quarta-feira, novembro 18, 2015

Cora Rónai As redes sociais e os atentados

O GLOBO

No Brasil, assim que as primeiras bandeirinhas francesas começaram a colorir os avatares, a patrulha do Facebook deu as caras 

É nas grandes emergências que a internet em geral, e as mídias sociais em particular, mais se mostram — e o que se vê é como a Humanidade que as alimenta, ao mesmo tempo bom e mau, solidário e egocêntrico, confuso e esclarecedor. Os atentados ainda estavam acontecendo em Paris, e as redes sociais já estavam fervendo. O número de vítimas crescia, a desinformação ainda era geral, mas a intolerância já mostrava a sua cara em tuítes escabrosos. Os pobres refugiados sírios, que deixaram as suas vidas para trás justamente por causa do Estado Islâmico, se tornaram alvo de um festival de xenofobia; ao mesmo tempo, as grandes potências ocidentais viraram saco de pancadas de quem atribui todos os males do mundo à Europa e aos Estados Unidos, que certamente têm grande parcela de culpa pela situação desesperadora do Oriente Médio, mas não estão sozinhos no comando do inferno.

Do lado bom, viu-se uma imensa corrente de solidariedade, compaixão e troca de informações relevantes. O Facebook ativou um recurso até aqui usado apenas em desastres naturais, o Safety Check, para que todos pudessem ver se os seus amigos e conhecidos estavam a salvo; e incontáveis parisienses abriram as suas casas para estranhos ilhados pela falta de transporte com a hashtag #porteouverte, porta aberta.

Essa bela iniciativa, lamentavelmente, naufragou em pouco tempo, diante da incompreensão maciça do que vem a ser uma hashtag, que é uma etiqueta feita para que se encontrem dados ou informações sobre determinado assunto. Milhares de usuários do Twitter , encantados com a ideia, passaram a louvá-la — usando a própria hashtag e, consequentemente, a inutilizando. O resultado é que quem precisava mesmo de uma #porteouverte, passou a se perder numa barragem de tuites inúteis: coisas do tipo "Que emocionante, os franceses estão usando #porteouverte para oferecer as suas casas!", imediatamente seguidas por respostas como "Burros, parem de usar #porteouverte à toa!".

No Brasil, assim que as primeiras bandeirinhas francesas começaram a colorir os avatares, a patrulha moralista do Facebook deu as caras, em toda a sua glória e estupidez, cobrando dos outros a bandeira mineira pela tragédia de Mariana — como se fosse preciso desligar uma dor para ligar a outra. É claro que a maioria das pessoas que se achou no direito de fiscalizar o luto alheio nunca havia feito um único post sobre o crime ambiental em Minas, muito menos trocado o seu avatar para qualquer espécie de manifestação de pesar.

Também houve muita cobrança nas mídias sociais, e não só no Brasil, pela diferença de reação entre os atentados na França e os que atingiram, antes, o Líbano, a Nigéria, o Quênia ou o próprio avião russo. Essa diferença de reação existe mesmo, e talvez se explique ou porque nos sentimos todos muito mais próximos da França do que de Beirute ou de Garissa, ou porque atentados em regiões percebidas como politicamente instáveis não chamem tanto a atenção, ou pelas duas coisas, e ainda tantas outras mais, juntas.

A verdade, porém, é que — novamente — os patrulheiros de plantão gastaram muito mais tempo e esforço cobrando a dor alheia por Paris do que denunciando os demais atentados assim que aconteceram. Se todos tivessem gritado em alto e bom som no momento em que os outros crimes foram perpetrados, ninguém poderia dizer, hoje, que eles passaram em branco.

Arquivo do blog