Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, março 07, 2006

Miriam Leitão Razão oculta

O GLOBO


Na Fipe, a inflação está negativa; no IPCA, está com tendência de queda. Na quinta-feira, o IBGE divulga a produção industrial de janeiro, que virá negativa ou, na melhor hipótese, estagnada em relação a dezembro. O dólar está mais baixo do que todos previram. Apesar disso, os juros vão cair para, no máximo, 16,25%, o que significa manter os juros reais acima de 10%. O Banco Central deveria dizer o que o detém. Seria didático explicar que os juros não caem porque o governo gasta demais.

O Banco Central deveria fazer um grande corte nos juros, mas a taxa deve cair o mesmo 0,75 ponto percentual. Alguns poucos esperam queda de um ponto. Nos relatórios dos bancos, todos concordam que a conjuntura traz boas notícias em relação à inflação, más notícias sobre crescimento e revisão para baixo das previsões de câmbio. Por tudo isso, o ritmo de queda deveria ser acelerado, mas a maioria conclui que o ritmo será mantido. É o que apostam, por exemplo, Bradesco, CSFB, MB Associados, Tendências, Itaú. O Unibanco aposta numa queda de um ponto percentual, que não é muito para o nível em que os juros estão, mas representa alguma aceleração.

O mundo das pessoas e o mundo do mercado financeiro nunca estiveram tão dissociados. No último dia útil antes do carnaval, o país ficou sabendo que não conseguiu crescer apesar de ter sido um ano em que tudo jogou a favor. Nos primeiros dois dias após o carnaval, o mercado financeiro comemorou, com alta de bolsa, queda do risco, queda do dólar, a notícia da melhora da classificação de risco-país. Tentar juntar uma notícia com a outra é impossível. São dois mundos e duas lógicas.

Há vários motivos para se esperar uma inflação menor nos próximos meses. A pressão dos combustíveis deve cair a partir do mês que vem com a entrada da moagem da cana. Vários alimentos estão saindo da entressafra. A inflação de serviços é concentrada nos primeiros dois meses do ano, portanto, o pior passou. A taxa de câmbio em queda, que ajudou a puxar para baixo a inflação do ano passado, vai continuar tendo o mesmo efeito de redução da inflação. Ontem, de novo, as previsões do mercado para a inflação do ano caíram.

Por outro lado, os sinais de uma economia desaquecida continuam aparecendo. O resultado do ano passado foi pior do que parece. O ano de 2005 herdou uma taxa de crescimento do ano anterior. Mesmo se tivesse crescido zero, o PIB teria tido um aumento de 1,5% pelo efeito estatístico da comparação da média de 2005 contra a média de 2004. O crescimento de cada semestre contra o anterior caiu, nos últimos três semestres, de 2,3% para 1% e, depois, para 0,2%. Se a conta for feita com outra medida, comparando os últimos quatro trimestres contra quatro trimestres anteriores, vê-se mais claramente o tamanho dessa queda no ritmo: era de 4,9% no último trimestre de 2004, caiu para 4,6% no primeiro trimestre do ano passado, caiu de novo para 4,4%, depois para 3,1% e depois para 2,3%.

Além disso, o risco-país diminuiu muito desde a última reunião; houve uma melhora da classificação de risco do Brasil. As previsões do mercado apuradas semanalmente pelo Banco Central melhoraram.

O mercado prevê mais dois cortes de 0,75 até o meio do ano e depois redução do ritmo até chegar a 14% de juros no fim de 2006. Por que o corte não é maior? Provavelmente porque o Banco Central teme a trajetória fiscal do país. Deveria dizer isso com todas as letras nas suas comunicações com o mercado e a sociedade. Porque essa trajetória de inflação, a fraqueza da economia e a situação cambial não justificam juros reais de dois dígitos.

Os bancos centrais já aprenderam uma velha lição: eles não sabem fazer o país crescer. A revista “Época” mostrou, esta semana, que Cingapura, segundo em taxa de juros altas, logo depois do Brasil, cresceu 8,7%; a Itália, com juro quase zero, não cresceu; Portugal, com juros negativos, cresceu 1%; México, com juros bem menores que os nossos, teve um crescimento do PIB quase igual ao aumento do PIB brasileiro. Juros altos podem impedir o crescimento, mas juros baixos não garantem crescimento algum. A relação entre juros e crescimento é mais complexa do que parece.

Os críticos dos juros altos têm razão em vários pontos, principalmente quando mostram comparações internacionais — como faz sempre o vice-presidente José Alencar — que indicam o caso brasileiro como uma aberração no mundo dos juros baixos.

O Banco Central tem razão num ponto: não é possível confiar na trajetória fiscal do governo Lula. O superávit primário foi mantido alto por aumento de arrecadação e de carga tributária. As despesas cresceram todos os anos. Este ano já começa com o governo mandando gastar mais no primeiro semestre, o que é uma temeridade. Aumento de gastos com frouxidão monetária vira pressão inflacionária.

O problema é que, se o BC está olhando só para os números de inflação, os juros podem baixar muito mais rapidamente. Se está olhando os números de crescimento, aí é que podem mesmo cair. Se está tentando conter com política monetária apertada o efeito dos gastos públicos crescentes, então precisa dizer isso claramente em suas atas e comunicados. Até hoje, o Banco Central não fez isto: não alertou para a trajetória fiscal, nem disse que é este o ponto que o preocupa. Como o país está entrando numa fase de aumento de gastos, este é um bom momento para esclarecer qual é a natureza exata da preocupação do BC, que faz o Brasil ser o solitário país de dois dígitos de juros reais no mundo.

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