Entrevista:O Estado inteligente

domingo, março 19, 2006

MIRIAM LEITÃO PSDB improvisa

O GLOBO

Dentro do PSDB, a sensação que se tem é de improviso. As explicações sobre o afastamento do candidato mais competitivo são variadas e não demonstram ter havido uma estratégia clara, baseada em estudos de pesquisas, e projeto de programa. Vão de reclamações sobre o temperamento de José Serra à inflexibilidade de Geraldo Alckmin. No PSDB, a última semana mostrou que 2002 e 2010 atropelaram 2006: os ressentimentos de 2002 e as ambições de disputa da eleição de 2010 criaram a melhor chance para a reeleição do presidente Lula.

Quando olham para trás, para os acontecimentos recentes, os tucanos se atrapalham. Não sabem muito bem explicar o que houve. Uma das lideranças mais expressivas do partido chegou a dizer, dois dias depois do lançamento do candidato, que José Serra era o melhor, o único competitivo, o mais preparado para encontrar o tipo de solução que o Brasil requer de um presidente neste momento. A idéia é que Geraldo Alckmin soube continuar o ajuste fiscal de Mário Covas, mas não tem sabido como dar o passo seguinte. Não soube o que fazer com os R$ 9 bilhões que tem em caixa. Fez coisas como vender ações da Nossa Caixa e pôr os R$ 700 milhões em caixa sem um projeto de uso do dinheiro. Serra estaria preparado para fazer a verdadeira reforma fiscal de que o país precisa, disse um dirigente tucano. Se avaliam assim, fica ainda mais difícil entender as razões da decisão. A escolha do segundo colocado do partido nas pesquisas se deu por uma série de pequenos detalhes e não foi baseada na avaliação objetiva sobre as chances de Alckmin. Tanto é assim que ninguém soube dizer, nas primeiras horas, após o anúncio, feito sem garra e sem emoção, quais eram os passos seguintes. O presidente do partido, Tasso Jereissati, avisou que vai viajar, bem na hora de se montar a chapa. O almoço de hoje de Alckmin com o senador Jorge Bornhausen pode servir para começar a formar a aliança eleitoral, mas esta costura não pode ser feita só pelo candidato. No PSDB, improvisa-se a cada passo; atitude que, se mantida, encurta sua caminhada nesta eleição.

O próprio candidato Geraldo Alckmin passou os três primeiros dias após o anúncio da candidatura com declarações descosidas e contraditórias. Ele disse que não é antininguém, mas esta é uma campanha plebiscitária. O brasileiro vai escolher se mantém Lula ou tira Lula. Reeleições são sempre plebiscitárias; a do Lula será ainda mais. Portanto, crescerá o candidato que for entendido como anti-Lula. Alckmin disse que vão se surpreender os que pensam que ele é conservador e, em seguida, usou um jargão do mais extremado conservadorismo ao defender família, religião, tradição. Nada contra família ou religião, nem mesmo tradição, mas as três palavras juntas remetem a um direitismo que nunca foi a linha do PSDB, um partido que sempre foi de centro-esquerda.

No PSDB, ainda se reclama da estratégia do partido de não ter insistido no pedido de impeachment do presidente Lula. É que os fatos abriram claramente esta possibilidade: o tesoureiro do PT admitiu caixa dois, o publicitário do presidente admitiu ter recebido dinheiro de origem desconhecida, no exterior, e há suspeita de uso de dinheiro de fundo partidário para pagamento de despesas pessoais. Por muito menos, eleições em prefeituras têm sido anuladas pela Justiça Eleitoral.

Restou ao partido improvisar nas CPIs também. Depois de proteger o ministro Antonio Palocci seguidas vezes, o PSDB se juntou à oposição mais extremada tentando vasculhar fatos da vida do ministro da Fazenda que o inviabilizem para o cargo e, por conseguinte, enfraqueçam o presidente Lula. A revelação da revista “Época” sobre depósitos na conta do caseiro não melhora a situação de Palocci, que tem muitas contradições a explicar. Mas o fato é que não há qualquer coerência no PSDB que agora ataca o mesmo ministro que protegeu tempos atrás.

Num primeiro ato de campanha, os assessores de Alckmin dispararam para endereços eletrônicos uma apresentação em Powerpoint com algumas façanhas do governo. A apresentação compara o desastre fiscal que foi a administração Quércia-Fleury em São Paulo com a de Covas-Alckmin. O estado sai de um déficit orçamentário que chegou a quase R$ 15 bilhões em 1993 para o superávit que se conseguiu agora. O dado mais poderoso do ponto de vista eleitoral é o de que Alckmin derrubou impostos e elevou a arrecadação, o sonho de todos os contribuintes brasileiros: um estado que reduza impostos. Na pesquisa CNI-Ibope, ficou claro que os impostos altos no Brasil estão no entendimento geral como um dos piores problemas do país.

A apresentação é boa e agrada ao mercado financeiro que torcia, em coro, por Alckmin. Mas como um tema árido, como ajuste fiscal, pode ser transformado em discurso de campanha que mobilize as massas? O governador Geraldo Alckmin tem inúmeras virtudes como pessoa pública, mas ele tem telhados de vidro que serão explorados pelos seus adversários. As sucessivas rebeliões da Febem produziram imagens dramáticas e histórias trágicas que certamente serão usadas contra ele.

Mas o pior inimigo de Alckmin pode estar dentro do próprio PSDB: é a improvisação numa campanha que tem tudo para ser muito difícil. O partido está num dos momentos mais decisivos de sua vida. Se perder o governo de São Paulo e a Presidência, ele se apequena de forma dramática.

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