Entrevista:O Estado inteligente

domingo, março 05, 2006

Oba! Dirceu falou mal de mim. Sinal de que estou certo Por Reinaldo Azevedo

PRIMEIRA LEITURA


Oba, Zé Dirceu falou de mim! Mal, é claro. E sem citar o nome. É oblíquo, como sempre. É uma crítica clandestina, como tudo o que ele faz. Aliás, ele só foi cassado por causa de suas atividades clandestinas na Casa Civil, e não por aquilo que sabíamos. É um hábito deste velho lobo socialista... O fato lustra o meu currículo. Já fui processado (e ganhei) por Fernando Collor, Paulo Maluf e reputações maiores com pretensões menores. Dirceu fica bem no grupo dos que não gostam do que penso ou escrevo.

Quando um deputado cassado por seus pares por quebra de decoro (e olhem que a Câmara não passaria fácil pelo Velho Testamento...) sai desqualificando alguém, a biografia do vivente logo se torna mais decorosa. Dirceu me faz melhor atacando-me. Se me elogiasse é que estaria somando massa negativa à minha reputação.

Este senhor não é o ex-chefe funcional (ex?) de Waldomiro Diniz, aquele que foi pego batendo a carteira de um bicheiro? Não é o ex-chefe (ex?) político de Delúbio Soares, aquele dos mais de R$ 50 milhões (os assumidos...) "não contabilizados"? Não é também o pai de Zeca Dirceu, o ministro sem pasta, sem verbo, mas com verba? Se ele me ataca, então encontrei o caminho da virtude. É claro que fico um pouco preocupado. Espero não ter de deixar o país. À diferença de Roberto Jefferson, Dirceu não “desperta em mim os sentimentos mais primitivos”. Eu já os civilizei. Espero é não despertar os dele, os visivelmente incivilizados.

É uma pena que ele esteja gorducho. Na minha fantasia, deveria ser magro e pálido, como Cássio, aquele que conspira contra Júlio César na peça de Shakespeare. Mas depois penso no seu sotaque exagerado, forçado mesmo. A tragédia vira pastelão.

O ataque foi desferido na coluna que ele passou a assinar no Jornal do Brasil, que vive a sua fase Nelson Tanure, conhecida figura do mundo da mídia e das idéias — um especialista mesmo! Assim como Dirceu é especialista em política, como provam as muitas faces de sua longa carreira. Uma sempre mais moral do que a outra. Os fortes se encontram na Terra do Marlboro ideológico. O ex-ministro tem alguns companheiros articulistas: Emir Sader e Leonardo Boff. Lamento a inexistência de um Tribunal Penal Internacional para assuntos de estilo. A troika teria de ser denunciada. Punição: ler. Qualquer coisa.

Dirceu comenta reportagem publicada na Folha (clique aqui), no dia 15 de fevereiro, sobre a suposta emergência de uma nova direita no Brasil. Eu estava listado entre os expoentes desse grupo, ao lado de Nelson Ascher e Diogo Mainardi. Generosos, os autores do texto nos diziam “versões atualizadas de intelectuais como o decano Olavo de Carvalho ou de polemistas como José Guilherme Merquior e Paulo Francis”. Talvez isso possa valer para os meus amigos de folguedos direitistas. Tenho ambições menores. Se um dia eu assistir à derrocada do PT e vir alguns ladrões de casaca, que já usaram macacão, na cadeia, já está de bom tamanho.

O ex-chefe da Casa Civil, ex-manda-chuva, ex-todo-poderoso, ex-manda-soltar-e-prender e ex-cacique Cobra Coral da tempestade socialista resolveu dar especial destaque à minha fala e, parece, à de Olavo de Carvalho. Para ser franco, preferiria que ele tivesse me citado quando estava em alta, não agora, quando está em franca decadência, e ninguém mais dá bola para o que ele diz, exceção feita a Fernando Morais — ou seja, ninguém. De certo modo, para a minha reputação de polemista, trata-se de um rebaixamento, de um downgrade. Mas fazer o quê? Vai que o Apedeuta seja reeleito, nunca se sabe... Dirceu pode ser reabilitado, no melhor estilo do sovietismo de vaudeville, e o ataque que me faz ganha importância.

Com a sutileza que deve ter aprendido quando fazia treinamento militar em Cuba ou quando dava instruções a Waldomiro Diniz sobre a aplicação prática de Maquiavel, ele escreve que, “nesses tempos bicudos, eternos corruptos, conhecidos da sociedade e da mídia, são arautos da ética e da moralidade pública”. Entenderam? Com "bicudos", ele pretende fazer uma alusão aos tucanos. Não sei a quem ele se refere em particular, e ele também não tem a coragem de dizer. Mas o trecho sintetiza à perfeição a ética petista: porque já teria havido antes indecência no Brasil, estaríamos todos impedidos de apontar as do PT. O corolário é o seguinte: seu partido não foi eleito para extinguir a corrupção que denunciava, mas para se tornar um seu monopolista. Bingo! — se é que me entendem.

Não resisto à tentação de comentar o artigo trecho a trecho. Meu leitor merece esse divertimento. Como já ficou claro na edição anterior, Primeira Leitura continua na mira do stalinismo bocó. Leiam o texto de uma certa Rosana, que se identifica como jornalista. Posso entender bem por quê. Essa gente sabe o que incomoda. Vamos lá. As palavras do preclaro seguem em itálico, interrompidas por comentários meus.

*

É sintomático que a mídia, recentemente, tenha levantado o debate sobre a chance de retorno da direita no Brasil. Lógico, uma nova direita, democrática, e, pasmem, defensora não apenas dos direitos humanos e da democracia, mas reformadora - mesmo que seja para efeitos eleitorais -, que quer mudanças na tão sagrada taxa de juros, já que, segundo essa nova direita, não é democrático mantê-la acima dos 10%.

Dirceu pratica o esporte predileto de certa esquerda: mentir. É mentira que a reportagem da Folha aborde “a chance de retorno da direita no Brasil”. Aponta a existência de uma suposta “nova direita” no país, o que, infelizmente, não reconheço como fato. Quanto à taxa de juros, trata-se de uma referência explícita a uma declaração minha ao jornal: “Se quiserem que eu defenda juros reais de 13% ao ano, podem tirar o cavalo da chuva. Essa direita é o Lula”. Sábias palavras, não? Um mês depois, ficamos todos sabendo que os bancos lucraram, nos três anos de Lula, mais do que nos oito de FHC. Mas Lula é um honrado presidente dos pobres.

Interessante esse Dirceu! Além do monopólio da lambança, ele reivindica mais dois: o de manter os juros em 13% e o de criticar a taxa. Se o ataque parte de um “direitista” como eu, é claro que ele se ilegítima. Eis a alma profunda do totalitário revelada em palavras aparentemente amenas: a “direita” é a real culpada pelos juros praticados pela esquerda e, portanto, está moralmente impedida de se pronunciar; deve arcar com o ônus, enquanto o bônus fica com os companheiros. Uma montanha de bônus! "Bônus não contabilizados", como diria Delúbio.

Seria cômico, se não fosse trágico, essa nova pantomima que tentam nos impingir em tempos bicudos, onde eternos corruptos, conhecidos da sociedade e da mídia, são arautos da ética e da moralidade pública.

Quero saber qual “eterno corrupto” do Brasil, hoje em dia, não é ou aliado de Lula ou integrante de um partido que está na base de apoio ao governo. Eu o desafio a citar nomes.

O discurso é o de sempre. A esquerda não tem compromisso com a democracia, quer o poder para acabar com ela, e, além do mais, agora é corrupta, ou seja, subversão e corrupção - lembrem-se do golpe de 64 - são o DNA da esquerda no Brasil. Ela é intolerante e patrulha toda a manifestação da direita, ou os que a ela se opõem.

Dirceu tenta falsear um conjunto de verdades cristalinas: a esquerda, de fato, não tem compromisso com a democracia. A Venezuela é a prova escancarada, e o Brasil, a prova mitigada. Por aqui, ela tentou fazer um tal “conselho”, indicado por dedaço presidencial, substituir o Congresso; comprou um pedaço do Parlamento com o mensalão; propôs um órgão de censura para cercear o jornalismo; reduziu a suposta distribuição de renda a um megaprograma eleitoreiro; repassa recursos a “movimentos sociais” que nem mesmo têm existência legal; criou um duto de transferência do salário dos servidores para o partido e transgride de forma escancarada a Lei Eleitoral. E, sim, é verdade: é também corrupta, pois não? Maiores informações devem ser buscadas com Marcos Valério.

O ex-homem forte de Lula tem certa razão: parte da prática reproduz o que setores da esquerda faziam no pré-1964. A diferença é que aqueles que, hoje, se opõem à lambança não estão interessados em golpes de Estado. Embora, também é verdade, boa parte dos esquerdistas dispute o espaço democrático para solapar a democracia que lhes faculta chegar ao poder. Ele pretende, falseando a história (o que há de estranho nisso?), fazer de conta que, nos dias pré-golpe militar, havia os gorilas fardados de um lado e os anjos democratas de outro. Mentira! Não fosse aquele golpe, teria sido o da esquerda ou, o mais provável, um autogolpe, liderado pelo próprio Jango.

O Catão de agora era um dos agitadores em favor de uma ditadura comunista. Seu texto e sua prática provam que os tempos mudaram. Também mudaram seus adversários, que hoje só aceitam o paradigma democrático. Mas ele não mudou. Exerce o autoritarismo possível numa democracia, com a qual não se conforma. Por isso, clandestinamente, tentou ir um pouco além. Dirceu, sabemos, é aquele que, diante das acusações, chegou a declarar que estava cada vez mais convencido da própria inocência... Deve ter feito uma assembléia, a que compareceram seus vários "eus", com suas muitas faces. Seu tribunal pessoal, o único que reconhece como legítimo, decidiu que "eles" todos são inocentes.

Essa esquerda, insistem os arautos da nova direita, é mantida no meio cultural por recursos públicos da Petrobras (esse monopólio que não deixa o Brasil se desenvolver), domina a mídia, a universidade, o cinema e a cultura. E, na verdade, precisa ser eliminada, como afirmou um dos porta-vozes da nova direita. Não se trata de um deslize de linguagem. Quem o conhece sabe que manifestou uma solução de preferência, já que, para este porta-voz, a esquerda propaga uma doutrina totalitária, comunista e fascista.

Nem eu nem Olavo de Carvalho falamos em “eliminar” a esquerda, nem como ato falho ou deslize. Falamos em combatê-la. Sim, senhor: extinguir o PT se for possível, mas pelas urnas, não pelas armas. Não estamos treinados, não temos tal face, para tentar tomar o poder de assalto. Menos ainda nos imiscuímos nas instituições para lhes mudar os códigos.

A Petrobras, é verdade também, e fui eu a dizê-lo, financia boa parte da “produção cultural” brasileira, a maioria com “mensagens” de esquerda. E seus recursos, aparentemente infinitos, saem do monopólio, sustentado pelo povaréu, que consome um dos combustíveis mais caros do mundo. Daqui a alguns dias, Lula vai se lambuzar de óleo, comemorando a auto-suficiência, como se fosse conquista do seu governo. Dirceu já está tirando uma casquinha antecipada. É uma indecência que uma empresa essencialmente estatal, sem concorrentes, invista em propaganda o que investe a Petrobras. Mas Dirceu sabe muito bem que ela se tornou a PDVSA de Lula.

Ora, ora, senhores e senhoras, a direita domina e governa este país já faz muito tempo; no passado, na base do pau de arara e do garrote e, no presente, da defesa das forças de mercado, do capital financeiro e do escárnio das políticas sociais e distributivistas, empurradas para a vala comum do que chamam de populismo.

Dirceu não gosta do pau-de-arara e do garrote da direita, mas, pelo visto, aprova os pelotões de fuzilamento de Cuba, onde passa férias. É asqueroso que uma autoridade, como ele era, vá se divertir num país que mata pessoas por delito de opinião. Compreendo: Fidel, afinal, simbolicamente, lhe cedeu duas das suas faces. Não chegam a 500 as vítimas fatais da ditadura de 1964 — e, com efeito, de forma ilegal, não deveria ter havido uma única morte. O socialismo de Dirceu matou 70 milhões na China, 35 milhões na ex-URSS, 3 milhões no Camboja, outros tantos milhões nas Américas Central e do Sul, África e Ásia. Chega-se facilmente perto dos 200 milhões. Tudo para o nosso bem, como sabemos.

Para um bom stalinista, um cadáver preocupa. Alguns milhões viram estatística. A sua querida Cuba criou o primeiro campo de trabalhos forçados no continente americano. O regime de seu amigo Fidel Castro, proporcionalmente à população da ilha, matou e exilou mais do que todas as ditaduras militares latino-americanas juntas. Mas Dirceu, vê-se, execra a "direita". Há uma outra grande diferença entre nós: eu não tenho ditadores de estimação. Cuspo em todos eles: em Pinochet ou no Comandante. Ele tem os seus tiranos se algibeira.

Quanto ao garrote das forças de mercado, Dirceu deveria cobrar a fatura de seu aliado Antonio Palocci, não da tal “nova direita”. Que vá perguntar a Henrique Meirelles por que o Brasil paga juros reais mais altos hoje do que em 2002, quando o país chegou à beira do abismo por causa do risco PT. De lá para cá, as exportações quase dobraram, passamos a ter superávit em conta corrente, reduzimos sensivelmente a dívida externa, e o risco Brasil despencou. Nada que explique, numa ordem racional, o cassino que aí está. Seria Palocci um agente da nova direita infiltrado num governo de esquerda?

O homem fala ainda em política distributivista. Deve estar se referindo ao Bolsa Família. Nem o mais cínico dos "neoliberais" teria a coragem de chamar essa bandalheira de distributivismo. Quando muito, trata-se de uma política compensatória. Adaptada à moralidade de muitas faces do PT, fez-se, de fato, um programa populista.

Pregar o contrário seria subestimar a inteligência nacional.

Ou seja: a única forma de não subestimar a inteligência nacional é concordando com Dirceu. Com qualquer um deles.

Democracia mesmo, no país - e, mesmo assim, sem direito de greve, sem liberdade para os comunistas e outras ''cositas mas'' -, só entre 46 e 64 e de 85 até hoje. Nas duas ocasiões, uma conquista do povo e da esquerda, e que custou muito sangue, suor e lágrimas. Ao povo, na redemocratização do país, se somaram os arrependidos, os apoiadores do golpe de 64 que tiveram seus interesses contrariados.

Falsificação histórica. Boa parte dos "progressistas" queria o fim do Estado Novo, mas com Getúlio Vargas, o torturador tornado mártir do esquerdismo nacionalista. Quem o empurrou para fora do poder foram os liberais. Nem acho que Dirceu seja assim tão ignorante. É apenas um mistificador.

O fim do regime militar flagra o PT em momentos de vexame explícito. Expulsou três deputados que decidiram participar do Colégio Eleitoral. No fim da década anterior, seguissem as lideranças de então as orientações das esquerdas que formariam mais tarde o PT, nem mesmo a Lei da Anistia teria sido aprovada. Eis aí: é mentira! O fim das duas aludidas ditaduras foi obra do pensamento e da militância centrista e liberal, e não, como afirma o "neopensador", da "esquerda e do povo". Até porque se trata de antinomias: quando foi que se viram os dois juntos no Brasil ou em qualquer lugar do mundo? Povo e esquerda só se juntam em campos de reeducação: o primeiro levando o chicote no lombo, e a segunda lascando o chicote.

Já naqueles dias, o PT estava ocupado com uma única coisa: um projeto de poder. E, para tanto, então, era preciso negar todas as coligações. Nem que isso implicasse a aliança objetiva, prática, com setores da ditadura. Fala-se aqui do partido que se negou a homologar a Constituição de 1988.

Até 1930, vivíamos no império dos coronéis, das eleições no bico de pena e nos eternos estados de sítio, já que nossa juventude militar e civil vivia em armas contra as oligarquias da República Velha. Ou os senhores e senhoras já se esqueceram que seus avôs e avós eram guerrilheiros, revoltosos, como se falava. Hoje, seriam terroristas, na boca desses novos arautos da direita de sempre.

Trata-se de uma tolice pedestre. Parece estar tentando nos convencer de que eventuais movimentos armados, ainda hoje, deveriam ser tolerados como um dado da paisagem, uma vez que isso já aconteceu antes. Numa hipótese menos virtuosa, compara revoltas liberais, antitirania, à luta dos tiranos comunistas para impor o seu modelo.

Mas o que esse movimento tenta, na verdade, é levar o macartismo, que domina nossa cena política, para a cultura e a universidade. Na prática, a nova direita está se comportando como sempre acusou a esquerda que ela sataniza de se comportar - quer eliminá-la de toda a sociedade, e não apenas da política; quer silenciá-la, acuá-la ou cooptá-la. Esta é a verdade nua e crua.

Eis Dirceu: atribui a terceiros aquela que é a prática corriqueira de seu partido onde quer que esteja presente: na universidade, na cultura, na política. Todos sabemos quem é que dá as cartas em todos esses ambientes. Basta ver na mão de quem estão os aparelhos de representação de professores e alunos, a direção de entidades ligadas à produção cultural e qual é o corte editorial da maioria das publicações. O ex-ministro aqui exerce aquela que é uma das forças da esquerda: o discurso da vítima.

E o verdadeiro motivo dessa nova histeria da nossa tão pura e limpa direita democrática é o avanço da esquerda na América Latina, depois de 25 anos de governos conservadores, de ditaduras sangrentas e corruptas, defensoras, por coincidência, do mesmo discurso dessa nossa nova direita.

Todas as ditaduras latino-americanas, sem exceção, chegaram ao fim por ação dos liberais. Os esquerdistas, ao contrário, o que tentaram, durante toda a sua “luta”, foi substituir ditaduras militares por ditaduras "populares". Seguindo sua cartilha, sempre quiseram se aproveitar da crise para dar um golpe.

E, também, submetidas aos mesmos senhores: o mercado, o livre comércio (que a direita não pratica) e a democracia liberal (que liquida quando seus interesses não são atendidos). Daí o ódio a Lula, Chávez e Evo Morales; daí as tentativas de caricaturá-los, principalmente a Chávez e, de tempo em tempo, a Kirchner.

Cada um tem os aliados que escolhe, não é? Morales já deu um beiço nos interesses brasileiros na Bolívia, e Kirchner impôs cotas a produtos brasileiros. Dirceu está mesmo interessado é em defender Chávez, o mesmo que, segundo Lula, pratica “democracia até em excesso” na Venezuela. É verdade: o homem tem o que nem Saddam Hussein conseguiu: 100% do Parlamento. Um democrata sem igual. Um esquerdista abaixo de qualquer suspeita.

No Brasil, a nova (?) direita está aí, ávida pela volta ao governo, porque o poder ela já tem.

Ah, agora, sim. Eis o legítimo Dirceu. Para ele, o PT só chegou ao governo, mas ainda não ao poder. Que reste como advertência a todos aqueles que acreditam que o partido é tão democrático como qualquer outro. Suponho que um eventual segundo mandato de Lula servirá aos propósitos de levar essa gente toda ao "poder" — desta feita, "de verdade". Seja lá o que isso signifique. No texto, o ex-ministro demonstra inconformismo com a influência do setor financeiro. O que será que ele está planejando se o Apedeuta tiver mais quatro anos?

Para tanto, faz tudo e de tudo, finge que é honesta, democrática e controla-se para não se trair, como na iniciativa, abafada, de tentar derrubar o atual governo.

Honesto e democrático, como sabemos, é o PT, com seus Waldomiros, Delúbios, Sílvios, Valérios, Josés e cuecões recheados de dólares.

Agora, insistem vozes da nossa tão culta classe média conservadora, a direita precisa ter uma chance de governar o Brasil. Durma-se com um barulho desses, ou das balas perdidas de nossas grandes cidades, retrato da herança que os séculos de domínio da elite e da direita deixaram para que nós jamais nos esqueçamos de que precisamos de esquerda, volver.

As balas perdidas, ministro, são fruto de sua incompetência como condestável do governo por dois longos anos. Se vocês tivessem tirado do papel o Plano Nacional de Segurança, talvez as coisas fossem um pouco diferentes. Em vez disso, o seu governo não conseguiu nem mesmo manter Fernandinho Beira-Mar numa prisão segura.

Beira-Mar, está provado, negociava com as Farc, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, que fundem marxismo com narcotráfico. As Farc, se o senhor se lembra, são companheiras do PT no Fórum São Paulo, um organismo que reúne grupamentos de esquerda da América Latina, fundado, diga-se, por Luiz Inácio Lula da Silva. Assim, Dirceu, não perguntes por quem as balas pipocam. Elas pipocam por ti, "velho camarada"!

PS: Chega a ser risível que setores da oposição temam Lula e os petistas nas eleições próximas. Combatê-los é mamão com açúcar. Os caras não resistem a cinco minutos de exposição à luz. Basta não se impressionar com a gritaria. Então a fatura está liquidada, e as eleições, ganhas pelas oposições? Claro que não! O povo pode decidir absolver o bando, dando-lhe mais quatro anos. Será o caso em que esse tal povo vai ter o governo que merece, demonstrando que não é melhor do que aqueles que o governam. Não acho isso impossível. Mas a hipótese tem de ser testada. A luta eleitoral, estou convencido, tem de se dar contra a sem-vergonhice e o descaramento. Mais do que futuro, será necessário falar de passado. E de caráter. Leiam a Veja desta semana. Este governo não é um caso de política, mas de polícia. Fica para outro texto.

[reinaldo@primeiraleitura.com.br]
Publicado em 5 de março de 2006.

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