Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, março 15, 2006

MIRIAM LEITÃO Mercado em festa

O GLOBO


O mercado financeiro avalia a notícia política de ontem como a melhor que poderia ter. Na sua visão, que não necessariamente corresponde à realidade dos fatos, agora é ganhar ou ganhar. Segundo a maioria dos analistas, com a vitória do presidente Lula, seria mais do mesmo; e não há motivos de queixa. A vitória de Geraldo Alckmin seria o fim do risco José Serra.



José Serra era avaliado em vários dos bancos e consultorias como um economista com idéias próprias e intenção de fazer mudanças importantes no modelo econômico. O mercado tem medo de um perfil assim. Considerava que Serra poderia intervir no Banco Central, retirando parte da autonomia que, de fato, o BC demonstrou ter nos últimos anos. Poderia também querer recuperar algumas ferramentas de intervenção governamental na área econômica.

Alckmin é uma folha em branco e uma pessoa em silêncio, para o mercado. Em alguns contatos que o governador de São Paulo teve com economistas, ele mais ouviu que falou. Isso foi entendido, principalmente pelos mais loquazes, como aquiescência. Na análise ouvida em alguns bancos, Geraldo Alckmin, se eleito, será o modelo de eficiência na gestão.

Para vários analistas dos bancos, as decisões econômicas do presidente Lula representaram o fim do risco. O risco como ele era entendido até a eleição de 2002, de uma condução da política econômica de confronto com os credores e de mudanças radicais de rumo. A Carta aos Brasileiros não chegou a convencê-los a abrir mão de todas as operações de hedge feitas para enfrentar a turbulência que temiam vir pela frente com a eleição do PT. A tabela abaixo mostra o que acontecia com a economia às vésperas da última eleição presidencial. O risco atingiu bem além dos 2 mil pontos; a Bovespa, com muitas perdas, caía para baixo dos 10 mil pontos; o dólar alcançou os R$ 4. Depois deste período bastante complicado, o que realmente produziu a diluição dos temores foram os três anos de condução da política econômica pelo ministro Antonio Palocci.

Nos primeiros dois anos de Lula, a queda de Palocci era um cenário impensável no mercado financeiro. Ele era o homem da estabilidade. Depois das primeiras crises, quando Palocci passou a ser atingido pelo escândalo político, a confiança do mercado foi sendo transferida para o presidente Lula. Consideraram que era Lula o verdadeiro fiador da política econômica que tinha mantido a autonomia do Banco Central, o respeito aos contratos, o superávit primário, relações respeitosas com organismos financeiros internacionais. Quanto a Palocci, submetido a intenso tiroteio político, passou a ser considerado uma pessoa importante, mas substituível pelo seu vice no ministério, o apartidário Murilo Portugal. Assim é se lhe parece. No mercado financeiro, poucos se dão conta da complexidade da política.

Um dos fatores que mais dão ao mercado a sensação de fim do risco é o fato de o superávit primário ter sido mantido — e até aumentado — durante o ano passado. Na verdade, os sete anos consecutivos de superação da meta fiscal não afastam o fato de que as despesas continuaram aumentando. As despesas primárias vêm crescendo desde o começo da década de 90 e, em certos aspectos, essa elevação até se acelerou nos últimos três anos. Este ano, o governo Lula decidiu elevar os gastos e eles quase dobraram nos primeiros dois meses em relação ao mesmo período do ano passado. Não são aumentos de gastos que signifiquem melhoria da eficiência da economia. É apenas tapa buraco. Não há qualquer PPP a caminho. As despesas que mais sobem são as despesas correntes e incomprimíveis. Tudo indica que o fim do risco fiscal que o mercado imagina é uma visão superficial, dada pelo superávit primário, e não pela avaliação objetiva da trajetória das despesas e da carga tributária.

Na visão dos analistas, o governador Geraldo Alckmin não promoverá uma disputa polarizada e uma campanha agressiva. O debate se dará em torno da eficiência de gestão. O raciocínio é que Alckmin nunca se indispôs com o modelo econômico, ao contrário de José Serra, e que, portanto, esta não será uma questão da campanha eleitoral.

Na verdade, uma campanha tem dinâmica própria: o próprio Lula II pode não ter relação com o Lula I. Alckmin, que venceu ao mostrar uma resistência não esperada pelo comando partidário, vai usar na campanha o que seus marqueteiros acharem que é um bom caminho eleitoral. Um dos vários riscos que corre o governador de São Paulo é ser “cristianizado”, ou seja, ser abandonado, por uma parte do partido. A unidade demonstrada ontem pode se esfumaçar assim que começar a campanha para valer.

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