Entrevista:O Estado inteligente
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terça-feira, junho 02, 2009
Dia difícil Míriam Leitão
O GLOBO
A segunda-feira, primeiro dia de junho, começou com as notícias do desaparecimento de um avião e da maior concordata da história da indústria no mundo. Duas tragédias, uma delas anunciada. A crise econômica não produziu a quebra da General Motors, apenas a revelou. No voo, com passageiros do mundo inteiro, a dificuldade era contactar todas as famílias antes da lista final.
Uma segunda difícil, com tragédias humana e econômica. O presidente Barack Obama disse que será um "doloroso renascimento" para a GM. Mesmo sendo uma notícia com dia marcado, a concordata impressiona. A GM sempre foi um símbolo do capitalismo americano. De 1931 a 2007, foi a maior produtora de automóveis do mundo. Só no ano passado perdeu o posto para a Toyota.
No Brasil, comemorou-se o fato de que a produção industrial subiu 1,1% em abril, na comparação com março; mas o que espanta é a queda de 14,8% frente a abril do ano passado. O país produziu neste mês 15% menos do que em setembro de 2008.
Nos Estados Unidos, o que se falou oficialmente é que a concordata será uma grande oportunidade para a empresa se recuperar, e que todos - governo, agora dono, e setor privado - acham que será uma recuperação rápida. A verdade é diferente da esperança. Os processos de concordata são imprevisíveis, podem durar anos, a recuperação pode acontecer ou não. Afinal, o dinheiro do contribuinte não pode fazer tudo. As vendas da empresa precisam aumentar, e os consumidores têm várias opções de concorrentes, que, neste momento, estão fazendo de tudo para sobreviver à crise.
A GM, que fez parte da formação da elite operária americana, os blue-collars, vai demitir 20 mil trabalhadores. Mas isso não é tudo. Cada emprego no chão de fábrica representa vários outros empregos na cadeia movimentada pela indústria. Por isso, é que a especialista Tereza Fernandes, da MB Associados, calcula que pelo menos 60 mil pessoas podem perder o emprego nos Estados Unidos em função desse processo de concordata e que pelo menos 1.000 concessionárias fecharão as portas.
- Isso mexe com toda a cadeia produtiva, inclusive para trás. O setor de autopeças, por exemplo, perderá demanda de um grande comprador. Com a crise, o setor já está tendo dificuldades de antecipar recebíveis. Agora, ficará ainda mais difícil - afirmou.
Tereza nos disse aqui na coluna, há mais de um mês, que nem o super-homem teria poderes para impedir a concordata da GM. Obama jogou todo o poder que tem para mantê-la viva.
Depois dos US$20 bilhões que já foram postos na empresa, o governo fará novo aporte de US$30 bilhões. Da concordata, ela sairá "mais magra e mais forte", disse ele. Mais magra certamente; mais forte, só o futuro dirá.
Para o coordenador do Centro de Estudos Automotivos (CEA) Luiz Carlos Mello, a quebra da GM aconteceu por um problema de gestão. A empresa investiu tempo demais em carros caros e pouco econômicos, enquanto os europeus e japoneses já tinham visto que o mundo havia mudado:
- O que estamos vendo é resultado de uma certa arrogância que vinha de sua liderança incontestável desde o início do século passado. A empresa tinha muitas marcas, produtos que competiam entre si. Além disso, apostou em veículos caros e pouco econômicos. A Toyota já vendeu 1 milhão de carros híbridos nos EUA, que usam gasolina e energia elétrica.
A GM do Brasil faz parte da empresa boa, mesmo assim, enfrenta um problema: a tecnologia utilizada na fabricação dos carros brasileiros vinha da Opel, uma subsidiária da GM na Europa, e que foi vendida para a Magna. Na prática, é como se a GM do Brasil tivesse perdido sua fonte de tecnologia. Agora, as duas empresas terão que descobrir o futuro dessa parceria.
Inúmeros países do mundo são afetados pelo que acontece na GM. Luiz Carlos Mello acha que o Brasil está preparado para fornecer novos modelos, menores e mais econômicos. Para o professor José Goldemberg, da USP, Obama pode utilizar a GM para implementar um novo modelo de fabricação de carros, que tenham melhor desempenho e menor consumo. Uma das medidas que podem ser tomadas é aumentar a mistura de álcool na gasolina. Hoje, o mercado americano mistura cerca de 10%, enquanto o mercado brasileiro mistura 25%.
- Os produtores americanos não conseguirão atender à demanda. Isso pode significar uma abertura de mercado para o álcool brasileiro nos EUA - apontou.
Se houver brechas pelas quais possamos entrar, ótimo. Mas a concordata da GM vai derrubar um pouco mais o emprego, a renda, e a produção industrial americana. A Bolsa americana que subiu ontem, puxada por outros indicadores, perdeu dois símbolos no mesmo dia: a GM saiu do índice das 30 blue chips - na qual estava desde 1925 - e o Citibank deixou de constar do índice Dow Jones.
Por mais dura que seja a tragédia econômica, ela foi ao longo do dia sendo vista como a solução que evitou o pior, que seria a falência da GM. Já na tragédia do voo 447, a tênue esperança do começo do dia desapareceu do radar. Dia difícil.
A segunda-feira, primeiro dia de junho, começou com as notícias do desaparecimento de um avião e da maior concordata da história da indústria no mundo. Duas tragédias, uma delas anunciada. A crise econômica não produziu a quebra da General Motors, apenas a revelou. No voo, com passageiros do mundo inteiro, a dificuldade era contactar todas as famílias antes da lista final.
Uma segunda difícil, com tragédias humana e econômica. O presidente Barack Obama disse que será um "doloroso renascimento" para a GM. Mesmo sendo uma notícia com dia marcado, a concordata impressiona. A GM sempre foi um símbolo do capitalismo americano. De 1931 a 2007, foi a maior produtora de automóveis do mundo. Só no ano passado perdeu o posto para a Toyota.
No Brasil, comemorou-se o fato de que a produção industrial subiu 1,1% em abril, na comparação com março; mas o que espanta é a queda de 14,8% frente a abril do ano passado. O país produziu neste mês 15% menos do que em setembro de 2008.
Nos Estados Unidos, o que se falou oficialmente é que a concordata será uma grande oportunidade para a empresa se recuperar, e que todos - governo, agora dono, e setor privado - acham que será uma recuperação rápida. A verdade é diferente da esperança. Os processos de concordata são imprevisíveis, podem durar anos, a recuperação pode acontecer ou não. Afinal, o dinheiro do contribuinte não pode fazer tudo. As vendas da empresa precisam aumentar, e os consumidores têm várias opções de concorrentes, que, neste momento, estão fazendo de tudo para sobreviver à crise.
A GM, que fez parte da formação da elite operária americana, os blue-collars, vai demitir 20 mil trabalhadores. Mas isso não é tudo. Cada emprego no chão de fábrica representa vários outros empregos na cadeia movimentada pela indústria. Por isso, é que a especialista Tereza Fernandes, da MB Associados, calcula que pelo menos 60 mil pessoas podem perder o emprego nos Estados Unidos em função desse processo de concordata e que pelo menos 1.000 concessionárias fecharão as portas.
- Isso mexe com toda a cadeia produtiva, inclusive para trás. O setor de autopeças, por exemplo, perderá demanda de um grande comprador. Com a crise, o setor já está tendo dificuldades de antecipar recebíveis. Agora, ficará ainda mais difícil - afirmou.
Tereza nos disse aqui na coluna, há mais de um mês, que nem o super-homem teria poderes para impedir a concordata da GM. Obama jogou todo o poder que tem para mantê-la viva.
Depois dos US$20 bilhões que já foram postos na empresa, o governo fará novo aporte de US$30 bilhões. Da concordata, ela sairá "mais magra e mais forte", disse ele. Mais magra certamente; mais forte, só o futuro dirá.
Para o coordenador do Centro de Estudos Automotivos (CEA) Luiz Carlos Mello, a quebra da GM aconteceu por um problema de gestão. A empresa investiu tempo demais em carros caros e pouco econômicos, enquanto os europeus e japoneses já tinham visto que o mundo havia mudado:
- O que estamos vendo é resultado de uma certa arrogância que vinha de sua liderança incontestável desde o início do século passado. A empresa tinha muitas marcas, produtos que competiam entre si. Além disso, apostou em veículos caros e pouco econômicos. A Toyota já vendeu 1 milhão de carros híbridos nos EUA, que usam gasolina e energia elétrica.
A GM do Brasil faz parte da empresa boa, mesmo assim, enfrenta um problema: a tecnologia utilizada na fabricação dos carros brasileiros vinha da Opel, uma subsidiária da GM na Europa, e que foi vendida para a Magna. Na prática, é como se a GM do Brasil tivesse perdido sua fonte de tecnologia. Agora, as duas empresas terão que descobrir o futuro dessa parceria.
Inúmeros países do mundo são afetados pelo que acontece na GM. Luiz Carlos Mello acha que o Brasil está preparado para fornecer novos modelos, menores e mais econômicos. Para o professor José Goldemberg, da USP, Obama pode utilizar a GM para implementar um novo modelo de fabricação de carros, que tenham melhor desempenho e menor consumo. Uma das medidas que podem ser tomadas é aumentar a mistura de álcool na gasolina. Hoje, o mercado americano mistura cerca de 10%, enquanto o mercado brasileiro mistura 25%.
- Os produtores americanos não conseguirão atender à demanda. Isso pode significar uma abertura de mercado para o álcool brasileiro nos EUA - apontou.
Se houver brechas pelas quais possamos entrar, ótimo. Mas a concordata da GM vai derrubar um pouco mais o emprego, a renda, e a produção industrial americana. A Bolsa americana que subiu ontem, puxada por outros indicadores, perdeu dois símbolos no mesmo dia: a GM saiu do índice das 30 blue chips - na qual estava desde 1925 - e o Citibank deixou de constar do índice Dow Jones.
Por mais dura que seja a tragédia econômica, ela foi ao longo do dia sendo vista como a solução que evitou o pior, que seria a falência da GM. Já na tragédia do voo 447, a tênue esperança do começo do dia desapareceu do radar. Dia difícil.
"Eles estão de volta" Yoshiaki Nakano
VALOR ECONÔMICO
"Eles estão de volta" era a frase que expressava o terror que a volta dos espíritos causava no filme "Poltergeist". Esta expressão foi utilizada por Ricardo Caballero, ilustre professor de economia do MIT, para descrever as preocupações com o retorno do fluxo de capitais depois da crise da Ásia. Agora, em meio à pior crise dos últimos 50 anos, o fluxo de capitais está de volta, depois de ter se reduzido desde o segundo semestre de 2007, para desaparecer completamente do auge da crise, depois da quebra do Lehman Brothers. As suas consequências são previsíveis, com segurança: o real já apreciou e desencadeou um ciclo de apreciação que deverá terminar bruscamente, em algum momento, causando dramática reviravolta.
É surpreendente que o fluxo de capitais tenha voltado tão rapidamente, pois o pânico causado no mercado financeiro pela quebra do Lehman Brothers provocou uma contração generalizada de crédito e uma paralisia nos fluxos internacionais de capitais. E sabemos também que crises financeiras, que envolvem crise bancária, são mais graves e o retorno da confiança e do crédito podem demorar bastante. Esclareça-se de início que estes capitais não estão vindo para financiar investimentos produtivos, mas sim capitais financeiros especulativos de curto prazo. Os investimentos produtivos sofreram abrupta queda no último trimestre de 2008 em relação ao trimestre anterior, a uma taxa anualizada de 45%. Não existem ainda sinais de recuperação e o aumento generalizado de capacidade ociosa indica que a sua retomada deverá levar algum tempo.
Como sempre, há fatores, tanto de oferta como de demanda de capitais, atuando nesta nova onda de afluxo de capitais financeiros para o Brasil. Do lado da oferta, não há dúvida de que foi a rápida e forte reação do Fed, que injetou trilhões de dólares de liquidez no mercado financeiro não só para socorrer os bancos, seguradoras e instituições de crédito imobiliário, como o próprio setor não-bancário, a exemplo do setor automobilístico. A reação do Fed foi tal que a base monetária dos Estados Unidos chegou a expandir mais de 350% e a taxa de juros foi fixada entre 0,0% e 0,25%. Se aos diversos programas do Fed somarmos os gastos fiscais e demais socorros, a injeção total de recursos pelo governo americano atingiu, segundo estimativas do Deutsche Bank, a astronômica cifra de US$ 14,9 trilhões, portanto mais do que o PIB. Onde estão e para onde estão indo estes recursos? Uma parte evitou uma queda maior na demanda agregada. O crédito ainda está travado e as reservas bancárias ociosas atingiram quase U$ 800 bilhões e estão depositados no próprio Fed. Mas, com taxas de juros próximas a zero no mercado de moeda e de curto prazo, os bancos retomaram operações de mercado e uma parte está fluindo para países emergentes, gerando recuperação nas suas bolsas de valores. Assim, do lado da oferta, é a superabundância de moeda a taxas de juros próximos a zero que está empurrando recursos de curto prazo em busca de alternativas de retorno maior e risco menor do que nos EUA.
Do lado da demanda, particularmente, os fatores de atração no Brasil são inúmeros. Desta vez, diferentemente das crises financeiras internacionais anteriores, o contágio não está ocorrendo pela restrição da produção, consumo e investimento pelo corte de liquidez em dólar. O contágio chegou com os bancos travando as operações de crédito em real. Com a crise, o afluxo de recursos externos via mercado de capitais, e também através do sistema bancário, paralisou completamente, mas o Brasil possuía mais de US$ 200 bilhões de reserva em moeda estrangeira. Além disso, o Fed, como provedor de moeda em que se baseia o sistema internacional de pagamentos, estendeu uma linha de crédito US$ 30 bilhões para o Brasil.
Assim, com o gradual restabelecimento da liquidez em real se iniciou uma lenta recuperação da economia brasileira.
Neste quadro, o Banco Central do Brasil reagiu com cautela excessiva, olhando a inflação pelo retrovisor sem atentar que a contração de crédito bancário em real travaria o circuito econômico. Além disso, quando sinalizou que os juros seriam reduzidos em ritmo bastante lento, o diferencial entre os juros aumentou fortemente, já que os demais países reduziram suas taxas mais agressivamente. O aumento no diferencial da taxa de juros por si só foi um fator de forte atração, pois os bancos e outras instituições podem captar no mercado monetário de curto prazo a taxa de juros próxima a zero nos EUA.
Desta vez, o Brasil não representa um risco elevado, pois foi afetado de forma completamente diferente das crises financeiras anteriores. Os preços das commodities despencaram, mas logo encontraram um piso e até alguma recuperação com a demanda de estoques pela China, e ainda possui elevada reserva cambial.
Para o capital especulativo existe ainda outro fator que torna o real extremamente atraente. O nosso regime de "câmbio flutuante" é presa fácil de profecias que se autorrealizam, pois não há nenhuma sinalização firme de que o BC ou o governo não toleram a apreciação excessiva da moeda, estabelecendo um piso tacitamente. E cada ponto percentual de apreciação se soma ao diferencial da taxa de juros para compor o retorno do especulador. Apenas no mês de maio os especuladores ganharam 10,6%, pois apropriaram 9,7% de variação cambial mais 0,82% proveniente da Selic. Assim, o lento ritmo de queda na taxa de juros e a expectativa de apreciação tornaram o real uma aplicação com altíssimo retorno em meio a uma grande crise financeira. Quanto mais especuladores são atraídos, mais o real se aprecia e maior é seu retorno. Desta forma, a taxa de câmbio deverá se apreciar ainda mais de acordo com a convenção do mercado. No momento, aparentemente, a convenção é de que a taxa de câmbio vai cair para R$ 1,80. Ao chegarmos a esta taxa, novas quedas poderão ocorrer segundo uma nova convenção e, numa profecia que se autorrealiza, atrairá cada vez mais especuladores.
Poderiam o BC e o Tesouro nacional evitar esta apreciação? Com o regime de câmbio como o nosso, não. Mas com redução da taxa de juros, que é mais do que necessária para retomarmos o crescimento, para níveis próximos às taxas internacionais e sinalizando firmemente o mercado da sua determinação em evitar a apreciação, sem fixar taxa ou piso, é possível evitar a apreciação. Neste caso, o regime de taxa de câmbio deveria ser assimétrico, permitindo a depreciação, mas não a apreciação. O custo de carregar reservas também seria reduzido se a taxa de juros fosse próxima à internacional.
"Eles estão de volta" era a frase que expressava o terror que a volta dos espíritos causava no filme "Poltergeist". Esta expressão foi utilizada por Ricardo Caballero, ilustre professor de economia do MIT, para descrever as preocupações com o retorno do fluxo de capitais depois da crise da Ásia. Agora, em meio à pior crise dos últimos 50 anos, o fluxo de capitais está de volta, depois de ter se reduzido desde o segundo semestre de 2007, para desaparecer completamente do auge da crise, depois da quebra do Lehman Brothers. As suas consequências são previsíveis, com segurança: o real já apreciou e desencadeou um ciclo de apreciação que deverá terminar bruscamente, em algum momento, causando dramática reviravolta.
É surpreendente que o fluxo de capitais tenha voltado tão rapidamente, pois o pânico causado no mercado financeiro pela quebra do Lehman Brothers provocou uma contração generalizada de crédito e uma paralisia nos fluxos internacionais de capitais. E sabemos também que crises financeiras, que envolvem crise bancária, são mais graves e o retorno da confiança e do crédito podem demorar bastante. Esclareça-se de início que estes capitais não estão vindo para financiar investimentos produtivos, mas sim capitais financeiros especulativos de curto prazo. Os investimentos produtivos sofreram abrupta queda no último trimestre de 2008 em relação ao trimestre anterior, a uma taxa anualizada de 45%. Não existem ainda sinais de recuperação e o aumento generalizado de capacidade ociosa indica que a sua retomada deverá levar algum tempo.
Como sempre, há fatores, tanto de oferta como de demanda de capitais, atuando nesta nova onda de afluxo de capitais financeiros para o Brasil. Do lado da oferta, não há dúvida de que foi a rápida e forte reação do Fed, que injetou trilhões de dólares de liquidez no mercado financeiro não só para socorrer os bancos, seguradoras e instituições de crédito imobiliário, como o próprio setor não-bancário, a exemplo do setor automobilístico. A reação do Fed foi tal que a base monetária dos Estados Unidos chegou a expandir mais de 350% e a taxa de juros foi fixada entre 0,0% e 0,25%. Se aos diversos programas do Fed somarmos os gastos fiscais e demais socorros, a injeção total de recursos pelo governo americano atingiu, segundo estimativas do Deutsche Bank, a astronômica cifra de US$ 14,9 trilhões, portanto mais do que o PIB. Onde estão e para onde estão indo estes recursos? Uma parte evitou uma queda maior na demanda agregada. O crédito ainda está travado e as reservas bancárias ociosas atingiram quase U$ 800 bilhões e estão depositados no próprio Fed. Mas, com taxas de juros próximas a zero no mercado de moeda e de curto prazo, os bancos retomaram operações de mercado e uma parte está fluindo para países emergentes, gerando recuperação nas suas bolsas de valores. Assim, do lado da oferta, é a superabundância de moeda a taxas de juros próximos a zero que está empurrando recursos de curto prazo em busca de alternativas de retorno maior e risco menor do que nos EUA.
Do lado da demanda, particularmente, os fatores de atração no Brasil são inúmeros. Desta vez, diferentemente das crises financeiras internacionais anteriores, o contágio não está ocorrendo pela restrição da produção, consumo e investimento pelo corte de liquidez em dólar. O contágio chegou com os bancos travando as operações de crédito em real. Com a crise, o afluxo de recursos externos via mercado de capitais, e também através do sistema bancário, paralisou completamente, mas o Brasil possuía mais de US$ 200 bilhões de reserva em moeda estrangeira. Além disso, o Fed, como provedor de moeda em que se baseia o sistema internacional de pagamentos, estendeu uma linha de crédito US$ 30 bilhões para o Brasil.
Assim, com o gradual restabelecimento da liquidez em real se iniciou uma lenta recuperação da economia brasileira.
Neste quadro, o Banco Central do Brasil reagiu com cautela excessiva, olhando a inflação pelo retrovisor sem atentar que a contração de crédito bancário em real travaria o circuito econômico. Além disso, quando sinalizou que os juros seriam reduzidos em ritmo bastante lento, o diferencial entre os juros aumentou fortemente, já que os demais países reduziram suas taxas mais agressivamente. O aumento no diferencial da taxa de juros por si só foi um fator de forte atração, pois os bancos e outras instituições podem captar no mercado monetário de curto prazo a taxa de juros próxima a zero nos EUA.
Desta vez, o Brasil não representa um risco elevado, pois foi afetado de forma completamente diferente das crises financeiras anteriores. Os preços das commodities despencaram, mas logo encontraram um piso e até alguma recuperação com a demanda de estoques pela China, e ainda possui elevada reserva cambial.
Para o capital especulativo existe ainda outro fator que torna o real extremamente atraente. O nosso regime de "câmbio flutuante" é presa fácil de profecias que se autorrealizam, pois não há nenhuma sinalização firme de que o BC ou o governo não toleram a apreciação excessiva da moeda, estabelecendo um piso tacitamente. E cada ponto percentual de apreciação se soma ao diferencial da taxa de juros para compor o retorno do especulador. Apenas no mês de maio os especuladores ganharam 10,6%, pois apropriaram 9,7% de variação cambial mais 0,82% proveniente da Selic. Assim, o lento ritmo de queda na taxa de juros e a expectativa de apreciação tornaram o real uma aplicação com altíssimo retorno em meio a uma grande crise financeira. Quanto mais especuladores são atraídos, mais o real se aprecia e maior é seu retorno. Desta forma, a taxa de câmbio deverá se apreciar ainda mais de acordo com a convenção do mercado. No momento, aparentemente, a convenção é de que a taxa de câmbio vai cair para R$ 1,80. Ao chegarmos a esta taxa, novas quedas poderão ocorrer segundo uma nova convenção e, numa profecia que se autorrealiza, atrairá cada vez mais especuladores.
Poderiam o BC e o Tesouro nacional evitar esta apreciação? Com o regime de câmbio como o nosso, não. Mas com redução da taxa de juros, que é mais do que necessária para retomarmos o crescimento, para níveis próximos às taxas internacionais e sinalizando firmemente o mercado da sua determinação em evitar a apreciação, sem fixar taxa ou piso, é possível evitar a apreciação. Neste caso, o regime de taxa de câmbio deveria ser assimétrico, permitindo a depreciação, mas não a apreciação. O custo de carregar reservas também seria reduzido se a taxa de juros fosse próxima à internacional.
Oposição, "ricos", pobres e Lula Vinicius Torres Freire
FOLHA DE S. PAULO
Prestígio da gestão Lula entre eleitores de maior renda cai desde o final de 2008, mas é recorde entre os mais pobres
UM NÚMERO curioso da pesquisa Datafolha publicada domingo é o aumento da discrepância de opinião entre as pessoas de maior e menor renda (aqueles com renda familiar inferior a dois salários mínimos e superior a dez mínimos). Não que exista alguma categoria do Datafolha em que o governo Lula apareça "mal na foto". O governo é ótimo/bom para 51% dos entrevistados de famílias com renda superior a dez mínimos, os menos satisfeitos com a gestão luliana. Nos anos FHC, as melhores avaliações do governo andavam por esse patamar. Entre os entrevistados de famílias com renda de até cinco mínimos, a aprovação está em 71%.
Mas a satisfação dos mais pobres cresce; a daqueles com renda maior cai desde novembro de 2008, quando o prestígio do governo era recorde. Se a distinção dos entrevistados é feita por anos de estudo, tal fenômeno não se repete, embora o prestígio do governo cresça mais entre os que estudaram até o ensino médio.
Houve mais desemprego na indústria e em empresas exportadoras, que costumam pagar mais. Porém, tais dados são muito imprecisos. De resto, nem sempre a insatisfação econômica é associada direta e absolutamente à economia.
A discrepância de opinião associada à renda já foi muito maior nos anos Lula. Mais "ricos" e mais pobres tiveram opinião bem parecida sobre o governo em 2003 (ano econômico muito ruim), 2004 (ano de recuperação) e na segunda metade de 2008, ano de muito bom crescimento econômico e auge dos benefícios sociais lulianos.
A divergência entre mais "ricos" e mais pobres deu um salto no mensalão e foi ao auge em 2006, ano de eleição. Desde 1989, pelo menos, a eleição de 2006 (Lula versus Geraldo Alckmin, do PSDB) foi a mais polarizada em termos "sociais" ou, ao menos, o voto estava muito associado à renda do eleitor e aos índices de qualidade de vida da região do voto.Considere-se um "índice de aprovação" do governo (porcentagem de ótimo/bom menos porcentagem de ruim/péssimo). A diferença de aprovação entre mais "ricos" e mais pobres andou em torno de 40 pontos em 2006.
Prestígio da gestão Lula entre eleitores de maior renda cai desde o final de 2008, mas é recorde entre os mais pobres
UM NÚMERO curioso da pesquisa Datafolha publicada domingo é o aumento da discrepância de opinião entre as pessoas de maior e menor renda (aqueles com renda familiar inferior a dois salários mínimos e superior a dez mínimos). Não que exista alguma categoria do Datafolha em que o governo Lula apareça "mal na foto". O governo é ótimo/bom para 51% dos entrevistados de famílias com renda superior a dez mínimos, os menos satisfeitos com a gestão luliana. Nos anos FHC, as melhores avaliações do governo andavam por esse patamar. Entre os entrevistados de famílias com renda de até cinco mínimos, a aprovação está em 71%.
Mas a satisfação dos mais pobres cresce; a daqueles com renda maior cai desde novembro de 2008, quando o prestígio do governo era recorde. Se a distinção dos entrevistados é feita por anos de estudo, tal fenômeno não se repete, embora o prestígio do governo cresça mais entre os que estudaram até o ensino médio.
Houve mais desemprego na indústria e em empresas exportadoras, que costumam pagar mais. Porém, tais dados são muito imprecisos. De resto, nem sempre a insatisfação econômica é associada direta e absolutamente à economia.
A discrepância de opinião associada à renda já foi muito maior nos anos Lula. Mais "ricos" e mais pobres tiveram opinião bem parecida sobre o governo em 2003 (ano econômico muito ruim), 2004 (ano de recuperação) e na segunda metade de 2008, ano de muito bom crescimento econômico e auge dos benefícios sociais lulianos.
A divergência entre mais "ricos" e mais pobres deu um salto no mensalão e foi ao auge em 2006, ano de eleição. Desde 1989, pelo menos, a eleição de 2006 (Lula versus Geraldo Alckmin, do PSDB) foi a mais polarizada em termos "sociais" ou, ao menos, o voto estava muito associado à renda do eleitor e aos índices de qualidade de vida da região do voto.Considere-se um "índice de aprovação" do governo (porcentagem de ótimo/bom menos porcentagem de ruim/péssimo). A diferença de aprovação entre mais "ricos" e mais pobres andou em torno de 40 pontos em 2006.
Os dados mais gerais sobre prestígio do governo e economia não sugerem, pois, associações simples; tampouco explicam a insatisfação relativamente mais alta entre os "mais ricos". Enfim, mesmo que, até agora, o impacto social da crise tenha sido pequeno, o prestígio do governo mal foi arranhado durante um mergulho para a recessão; logo voltou ao recorde. Embora também de modo nada peremptório, os números indicam que a política, sim, pode morder pontos do prestígio luliano. Mas política significa conflito, oposição. Oposição, porém, não há
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