Entrevista:O Estado inteligente

sábado, março 18, 2006

ZUENIR VENTURA Como nunca se viu

O GLOBO

O artigo que se segue foi escrito há quase três anos, mas não pôde ser publicado. O documentário a que ele se referia teve sua exibição suspensa às vésperas de ir ao ar.

Se você vai assistir ao Fantástico amanhã, prepare o seu coração — coração, mente, alma e estômago. Quando passar o documentário “Falcão (meninos do tráfico”), dirigido por MV Bill e Celso Athayde, você verá imagens e ouvirá falas que não lhe darão sossego. “Elas formam um dos documentos mais impressionantes que já vi no cinema em toda a minha vida”, disse o cineasta Cacá Diegues.

O filme acompanha a atividade de 16 jovens entre 13 e 18 anos que trabalham para o tráfico em favelas do Brasil. No final das filmagens, que duraram dois anos, apenas um dos 16 personagens permanecia vivo. Falcão é a figura que, armada de um poderoso fuzil e um radiotransmissor, vigia e toma conta da favela, revezando-se dia e noite. Ele dá o primeiro combate no caso de uma invasão policial ou de facções inimigas. “Falcão não dorme”, lembra um deles.

Esquece tudo o que você já viu sobre o mundo do crime. O documentário não é sobre, mas de dentro, do meio das entranhas de um país que está perdendo o seu futuro para as drogas. Ele desconcerta nossas idéias e intenções, porque ali tudo é diferente: leis, referências, noção de certo e errado, limites entre o bem e o mal. A começar pelo ato de matar, que tem a naturalidade de um divertimento. Aliás, uma das cenas mais impressionantes, entre tantas, é a brincadeira de criança que simula a execução de um X-9.

Com armas de brinquedo, eles mimetizam os bandidos de verdade. “Vamu botar fogo, cadê o pneu?” Cigarros de folha de eucalipto simulam ser de maconha e, numa banca de venda de mentirinha, um menino grita: “Vem cheirar, essa é da boa.” Quando estão para desovar a vítima, ouvem-se tiros. Perto havia uma execução para valer. Outra seqüência tocante é o desalento de uma jovem mãe contando que o filho já sabe o que é tráfico, identifica cheiro de maconha, anuncia “pó de cinco!” e finge dar tiro com o dedo. Ele tem menos de três anos.

Nesse mundo em que tudo parece perdido, sobram alguns restos de esperança: os bandidos pelo menos não sonham com a mesma vida para os filhos; estão infelizes com uma profissão cheia de riscos e que, ao contrário do que se pensa, paga pouco. Para trabalhar do meio-dia às 6 da manhã, ganham R$ 350. “É uma vida muito sinistra, muito louca”, reclama um deles. Também é interessante observar a devoção que dedicam às mães, em oposição ao ressentimento que têm dos pais sempre ausentes. Mãe pode tudo, até bater na cara do filho na frente dos colegas. “Eu trafico pela minha mãe”, confessa um. “Eu fortaleço minha coroa”, diz outro.

No final, MV Bill adverte que estamos cuidando mais de um Brasil do que do outro. “Só que este está crescendo e se transformando num monstro.” Um monstro do qual, ele acha, “já perdemos o controle”.

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