual na taxa básica de juros (Selic), na reunião de quarta-feira do Comitê de Política Monetária (Copom), a autoridade completou a delicada tarefa a que se impôs de devolver as taxas ao nível de janeiro de 2012, ou o mais perto possível disso. Aparentemente forçado a participar da condução heterodoxa de uma política econômica que o governo Dilma Rousseff e alguns de seus conselheiros costumam chamar de desenvolvimentista, o BC afrouxou a política monetária. Desde então, promoveu uma sequência de cortes na taxa até chegar a 7,25% acumulados em 12 meses, sob aplausos de parte da plateia governista, dos míopes de certas academias e de empresários saudosos dos tempos em que podiam remarcar preços sem medo da concorrência.A ideia é tão velha quanto infeliz: mais importante que um pouco de inflação é o espetáculo do crescimento. E, para apimentar ainda mais o apetitoso banquete da felicidade geral, nada como abrir os cofres do gasto público, como se esse fosse o melhor combustível para a economia, movida a consumo a qualquer custo. Deu errado.
A ilusão da inflação controlada durou pouco. Pelo acumulado em 12 meses, ela havia baixado no primeiro semestre de 2012, caindo de 6,22% para 4,92% entre janeiro e junho, muito perto da meta de 4,5% estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para aquele ano. Foi tentador esquecer que as rédeas curtas da política monetária servem para inibir saltos do dragão para fora da jaula, motivados por fatores nem sempre controláveis, como a sazonalidade dos alimentos e as piruetas do câmbio.
Junho de 2013 (um ano depois) não foi mês de surpresas e tensões apenas nas ruas. Nas gôndolas do supermercado e nas vitrines das lojas, o consumidor percebeu que o salário tinha perdido poder de compra. A inflação acumulada em 12 meses bateu em 6,7%, rompendo o teto de tolerância (6,5%).
Quatro meses antes, o BC, que havia segurado a Selic desde outubro de 2012 em 7,25%, já tinha percebido que a missão de cumprir as metas de inflação corria risco. Convenceu o governo a retomar o caminho de volta, na expectativa de que teria algum apoio da política fiscal. Ledo engano. Ele pagaria sozinho o preço de ter afrouxado a política monetária tão rápido e de ter demorado tanto para inverter a curva, enquanto o governo continuou gastando e golpeando a credibilidade do país.
É por isso que o Brasil vai fechar o ano com taxa básica de juros de 10%, na contramão dos latino-americanos mais bem-sucedidos, como Colômbia (3,25%), México (3,5%), Peru (4%) e Chile (4,5%), em troca de inflação de 5,8% e crescimento anêmico de no máximo 2,5%.
Só resta esperar que, em 2014, o BC se mantenha alheio ao calendário eleitoral, olhos fixos no centro da meta de inflação de 4,5% e aguente o tranco dos abalos cambiais. Pois, além da pressão das urnas sobre o gasto público no Brasil, a previsão é de alta do dólar e taxas de juros internacionais com o fim da política de irrigação da economia dos EUA. Em vez de "fazer o diabo" para ganhar a eleição, melhor seria fazer as contas de quanto isso vai custar ao país.

Dois dígitos - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 29/11
Elevação da taxa de juros para 10% vem acompanhada de sinais acertados do Banco Central de que futuras altas serão menos íngremes
O Comitê de Política Monetária elevou a taxa básica de juros de 9,5% para 10% e sepultou a meta da presidente Dilma Rousseff de encerrar seu governo com a Selic em patamar menos distante da média internacional --a sexta alta seguida neste ano consolida a posição brasileira no topo das listas de custo do dinheiro.
A novidade, que não deixa de ser bem-vinda, é a indicação de que futuras altas, se houver, serão menos íngremes --sinal do Banco Central de que pode estar perto do fim o ciclo iniciado em abril, quando a Selic passou de 7,25% para 7,5%.
Verdade que, antes disso, a taxa chegara a 12,5%, em julho de 2011. A forte redução a partir de então foi uma malsucedida tentativa de impulsionar a economia. Juros baixos barateiam o crédito e põem mais dinheiro em circulação.
Para a estratégia funcionar, o Planalto deveria comandar com maior austeridade as contas públicas, no intuito de conter pressões inflacionárias e consolidar o novo patamar da Selic.
Como é sabido, o governo Dilma não fez a sua parte. Incomodado com o crescimento anêmico em 2011 e 2012, mudou a linha de conduta e apostou na gastança pública. Engajou-se, além disso, em truques contábeis para mascarar o balanço. Apostou que a economia recuperaria o vigor.
Não foi o que se viu. O PIB sofre para chegar perto de 2%. A inflação mantém-se alta, e poucos creem que ficará abaixo de 5,5% no ano que vem. Míngua o poder de compra das famílias e soçobra a confiança das empresas, que passaram a conter investimentos.
Era há muito visível o círculo deletério para a economia, mas o governo ainda assim demorou para reagir. Apenas neste ano o Banco Central procurou puxar as rédeas da inflação. Só recentemente a administração Dilma mudou o discurso econômico, na tentativa de impulsionar as concessões de infraestrutura e restaurar o ânimo do setor privado.
São sinais incipientes que apontam para a direção correta. Mas ainda há muito a fazer para recuperar um mínimo de credibilidade na gestão das contas públicas.
Há vetores contraditórios. Celebra-se um pacto de austeridade fiscal com o Congresso, de um lado, mas ninguém sabe ao certo, já quase em dezembro, qual é a meta de superavit primário (economia feita para pagar juros da dívida) que o governo persegue. Difícil esperar que empresários e investidores demonstrem confiança.
O Banco Central escolheu um curso acertado. Manterá o cuidado necessário para enfrentar o risco inflacionário, mas sem usar uma dose cavalar de juros capaz de jogar o país numa recessão.

Concessões ajudarão a impulsionar a economia - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 29/11

País passou sete anos sem rodadas de licitações no setor de petróleo, perdendo um tempo precioso que agora o governo tenta recuperar também em outros segmentos

Concluída ontem, com resultado satisfatório, a rodada de licitações de novas áreas em terra com potencial para exploração de gás (inclusive o chamado não convencional, como o de folhelho — “shale gas”, na nomenclatura que a indústria utiliza em inglês) abriu novas frentes de investimentos no setor, com o compromisso de pelo menos R$ 500 milhões. A Petrobras arrematou o maior número de lotes nas bacias de seu interesse (Paraná, Recôncavo, Sergipe-Alagoas), mas houve participação também de empresas de pequeno e médio portes, o que é animador, considerando-se o gigantismo das companhias que se destacam nessa atividade.
Depois de sete anos sem realizar rodadas de licitações, o governo programou quatro para 2013, entre as quais a primeiro sob o regime de partilha de produção, na camada do pré-sal, envolvendo o campo potencialmente gigante de Libra, na Bacia de Santos. Ciclos de investimento no setor de petróleo geralmente são de dez anos, desde a fase inicial de pesquisa até se atingir o pico de produção. Estes sete anos de paralisação deixaram ociosos vários elos na cadeia produtiva, um retrocesso.
O governo corre agora atrás do tempo perdido, e não apenas na área do petróleo. Deslancharam, finalmente, os leilões para escolha de concessionários de aeroportos e rodovias federais. Os aeroportos do Galeão e de Confins se juntarão no ano que vem aos que já estão sob nova administração. Obras que estavam planejadas há anos para esses aeroportos saíram do papel, e um cenário mais promissor para esse importante segmento de infraestrutura se desenha.
O governo custou a reconhecer que o modelo de concessões é mesmo o mais adequado para a infraestrutura, especialmente a de transportes. Os novos concessionários poderão agilizar investimentos visando a ampliar, em prazos relativamente curtos, a capacidade de transporte do país, tornando-a mais eficiente. Essa é uma questão vital para o desenvolvimento da economia brasileira. Ainda este ano mais três importantes rodovias federais serão leiloadas, todas fundamentais no escoamento da produção agroindustrial.
Com base nessa experiência, as autoridades estão revendo conceitos que impediram que novas ferrovias tivessem sido também licitadas em 2013. Se as partes direta ou indiretamente interessadas tivessem sido mais ouvidas na fase de preparação das licitações, muitas dificuldades teriam sido evitadas, sem risco de fracassos de leilões. Ao que tudo indica a lição foi aprendida e, no ano que vem, mesmo sendo o último do atual mandato da presidente Dilma, as concessões, juntando-se com as decididas em 2013, serão capazes de dar considerável impulso à economia brasileira, de modo a recuperar parte do dinamismo perdido ao longo do período de hesitação.

quinta-feira, novembro 28, 2013

Fazia sentido - CARLOS ALBERTO SARDENBERG

O GLOBO - 28/11


Se a mudança do indexador da poupança foi inconstitucional, então todas as outras alterações também o foram



O Plano Cruzado, de 28 de fevereiro de 1986, foi o primeiro de uma série de cinco fracassos na tentativa de eliminar a superinflação brasileira. Além desse destino infeliz, todos tiveram outra característica comum: o de serem lançados da noite para o dia, como uma bomba monetária que subitamente mudava todos os padrões da economia, da moeda aos contratos.

Entendia-se, então, que o efeito surpresa era condição necessária para qualquer plano desse tipo. Se fosse previamente anunciado, argumentava-se, isso provocaria dois efeitos indesejados: a paralisação da economia e uma enorme desorganização, porque todo mundo correria às cegas em busca de posições defensivas. Nesse ambiente, seria impossível introduzir um novo sistema monetário.

A magnífica construção do Plano Real, em etapas, tudo pré-anunciado, mostrou que essa teoria do choque era falsa. Mas foram oito anos até se provar isso.

Os cinco planos na base do choque — Cruzado, Bresser (1987), Verão (89) Collor 1 (90) e Collor 2 (91) — tiveram que contornar, digamos assim, um enorme problema legal. Na preparação do Cruzado, durante o governo Sarney, os economistas quase mataram de susto o então consultor-geral da República, Saulo Ramos, quando lhe contaram que pretendiam mudar a moeda, os preços e todos os contratos, tudo por decreto-lei assinado pelo presidente.

"Vocês estão querendo uma bruta coisa maluca", comentou Ramos, conforme, aliás, conto em meu livro "Aventura e agonia nos bastidores do cruzado", Companhia das Letras, 1987.

O problema é que a alternativa, enviar projetos de lei ao Congresso, obviamente não existia. Seguiu-se, então, nos bastidores uma discussão sobre a constitucionalidade do plano via decreto-lei. E, apesar de suas restrições iniciais, foi o próprio consultor quem encontrou outra argumentação. Para resumir: como a hiperinflação estava levando a economia ao caos, então esse era um caso de ameaça à segurança nacional, situação em que o presidente da República poderia legislar por decreto-lei.

Vendo a história de hoje, parece uma interpretação forçada. Mas, na hora, em meio a uma grave situação, com a economia em frangalhos e a política em crise, caiu como uma solução salvadora.

De certo modo, os outros quatro planos seguiam essa mesma lógica. Tudo na base do decreto (depois medidas provisórias) lançado na calada da noite, quando bancos e mercados já estavam fechados.

Essa é a origem das tantas contestações judiciais que estão por aí, especialmente essa que chegou à pauta do Supremo Tribunal Federal, pela qual poupadores pedem a aplicação de outro índice de correção para as cadernetas existentes nos momentos dos planos Bresser, Verão e Collor 1 e 2.

Pela lógica econômica, os indexadores precisavam ser alterados. O objetivo era introduzir a moeda nova e impedir que a inflação passada fosse reproduzida no novo regime.

Se os preços e todos os ativos e passivos expressos na moeda antiga fossem corrigidos pelos indexadores vigentes no mês anterior à introdução do novo padrão monetário, isso contaminaria a nova moeda e tornaria o plano inútil.

Por isso, a preocupação, desde o Cruzado, foi fazer uma mudança neutra: eliminar e/ou alterar os indexadores, de tal modo que isso não provocasse ganhos nem perdas. Daí a correção de ativos e passivos pelo mesmo critério. No caso da poupança, as cadernetas e as dívidas imobiliárias, financiadas pelo dinheiro da poupança, foram corrigidas da mesma maneira.

Assim, não houve ganhadores nem perdedores. Credores e devedores, poupadores e devedores da casa própria, clientes, bancos e governo, todos tiveram a mesma correção.

Tudo isso para dizer o seguinte: se a mudança do indexador da poupança foi inconstitucional, então todas as outras alterações também o foram. Ou seja, o STF teria que declarar nulos, por inconstitucionais, todos os planos e restabelecer a moeda, os contratos, as regras e indexadores vigentes anteriormente.

Mas anteriormente quando? No velho cruzeiro? No cruzado novo pré-Bresser?

Não faz o menor sentido, não tantos anos depois. O STF poderia ter derrubado tudo logo após cada plano. Isso não aconteceu, a vida seguiu. Como se dizia, os fatos impuseram a constitucionalidade. Hoje, declarar inconstitucional apenas a regra de correção da poupança será uma decisão que distribuirá riqueza do nada. Quer dizer, do nada, não. A conta vai direto para o governo — pois foi o governo que baixou decretos, medidas provisórias e demais normas, impondo o modo de correção. E, se vai para o governo, vai para o contribuinte, atual e futuro.

Os planos fizeram sentido na época e pelo menos evitaram explosões de hiperinflação. O Real resultou também desse aprendizado. Mudar um pedacinho do passado e impor enorme prejuízo à economia de hoje não faz sentido.

2014 nublado lá fora - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 28/11


Se já não bastassem problemas que nos causamos, país terá de enfrentar ano difícil de fora


OS EUROPEUS estão preocupados com o efeito da mudança da política econômica dos EUA. O Banco Central Europeu teme os efeitos da mudança da política de seu colega, o Fed, como afirmou ontem em relatório.

Não soa bem, nem para eles, nem para o mundo, menos ainda para nós, Brasil, ainda pequenos e periféricos.

Trocando em miúdos, o BCE está preocupado com a hipótese de alguém grande levar um tombo enorme com o revertério da política monetária americana.

Grosso modo, o Fed tende a fechar um pouco da torneira de dinheiro que despeja na economia faz anos. Isso deve ocorrer até algum momento de 2014. No fim das contas, a mudança deve provocar algum aumento de juros --isto é, desvalorização de papéis da dívida pública e privada. Quem não estiver protegido contra essa desvalorização perde dinheiro, bidu. A depender do tamanho da perda, os estilhaços podem voar para vários lados.

Pode não acontecer nada disso, pode ser que esteja todo mundo de calças compridas, galochas e guarda-chuvas.

Afinal, os meteorologistas financeiros vêm prevendo chuvas e trovoadas faz tempo. Ao menos desde maio, está todo mundo avisado de que a política do Fed vai mudar.

Sim, a gente não deve subestimar a capacidade da finança mundial de fazer besteira, dadas as crises recorrentes e estrambóticas que vêm ocorrendo pelo menos desde 1997 (1997, 1998, 2000-01, 2007-08). O próprio BCE acaba de lançar um aviso aos navegantes.

E daí? Daí que, a princípio, teremos mais um ano difícil no front externo, já não bastassem as bobagens que fazemos aqui mesmo, no Brasil.

Durante parte deste ano, a gente ouviu a conversa de que a "Europa estava melhorando". Bem, de certo modo, estava. Está sempre melhor quem foi retirado do mar antes de morrer afogado.

A previsão de crescimento do PIB per capita para a eurozona no ano que vem é de 0,8%. Mal recupera a recessão de 0,7% deste ano de 2013. Se tudo ocorrer dentro do ora previsto, sem acidentes, a renda da eurozona voltará ao que era em 2007 apenas em algum momento lá de 2015. Na média. Mas essa média é deformada pela boa situação alemã.

A França, segunda maior economia do bloco, volta a 2007 também em 2015. Mas a Itália ainda será uns 10% menor (em termos per capita); a espanhola, uns 5% (os EUA passaram desse estágio em 2012).

A economia da eurozona anda tão fraca que a inflação anual é menor que 1%. O risco de deflação (anorexia econômica causada por falta de consumo e investimento) é grande o suficiente para autoridades monetárias (exceto as alemãs) prometerem políticas exóticas (assemelhadas às americanas) a fim de conter o problema.

O crescimento mundial talvez seja um tico maior em 2014, mas sujeito a tempestades. A mudança americana vai balançar o nosso coreto (dólar mais caro, menos crédito externo ou crédito mais caro) mesmo que seu impacto seja suave no resto do mundo. Ainda há o risco de uma bolha desconhecida estourar ou de, pelo menos, tombos grandes em mercados financeiros.

Nós ainda teremos os tremeliques causados pela incerteza do resultado da eleição presidencial, afora todas as sequelas de anos de má política econômica. Mas o governo acha que está tudo bem.

CELSO MING -O bolo um pouco maior

 O Estado de S.Paulo

Se a revisão das Contas Nacionais levou ao que a presidente Dilma revelou em sua entrevista ao diário espanhol El País, as implicações não serão meramente estatísticas e não se limitarão à correção das séries históricas. Terão impacto relevante sobre a economia.

O IBGE está revendo as Contas Nacionais (as que calculam o PIB) baseado na suposição de que certos resultados anteriores foram subestimados. Corria a hipótese entre alguns economistas de que o setor de serviços é maior do que se supunha até agora e que, por isso, produz mais renda. A conclusão, ainda provisória e sujeita a análises, confirmou a hipótese.

Segue-se que a evolução do PIB em 2012 (sobre 2011) não foi de apenas 0,9%, como está nos registros, mas de alguma coisa ao redor de 1,5%. Foi o que adiantou a presidente Dilma com base em avaliações do Ministério da Fazenda. Os números oficiais serão divulgados pelo IBGE dia 3 de dezembro.

A presidente Dilma já está festejando porque essa revisão das Contas Nacionais tira alguma força daquela crítica de que este governo só produz PIBs nanicos. Mas há implicações mais importantes do que essa.

Uma delas é a de que o valor do salário mínimo em 2014 será também alguma coisa mais alto do que se previa. Em vez de R$ 722 será de R$ 727 (variação nominal de 7,17% em vez de 6,54%), conforme os cálculos ainda preliminares de uma instituição privada, a LCA Consultores. Salário mínimo mais alto implica, por sua vez, aumento da renda do trabalhador e dos custos de produção.

Como cerca de 67% dos benefícios da Previdência Social correspondem ao salário mínimo, haverá, também, um aumento de despesas do INSS que não virá acompanhado de aumento proporcional das receitas.

Outro efeito negativo ocorrerá nas contas públicas. Em 2012, as três áreas do setor público (governo federal, Estados e municípios) pouparam R$ 105 bilhões (superávit primário), correspondentes a 2,38% do PIB mais curto. Como o PIB ficou mais alto e o superávit primário manteve-se no mesmo tamanho, a relação com o PIB foi reduzida. Ou seja, o governo entregou um desempenho fiscal mais baixo do que o prometido.

O PIB mais alto em 2012 eleva a base de cálculo do PIB de 2013. Se hoje está crescendo à velocidade de 2,5% sobre uma base mais alta, o PIB de 2013 também será mais alto do que os R$ 4,7 trilhões das projeções do Banco Central. Assim, para o melhor e para o pior, todas as demais magnitudes medidas em proporção ao PIB têm de ser alteradas: dívida bruta e dívida líquida, déficit em Conta Corrente (contas externas), evolução do crédito, etc.

Outra consequência prática de impacto não desprezível vai para a fatia da indústria no bolo nacional. Se todos esses cálculos estão sendo refeitos porque a participação do setor de serviços no PIB não era de apenas 68,5%, mas de algo mais do que isso, segue-se que a indústria, que pesava 26,3% no PIB, pesará ainda menos (veja o Confira). Ou seja, as reclamações de que a indústria brasileira está se desidratando devem aumentar.

Do ponto de vista das políticas macroeconômicas, se o objetivo do governo é aumentar mais rapidamente o emprego, a área a ser acionada será o setor de serviços, que contrata mais gente e cresce mais depressa.

Luta por privilégios - Merval Pereira


Os "presos políticos" José Dirceu e José Genoíno continuam sua "luta política" na tentativa de se livrarem da parte mais dura da condenação, mesmo no regime semiaberto a que estão condenados. O terceiro membro petista do que até agora é considerado "uma quadrilha" pelo STF, Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, parece ter se aquietado depois de ter assinado manifesto político no primeiro dia de prisão.

Quanto mais se debatem dentro da prisão em busca de privilégios que já são evidentes no dia a dia da cadeia, Dirceu e Genoíno vão produzindo fatos que apenas aumentam a visibilidade de suas condenações e expõem à opinião pública a tentativa de desmoralizar a Justiça e fugir de suas responsabilidades penais.

O caso que parecia mais simples, e acabou se transformando em uma complicação para o próprio condenado e também para o ministro Joaquim Barbosa, é o de Genoino, que alega doença grave para pedir prisão domiciliar. O petista fez uma cirurgia em julho e colocou uma prótese na aorta, procedimento sem dúvida arriscado, mas que, ao que tudo indica, teve êxito absoluto.

Parentes e amigos chegaram a falar em "risco de morte" se ele permanecesse na Papuda, mas duas juntas médicas deram pareceres contrários à necessidade da prisão domiciliar. Primeiro, uma indicada pela Universidade de Brasília a pedido do presidente do Supremo, ministro Joaquim Barbosa, definiu que seu caso não era para prisão domiciliar.

Em seguida, outra junta médica, esta da Câmara dos Deputados, deu o mesmo diagnóstico. Os médicos da UnB concluíram que Genoino apresenta "excelente condição clínica atual, sem expectativa em qualquer prazo futuro de eventual insucesso cirúrgico ou complicação" O petista é "portador de cardiopatia que não se caracteriza como grave" o que permite que ele seja tratado normalmente no sistema prisional.

Os blogs chapas-brancas, muitos financiados pelo governo petista, tentaram, como sempre fazem, desacreditar os médicos brasilienses, chegando ao cúmulo de atribúírem o laudo a tendências políticas antipetistas. A nomeação de uma junta distinta pela Câmara chegou a entusiasmar os apoiadores do PT, que viam na sua escolha uma posição independente dos deputados em relação a Joaquim Barbosa.

Mas o laudo médico da junta designada pela Câmara também concluiu que o deputado licenciado José Genoino não é portador de cardiopatia grave. O petista queria antecipar sua aposentadoria por invalidez para escapar da abertura de um processo de cassação. Os médicos, porém, disseram que, até o momento, não é possível atestar a sua incapacidade definitiva.

Eles prorrogaram a licença médica por mais 90 dias e disseram que queriam evitar o pior. "Rotular uma pessoa como inválida. Nessa doença há grande chance de melhora" O que para um cidadão comum seria um laudo bem-vindo, para Genoino, é um empecilho.

O caso de José Dirceu é mais patético. Depois de tentar reviver na prisão os tempos heróicos de preso político, orientando os companheiros de cela nas discussões políticas e dando conselhos de como se comportar, foi contratado para trabalhar de gerente num hotel de Brasília.

O salário de R$ 20 mil, embora risível diante dos ganhos com sua consultoria, ainda assim coloca Dirceu em posição de elite, ainda mais se comparado com o salário em tomo de R$ 2 mil dos companheiros de trabalho. O proprietário do hotel, Paulo Masci de Abreu, é também dono de uma empresa de comunicação que possui várias rádios, em São Paulo, na rede CBS (Comunicações Brasil Sat).

Há informações de que a relação com Dirceu vem do tempo em que o ex-ministro trabalhava com consultoria e teria ajudado o empresário a negociar com o governo concessões de mídia, entre as quais a da ex-TV Excelsior, que dependeria de uma aprovação de Dilma.

Embora, como preso em regime semiaberto, Dirceu tivesse que trabalhar, segundo o artigo 35 do Código Penal, "durante o período diurno, em colônia agrícola, industrial ou estabelecimento similar" o "trabalho externo é admissível" Um privilégio que poucos conseguem.

Fonte: O Globo

Se piorar, estraga - Dora Kramer


Evidente que o PSDB adoraria ver o senador Aécio Neves explodindo nas pesquisas de intenção de votos para a Presidência em 2014 desde já.

Mas, uma vez que o hoje pré-candidato fica ali patinando entre 13% e 15%, o partido prefere deixar de lado o conceito de "se a eleição fosse hoje" para trabalhar o cenário de maneira mais estratégica.

Mantém sob uma estreita vigilância os índices da presidente Dilma Rousseff e do governador Eduardo Campos. Óbvio, diriam o senhor e a senhora, moças e rapazes. Afinal de contas, quanto menos pontos Dilma ganhar, melhor para Aécio. O mesmo se aplicando a Campos, que disputaria com ele uma vaga no segundo turno, não é mesmo?

Não, da perspectiva do senador mineiro não é assim. Aliás, se não chega! a ser radicalmente o oposto, é quase isso. A torcida na seara tucana daqui até o início oficial da campanha é para que a presidente não caia nas pesquisas de opinião. A última do Ibope lhe dá 43%.

Se subir um pouco - muito pouco, j nada que indique vitória consolidada! no primeiro turno - não faz mal. E qual a razão? Ai, sim, emerge a obviedade: porque quanto menos competitiva Dilma se mostrar, mais aumentam as chances de o ex-presidente Lula da Silva disputar para afastar o risco de o PT sair do poder.

Um detalhe antes de passarmos ao raciocínio de Aécio Neves em relação a Eduardo Campos: pelo mesmo motivo tem muita gente no PT que não vê com Aécio torce para Dilma não cair nas pesquisas para que Lula não se anime a voltar maus olhos a recuperação lenta dos índices de satisfação com o governo de Dilma. É a turma do "Volta Lula". A maioria, e nem tão silenciosa, como reza a expressão.

Sobre o governador de Pernambuco, a visão também se baseia no princípio do nem tanto ao mar nem tanto à terra. Na ótica tucana, foi bom que a aliança com Marina Silva não produzisse efeito imediato sobre as intènções de votos de Campos (7%), mas também não será bom se esse índice não começar a melhorar. Antes que o governador pense ainda remotamente em desistir da disputa.

Mal comparando, no embate entre Paulo Maluf e Tancredo Neves no colégio eleitoral de 1985, deu-se algo parecido, registre-se bem, em circunstâncias totalmente diversas. Em dado momento Tancredo começou a abrir uma vantagem tão grande sobre Maluf que o medo passou a ser o de que ele renunciasse à candidatura e inviabilizasse a escolha do candidato de oposição.

Ou seja, na política também tem uma hora em que é preciso cuidar do equilíbrio ecológico para o ambiente não se deteriorar.

Essa preocupação com a estabilidade de forças inclui a segunda fase da eleição. Aécio Neves e Eduardo Campos estão em permanente contato e, de quando em vez, veem a necessidade de tornar essa aproximação explícita. Marcam um encontro -como se precisassem dessa formalidade para conversar - e posam para fotos. Sempre dizendo que é tudo muito sigiloso.

Constroem, assim, não só palanques estaduais, conforme alegam. Buscam principalmente solidificar pontes de apoio mútuo para quem conseguir passar à etapa final.

Empurra. A reunião da Mesa Diretora da Câmara para discutir a abertura do processo de cassação de José Genoino foi adiada sob a alegação de que parte dos deputados não estará em Brasília hoje.

E por que suas excelências diretora não estarão? Para não dar número suficiente para que se realize a reunião marcada desde a semana passada para esta quinta-feira.

Bilheteria. Gerentes de hotéis em Brasília estranham o salário (R$ 20 mil) oferecido pelo Saint Peter a José Dirceu. Altamente inflacionado, segundo eles, em relação ao mercado.

Desconsideram, contudo, que Dirceu será uma atração à parte para o estabelecimento.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Do lado de fora da Papuda - Eliane Cantanhêde


Se a prisão de José Dirceu e José Genoino foi realmente dramática, as tentativas nada sutis de fuga estão virando piada em Brasília e nas redes sociais.

Dirceu girar, girar e acabar virando gerente administrativo de um hotel que era justamente de Sérgio Naya, deputado que foi cassado e preso, é a realidade esbarrando na ficção. Ok, a vida dá voltas, mas não precisava tanto. As perguntas são as mais maliciosas: vai cuidar do "lobby"? Vai para a "lavanderia"? Ou vai carregar as "malas"?

Não bastasse, a chefe de Dirceu no hotel ganha R$ 1.800, mas o salário dele vai ser de R$ 20 mil por mês. E com um vidão. Suíte à disposição, bar 24 horas por dia, uma piscininha de vez em quando, entra e sai à vontade de amigos e correligionários. Aquilo vai virar uma festa.

Quanto a Genoino, exageraram na dose da vitimização e o remédio começa a fazer efeito inverso, criando uma nuvem de desconfianças.

Ele passou mal no voo para Brasília, mas tinha se recusado a fazer qualquer tipo de exame antes de embarcar. Já na Papuda, foi anunciado que ele teve um infarto, mas foi só um pico de pressão.

O Supremo avalia prisão domiciliar permanente, mas uma junta médica atesta que não é "imprescindível". Por fim, a Câmara tem de decidir sobre a aposentadoria por invalidez, mas uma segunda junta diz que a cardiopatia não é tão grave.

O processo de vitimização evoluiu para um estágio de constrangimento geral. No meio desse caminho, destaque para o artigo impecável do colega Marcelo Coelho, relatando fatos do mensalão e do julgamento, sem emoção, sem adjetivos, para concluir que, inocente, Genoino não é.

Segundo um velho ditado, "quanto mais alto, maior o tombo". Segundo outro, na mesma linha, "esperteza, quando é muita, vira bicho e come o dono". A hora é de humildade, gente. Tentar garantir o luxo de Dirceu e santificar Genoino vai ter efeito bumerangue. Aliás, já está tendo.

Fonte: Folha de S. Paulo

Aloprados II – O PT contra ataca- Alberto Goldman


Um relatório original, escrito em inglês, sobre a formação de cartéis em fornecimentos da Siemens para diversas áreas da administração pública em diversos Estados do Brasil, inclusive no setor metroviário em São Paulo, foi entregue por um ex-executivo da empresa à sua direção geral no exterior. Ele não trouxe qualquer citação ao PSDB ou a nomes de parlamentares tucanos. No entanto, uma cópia dele, em versão para o português, foi divulgada com diversas citações que não fazem parte do original. Ou seja, a versão foi forjada, dando origem a um documento falso entregue à imprensa e que consta no processo aberto pela Polícia Federal.

O Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, recebeu os textos das mãos do deputado estadual do PT, Simão Pedro e, sem maiores cautelas, o encaminhou à Polícia Federal, há vários meses. Daí alguém vazou a versão falsa e os nomes de várias pessoas foram enxovalhados para gáudio da turma do mensalão.

Pois é. Bastou os mensaleiros irem para a cadeia para o PT ressuscitar seus velhos e espúrios métodos de luta política. Nesta guerra, a arma mais comum é a difamação, a manipulação e a produção em série de dossiês fajutos. Aconteceu novamente agora, com o agravante de que, desta vez, quem está à frente das aloprações é nada menos que o Ministro da Justiça.

O PT parece ter visto na investigação da denúncia de prática de cartel em concorrências para obras de expansão da rede metroferroviária em São Paulo uma oportunidade para tentar envolver seus maiores adversários políticos na mesma lama em que o partido chafurda. Para tanto, botou suas engrenagens em ação e envolveu o aparato estatal na luta política.

Diz o Ministro que o deputado petista lhe entregou em sua casa o material. Simão Pedro já vem, há tempos, fazendo hora extra com o tal alemão da Siemens, dele obtendo informações e denúncias que vinha levando ao Ministério Público que está fazendo as investigações. Pelo jeito, não satisfeito com os resultados, resolveu levar o papelucho ao Ministro que ajudou a montar essa presepada passando a ser partícipe ou cabeça dela.

O curioso é que o suposto autor do papelucho diz desconhecer seu conteúdo e até refuta as acusações que supostamente constam do "documento". Ontem o PSDB mostrou que Cardozo deu guarida a um papel fraudado que sequer correspondia à fiel tradução do original, com a inclusão criminosa de nomes que simplesmente não constavam da versão em inglês. É o PT exercitando sua conhecida má-fé – ou, quem sabe, a "criatividade" que se tornou marca do partido até nas contas públicas do país…


Tratando-se do PT, faz todo sentido que assim seja. Seu propósito é cristalino: tumultuar, mais uma vez, o ambiente político, desviar o foco do escândalo do mensalão e dos mensaleiros petistas presos no presídio da Papuda, na capital federal, e tentar fazer crer à população que todos se igualam no lodo do submundo da política.

Nós queremos que as investigações, sérias e responsáveis, sejam feitas, apurando os contratos em todo o Brasil, incluindo as empresas federais que compram equipamentos das empresas denunciadas. Neste sentido, é necessário também apurar suspeitas similares que pairam sobre contratos firmados pela CBTU, empresa federal vinculada ao Ministério das Cidades, para reforma de trens em Porto Alegre e Belo Horizonte, conforme a Polícia Federal e o Ministério Público Federal anunciaram em agosto, mas até agora não se sabe no que deu.

O PT é useiro e vezeiro nesse tipo de operação. Ele se assemelha com episódios anteriores: a falsificação de documentos por aloprados na campanha de 2006, o chamado dossiê Cayman, a "lista de Furnas" e a criminosa quebra de sigilo de tucanos na campanha presidencial de 2010.

Que se apure a fundo todas as denúncias, mas que se deixe de lado o uso espúrio do aparato estatal do PT para fazer disputa política.

Alberto Goldman, vice-presidente nacional do PSDB

Há direito adquirido de quebrar o País? - José Serra


Está na pauta do STF um conjunto de ações relativas à correção de cadernetas de poupança (CPs) durante quatro planos anti-inflacionários do passado: Bresser, Verão, Collor 1 e Collor 2. Se forem acolhidas, representarão o mais concentrado e espetacular ataque isolado à estabilidade da economia brasileira. Uma decisão, eu diria, sádica, num país que já não vai bem, patinando na semiestagnação, no desequilíbrio externo, na inflação reprimida, nas agruras fiscais e na falta de bons empregos.

Quem ganharia com isso? De forma substancial, os escritórios de advocacia que investiram no recrutamento de clientes e, em parte, esses clientes, detentores de depósitos de poupança quando foram feitos esses planos (junho de 1987, janeiro de 1989, março de 1990 e janeiro de 1991). Seriam pequenos clientes apenas? Nem tanto. Na época dos planos, 2% dos detentores de CPs comandavam cerca da metade desses depósitos.

Do outro lado haverá um golpe brutal no nível da atividade econômica e nas finanças públicas. Perderão o Brasil e sua população, com a consequente contração do PIB e dos empregos. Para os investidores internacionais, será uma demonstração definitiva da leviandade econômica das instituições brasileiras. Se as coisas já não vão bem, piorarão muito.

O ataque está baseado numa tese economicamente surrealista. Reivindica-se a devolução de supostas perdas havidas diante das mudanças de regras de correção das CPs por ocasião do congelamento de preços promovido pelos planos. Note-se que nas quatro ocasiões o País vivia um processo de superinflação caminhando para o total descontrole, o da hiperinflação, que liquidaria de vez com o já frágil padrão monetário brasileiro nas duas funções essenciais: unidade de medida, meio de pagamento e reserva de valor. Nesse contexto, seriam desmilinguidos todos os contratos de reajuste salarial e de indexação - nenhum encurtamento de prazos conseguiria evitá-lo, nenhum "direito adquirido" salvaria nada - paralelamente à desorganização da economia e da sociedade e à expansão da miséria e do desemprego.

Por diversos motivos os planos fracassaram, mas foram tentativas de salvar a moeda e apropria Nação. Representaram uma ação legítima do Estado em defesa da sua integridade. Note-se que a experiência acumulada desses fracassos, bem como o do Plano Cruzado (1986), foi essencial para a formulação e o êxito do Plano Real (1994). Os planos fracassaram no combate à inflação, mas ao menos mantiveram uma economia superinflacionária em funcionamento.

O sucesso para conter o galope inflacionário pressupunha tentativas de coordenar os reajustes dos diferentes preços e forçar a desindexação da economia, ou seja, a transmissão automática da inflação passada para o futuro. Seria impossível fazê-lo mantendo todos os contratos estabelecidos. Daí as mudanças de indexadores e as tablitas.

Num voto proferido há três anos, o ministro Ricardo Lewandowski, do STF, defendeu a tese de que cabem, sim, indenizações, em razão das mudanças na indexação da poupança, alegando que os bancos têm tido lucros elevados e poderiam pagar por isso. Ledo engano.
Primeiro, os bancos que recebiam depósitos de poupança só fizeram adotar os novos índices determinados em lei, senão seriam punidos. Mais ainda, as mudanças dos índices não proporcionaram ganhos extras ao sistema bancário da época, até porque o crédito imobiliário também adotou esses índices, e os recursos da poupança que não iam para imóveis tinham de ser recolhidos ao Banco Central, com o mesmo rendimento.

Tampouco há indenização a ser paga. Os rendimentos reais dos detentores de CPs aumentaram nos meses seguintes aos da deflagração dos planos precisamente por causa da queda da inflação. Não se trata de exercício de opiniática, mas de números, calculados por Bernard Appy em excelente estudo: um cidadão que aplicou na poupança um mês antes e sacou tudo dois meses depois teve ganhos reais de 16,9% no Plano Bresser, 104% no Plano Verão e 42,6% no Plano Collor 1. No Collor 2, nem ganhou nem perdeu. Apesar disso, as ações judiciais pleiteiam um reajuste adicional de 20% no caso do Plano Verão e mais de 40% no do Collor 1!

A pancada sobre a economia nacional, ou o montante a ser pago se o acolhimento ocorrer, será da ordem de R$ isso bilhões, valor que pode crescer pelos juros de mora e efeitos de encadeamentos judiciais para trás e para a frente - os fundos de pensão, por exemplo, estimam uma perda de R$ 40 bilhões. Como lembrou Appy, esses R$ 150 bilhões já representariam 35% do patrimônio líquido de todo o sistema bancário - sete pontos porcentuais a mais que a perda de capital dos bancos americanos na crise do subprime!

De fato, quem pagará a conta será principalmente o Tesouro Nacional, pois mais da metade da poupança estava na Caixa Econômica Federal (CEF) e no Banco do Brasil (BB), que em 2008 absorveu a Nossa Caixa. Portanto, sob pena de o BB e a CEF quebrarem, o governo teria de bancar o prejuízo - algo em tomo de R$ 78 bilhões.

Já os bancos privados teriam de elevar seus spreads e/ou cortar seus créditos. Para cada real perdido, R# 9 a menos de crédito. É obvio que os bancos iriam pedir - e com razão! - a devolução de Imposto de Renda que recolheram no período dos planos, tudo corrigido pela inflação e pagando os juros de mora: mais algumas dezenas de bilhões de exigências adicionais sobre o governo federal.

Em síntese, se acolhidos os recursos, 1) os bancos públicos estarão encalacrados; 2) o Tesouro terá de socorrê-los para que não quebrem; 3) dinheiro público terá de ressarcir também instituições privadas; 4) sobrevirá uma enorme instabilidade econômica; 5) o conjunto dos brasileiros arcará com os custos de uma visão de "direito adquirido" que desafia a matemática e as regras elementares de funcionamento da economia. Ninguém, mas ninguém mesmo, tem o direito adquirido de quebrar o País.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Vestindo aa carapuça - Aécio Neves

 

O PT jamais conseguirá apagar da história que a origem do Bolsa Família está nos programas de transferência de renda de FHC

São impressionantes os ruídos estridentes dos falcões do PT sempre que percebem o risco de ver reduzido o uso indiscriminado --e às vezes criminoso-- do Bolsa Família como instrumento eleitoral de manutenção do seu projeto de poder.

Só isso justifica uma reação tão virulenta como a do presidente do PT contra a iniciativa do PSDB de elevar o programa à condição de política de Estado, retirando-o da condição de benemerência de um partido --na qual o PT procura mantê-lo-- e colocando-o sob proteção da Lei Orgânica de Assistência Social brasileira (Loas).

Talvez porque esteja submerso no manejo de causas impossíveis --como a transformação de crimes de corrupção em perseguição política-- o presidente petista tenha deixado transparecer um nível tão primário de conhecimento sobre o principal arcabouço legal que sustenta a rede de proteção social no país. Ele parece não saber que é nela, na Loas, que estão guardados os compromissos do Estado brasileiro com o enfrentamento à pobreza e a regulação do acesso aos direitos sociais dos cidadãos.

Mas, como a motivação do PT restringe-se apenas às suas conveniências políticas, o verdadeiro significado das iniciativas recentes do PSDB foi vergonhosamente deturpado no artigo do deputado Rui Falcão ("Um fantasma liberal ronda o Bolsa Família", 24/11), na tentativa de manter o monopólio que acreditam ter sobre o tema.

E isso mesmo sabendo que, por mais que tentem, jamais conseguirão apagar da história que a origem do Bolsa Família está nos programas de transferência de renda criados no governo do presidente Fernando Henrique (1995-2002).

É também importante lembrar que, em 1996, o governo do PSDB implantou, sem qualquer apropriação publicitária ou política indevida, a maior iniciativa de transferência de renda em vigor no país, prevista desde a Constituinte de 88 --o Benefício de Prestação Continuada.

O BPC paga um salário mínimo a todos os idosos e deficientes com renda per capita inferior a um quarto do salário mínimo. Nos últimos dez anos, o BPC fez chegar aos brasileiros R$ 180 bilhões. O Bolsa Família, R$ 124 bilhões. O BPC, assim como o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, encontra-se abrigado na Loas.

Não é difícil entender por que o PT não utiliza os espaços de que dispõe para fazer avançar o debate sobre o enfrentamento da pobreza. Afinal, teria que esclarecer quais os critérios utilizados pelo governo para fixar em R$ 70 per capita mensais o recorte da pobreza extrema no país, quando os organismos internacionais fixam o valor em U$ 1,25 dia, o que significaria cerca de R$ 86.

Ou por que, por conveniência do governo, o enfrentamento da pobreza está restrito à dimensão da renda, quando deveria alcançar os chamados "mínimos sociais": acesso à saúde, à educação de qualidade, segurança, saneamento básico e outros.

Compreende-se o diversionismo petista: não há resposta, dez anos depois, para mais da metade da população estar sem saneamento, para a violência que mata 50 mil brasileiros por ano, para o analfabetismo estagnado nem para os 13 mil leitos hospitalares extintos no período.

O artigo de Rui Falcão é mais um exemplo daquele que talvez seja um dos maiores desserviços do PT ao país: a legitimação da mentira como instrumento do debate político.

Aécio Neves, 53, é senador (PSDB-MG). Foi governador de Minas Gerais (2003-2010)

Fonte: Folha de S. Paulo

Claudio Humberto

Política – Claudio Humberto

• RJ: PMDB avalia desistir de Pezão para o governo
A executiva nacional do PMDB avalia a desistência da candidatura do vice-governador Luiz Fernando Pezão à sucessão estadual, no Rio de Janeiro. O desânimo é provocado pelo desempenho pífio de Pezão nas pesquisas, empacado em irrisórios 4% das intenções de votos, e na queda-livre do governador-problema Sérgio Cabral. A cúpula do partido já acha boa ideia aliar-se a Lindbergh Farias (PT), inimigo de Cabral.

• Abraço de afogados
Para um dirigente do partido, "ou PT e PMDB se abraçam ou morrerão afogados". Lindbergh também tem fraco desempenho nas pesquisas.

• O nome
A cúpula do PMDB lamenta não ter filiado o secretário de segurança José Mariano Beltrame. Poderia ser a salvação do partido em 2014.

• Surfando
O ministro Marcelo Crivella (PRB) e o deputado Anthony Garotinho (PR) são quem mais tem faturado com a briga entre o PT-PMDB.

• Tá feia a coisa
O PT e o PMDB – principal aliado da presidente Dilma – até agora só conseguiram fechar acordo em três estados: DF, Pará e Amazonas.

• Como a CUT, petistas fazem ameaças a Joaquim
O ministro Joaquim Barbosa e o Supremo Tribunal Federal recebem ameaças diárias de pessoas ligadas ao PT e a meliantes condenados no mensalão, segundo confirmam fontes próximas à presidência da Corte, mas adotaram a regra de ignorá-las. Por essa razão o STF não levará a sério ameaças de sindicalistas da CUT, a Central Única dos Trabalhadores, dia 25, garantindo a Barbosa que "sua vez vai chegar".

• Tem limite
Em qualquer país democrático, ameaça tão explícita ao chefe do Poder Judiciário faz a polícia identificar e denunciar seus autores.

• Bem protegido
As ameaças preocupam os amigos e auxiliares de Joaquim Barbosa, mas todos parecem tranquilos quanto ao seu esquema de segurança.

• Melô do dissidente
Peemedebistas gaúchos recorrem ao clássico de Tim Maia para explicar a relação com governo Dilma: "Me dê motivo, para ir embora…"

• Inatividade
Um dos réus menos conhecidos entre os mensaleiros, Jacinto Lamas se aposentou como analista legislativo da Câmara dos Deputados. Mesmo na Papuda, receberá seus proventos mensais de R$ 24.148,49.

• Pernas curtíssimas
Com duas juntas médicas atestando que seu estado de saúde não é grave, como insinuava, o deputado presidiário José Genoino (PT-SP) viu reduzidas suas chances de emplacar "aposentadoria por invalidez".

• Abertura acanhada
A tragédia no Itaquerão fez lembrar que a Copa de 2014, a mais importante de todos os tempos, terá solenidade de abertura no mais acanhado – e talvez inseguro – dos estádios construídos para o evento.

• Lástima
O botafoguense Nilton Santos, a enciclopédia do futebol, seria o único brasileiro que atuou pela Seleção de 1950, no Brasil, a presenciar o retorno da Copa do Mundo às terras tupiniquins, em 2014.

• Premiação justa
Um dos mais admirados magistrados do País, Pedro Valls Feu Rosa, presidente do Tribunal de Justiça capixaba, receberá hoje no Supremo Tribunal Federal o Prêmio Innovare, pela criação do programa de "botões de pânico" para mulheres ameaçadas ou vítimas de violência.

• Atrasado
Mensaleiros presos têm a ajuda da Justiça para empurrar o pagamento da multa condenatória com a barriga. Passados dez dias da prisão, o TJDFT sequer corrigiu os valores para repassá-los aos presos.

• Boi de piranha
A reputação do presidente do PTB, Benito Gama, é tão ruim no Palácio do Planalto, que sua indicação ao ministério de Dilma tem toda pinta de ter sido uma manobra dos senadores do PTB para queimar seu nome.

• Campanha
Candidato ao governo de SP, o ministro Alexandre Padilha (Saúde) tem convidado para as agendas eleitoreiras desde parlamentares da base – incluindo mensaleiros presos – a oposicionistas como Aloysio Nunes e Carlos Sampaio, que estiveram no Seminário Cuidados Integrados.

• Questão de princípio
José Dirceu levará uma novidade ao hotel, como novo gerente: em vez de diárias, os hóspedes pagarão mensalmente. Tipo mensalão.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

domingo, novembro 10, 2013

A nova classe média João Ubaldo Ribeiro

10 de novembro de 2013 
 O Estado de S.Paulo
A questão das classes sociais, sempre controvertida em toda parte, é particularmente difícil de abordar em Itaparica. Meu saudoso amigo Zé de Honorina, em momentos de indignação cívica, costumava dizer que não havia classes sociais na ilha. "Aqui é tudo igual", dizia ele. "Tudo a mesma desgraça." Uma vez eu tentei contrapor alguns argumentos discordantes.
- Inclusive nós dois! - interrompeu ele, encerrando a discussão.
Além de visões radicais deste tipo, a análise sociológica esbarra em confusões de toda ordem, como quando Ary de Maninha, em conferência proferida durante as comemorações do Sete de Janeiro, afirmou que a estratificação social na ilha estava adquirindo um perfil prenhe de incertezas. A maioria dos presentes cumprimentou Ary por mais uma vez brindá-los com belas palavras que ninguém entendeu, mas Piroca Vieira, que desconhecia qualquer um, quando se tratava de defender a ilha, não gostou, porque achou que se tratava de uma alusão pejorativa às reconhecidas virtudes da mulher itaparicana. Exigiu cadeia para o orador, e discursou várias vezes na porta da quitanda de Bambano, lamentando que já estivesse em desuso a antiga e veneranda prática de enfiar um ovo quente na boca dos difamadores.
- E não venha me dizer que "prenhe" não é "prenha", que eu sei que "prenhe" é "prenha" em francês! - bradou Piroca. - Se não fosse o respeito que eu tenho por dona Maninha e dona Maroca, você agora ia ouvir quem é que está aqui prenha por causa da estripificação social! Eu não sou analfabeto, eu entendi tudo o que você disse com seu francesório metido a merda!
Não bastassem esses mal-entendidos, ainda há ações inesperadas, de consequências imprevisíveis. Zecamunista andou mais uma vez ausente por uma temporada, desta feita na região de Vitória da Conquista, como convidado especial de um torneio de pôquer para milionários e profissionais, onde as finíssimas garçonetes, atendentes, recepcionistas e outras auxiliares eram todas moças mundanas do mais alto quilate, contratadas no Sul do País. Tinha convidado quatro para passar uns dias com ele, uma delas era aquela mesma lourona de um metro e oitenta, que, quando atravessou de biquíni o Largo da Quitanda, Jacob Preto desmaiou. Sorridente e pagando uma rodada atrás da outra, no Bar de Espanha, Zeca comentou que os profissionais, principalmente ele, se deram bem, mas, quanto aos milionários, ele se orgulhava em dizer que promovera uma bela redistribuição de renda, naquela excursão.
Deve ter sido nesse instante que se manifestou o diabinho que frequenta o juízo dos agitadores contumazes e lhe sopra ideias inusitadas. À menção de distribuição de renda, o impenitente bolchevique, num salto surpreendente mesmo para quem, como ele, faz ginástica todo dia ouvindo as ondas curtas da Rádio de Moscou, levantou-se, batendo na testa. Era isso mesmo! Como não tinha pensado nisso antes? A revolução ao alcance da mão! A um custo irrisório, toda a estrutura de classes do município da Denodada Vila de Itaparica, seria definitivamente alterada, a ilha ia dormir uma coisa e acordar outra coisa, nem Napoleão podia gabar-se de proeza semelhante.
Depois de uma ausência de algumas horas, trancado em casa, durante a qual as moças que hospedava e seus biquínis rebolaram pela rua Direita abaixo e Jacob passou mal outra vez, Zeca finalmente ressurgiu no Bar de Espanha. Tinha consultado fontes, já tinha mandado acertar tudo, buscar notas de dois reais no banco, preparar postos de pagamento, contratar gente, fazer um cadastrozinho.Tudo somado, trabalho para não mais que uma semana, por aí. Vamos dizer, duas semanas para o pleno funcionamento do esquema, que era muito simples.Bastava pagar dois reais a cada cadastrado de classe média, o resultado estava garantido.
- O raciocínio é simples - disse Zeca. - Eu li que, para o governo, a classe média, começando pela baixa classe média, vai de 291 a 441 reais de renda familiar. Aí eu dou dois reais a cada família nessas condições. Quem está com 290 sai da pobreza e entra logo na classe média. Quem está com 441 pega os dois reais, passa para 443 e entra na classe média média. E quem está com 641, que é o limite da classe média média, pega os dois reais e entra na classe média alta.Acho que ainda preciso acertar uns ajustes na passagem da pobreza para a média baixa, mas, quando em boas mãos, as estatísticas fazem qualquer coisa, está aí o governo mesmo, que não me deixa mentir. Itaparica, o município com a maior porcentagem da população na classe média! Curva-te, São Paulo! Ajoelha-te, Rio! Aprende, Europa! O brasileiro é um ingrato e o nordestino um injustiçado, do contrário eu entraria para a História como o homem que revolucionou a mobilidade social, o primeiro a aparecer com uma novidade nessa área, desde Lenine.
- Você me desculpe, mas em que que isto muda alguma coisa?
- Você é um cego político. É o que dá se vender ao jornalismo capitalista. Isto é o mapa da vitória nas urnas, melhor que isto só no tempo em que o coronel seu avô pagava cem mil réis por um saveiro cheio de eleitores. Pense no programa de tevê do partido que adotar minha ideia: "Você hoje não é mais pobre, é classe média.E, agora que já se instalou nela, não vai querer sair, vai? Filie-se e vote no Nosso Partido, o NOP! Somente o NOP garante dois reais por família, para você permanecer ou subir mais na classe média! É o nosso compromisso! Votou, ganhou! Na escada para o topo, conte com o NOP!"
- Claro que essa maluquice não ia dar certo. Ia ser preciso um partido muito cínico, um Congresso muito irresponsável e um povo muito avacalhado.
- Justamente - disse ele.

Arquivo do blog