domingo, julho 26, 2015

Quem não deve não teme ESTADÃO

Opinião


26/07/2015 | 03h00

O Planalto mandou espalhar que está preocupado com o impacto econômico da instalação de uma CPI para investigar o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Pela lógica do governo, se o BNDES for submetido a esse constrangimento, terá de paralisar suas atividades e não será capaz de socorrer as empresas que sofreram grandes perdas em razão das investigações da Lava Jato, o que resultará em "demissões em massa". Mais uma vez, a presidente Dilma Rousseff apela para ameaças apocalípticas para justificar os critérios opacos do BNDES e das empreiteiras enroladas no petrolão.

Ao longo dos governos petistas, o BNDES concedeu vultosos benefícios a empresas selecionadas a dedo por Dilma e por seu padrinho, Lula, para liderar uma prometida revolução desenvolvimentista. As empreiteiras, generosas doadoras de recursos para campanhas eleitorais e também assíduas contratantes dos serviços do ex-presidente petista, encabeçam a lista de campeões em negócios bilionários, dentro e fora do País, em parceria com o BNDES.

Há muito que os contribuintes esperam conhecer melhor os critérios que nortearam o banco ao fazer essas operações, em especial com empresas gigantescas que teriam totais condições de obter empréstimos no mercado, sem depender de juros subsidiados e condições bastante confortáveis. Também querem saber o que levou o banco a financiar empreendimentos em países com escassa confiabilidade no mercado, como Cuba e Venezuela, que em condições normais deveriam pagar juros muito mais altos do que os oferecidos pelo BNDES. Tais demandas não deveriam tirar o sono de quem nada teme.

No entanto, o clima no Planalto é de apreensão. Em "conversas reservadas" convenientemente vazadas, Dilma e os ministros de sua coordenação política disseram temer que os efeitos de uma CPI do BNDES sobre a economia sejam piores do que os causados pela Operação Lava Jato. A chantagem é evidente: se o Congresso, a Justiça, o Ministério Público e a polícia continuarem a cumprir seu dever de investigar os escândalos que não param de crescer, e ainda por cima insistirem em querer saber como o BNDES toma suas decisões, o resultado será o desastre do País.

Os participantes dessas conversas palacianas relataram que o governo pretendia até mesmo criar uma linha de crédito especial do BNDES para socorrer as empresas envolvidas na Lava Jato e, assim, evitar demissões. Uma eventual CPI, mandou dizer o governo, abortará esse plano, com consequências nefastas para toda a sociedade.

Terrorismo econômico parece ser uma comprovada habilidade de Dilma. Depois de se reeleger afirmando que seus adversários pretendiam fazer um ajuste que tiraria a comida da mesa dos brasileiros, a presidente vincula seguidamente as investigações e procedimentos da Lava Jato à paralisia econômica que ora castiga o País. Trata-se de um evidente despropósito, cujos objetivos são mascarar a exclusiva responsabilidade de Dilma pelo desastre fiscal, graças à sua inaptidão administrativa, e justificar a manutenção das relações privilegiadas das empreiteiras com o Estado na era petista.

Competência inigualável e habilidade inexcedível, Dilma e seus auxiliares têm para inventar argumentos para escamotear a promiscuidade entre a administração pública, o partido da presidente, os sócios da "base aliada" e os empreiteiros, revelada em toda a sua inteireza pela Operação Lava Jato. Depois de dizer que punir as empresas envolvidas no petrolão significava "fechar as portas para o crescimento, o progresso e o emprego", Dilma agora quer fazer acreditar que obrigar o BNDES a explicar seus critérios ao Congresso é o mesmo que atentar contra a economia.

Enquanto isso, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, diz que "não há possibilidade de ingerência política no banco" e que uma CPI nada encontrará de anormal, pois se trata da instituição "mais transparente entre todos os bancos de desenvolvimento do mundo". Se é assim, ninguém no Planalto tem com o que se preocupar.

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