O GLOBO
A produção industrial decepcionou. Mesmo quem esperava que ela fosse negativa ficou surpreso com a queda de 1,3% de janeiro em relação a dezembro. Desta vez, houve muita dispersão de previsões entre as instituições financeiras, mas todas estavam longe do alvo. Foi muito pior do que o pior esperado. Isso pode elevar o nível de desemprego e derrubar a popularidade presidencial, calcula o cientista político Alexandre Marinis.
O Bradesco achava que o número seria zero, o Credit Suisse apostava em queda de 0,7%, o WestLB acreditava que seria positivo em 0,5%. A Tendências projetava uma alta de 0,2%. A média do mercado era de alta de 0,3%. A queda divulgada pelo IBGE foi pior do que o mais pessimista previra.
A notícia é péssima, mas é preciso ponderar que há uma certa confusão nos números do nível de atividade. Quando foi divulgada a produção industrial de dezembro, o dado foi surpreendente pelo outro lado: era muito melhor do que se imaginava. A CNI chegou a contestar a metodologia mostrando que o número era bem menos auspicioso. Agora há novo desacerto de indicadores. Os dados das indústrias são bem diferentes do dado geral pesquisado pelo IBGE.
— A Fiesp divulgou um número do INA (Índice do Nível de Atividade) muito bom esta semana. A Firjan também está com dados positivos. Os indicadores antecedentes estão mostrando que, em fevereiro e março, deve haver uma recuperação da indústria — afirma o economista Luiz Roberto Cunha, professor da PUC.
É normal haver dissonância de números divulgados pela indústria e os dados do IBGE, mas, seja como for, Alexandre Marinis, da consultoria Mosaico, acha que a produção industrial divulgada ontem embute uma má notícia política para o governo. “O dado da produção industrial de um determinado mês é forte indicador da taxa de desemprego que será apurada dois meses adiante”, diz a análise assinada por ele. Isso significa que o desemprego vai subir mais do que subiria normalmente nesta época do ano, quando, tradicionalmente, ele já costuma aumentar. O gráfico abaixo mostra realmente que o que acontece num mês com a produção industrial tem um reflexo no emprego dois meses depois. Isto “sugere que o dado da produção industrial referente a janeiro de 2006 já contratou um aumento da taxa de desemprego de 9,2%, observada em janeiro, para aproximadamente 10,4% estimada preliminarmente para março”. Alexandre Marinis concluiu que isso vai reduzir as expectativas otimistas e interromper a recuperação da popularidade do presidente Lula.
Hoje vai ser divulgado o IPCA do mês passado e a expectativa é que seja um número baixo.
— O IPCA de fevereiro vai ficar abaixo de 0,40% e, em março, mesmo com a alta do álcool, deve ficar em 0,30%. Significa que a projeção da inflação para o ano está ficando abaixo da meta. Penso que foi por isso que três dos diretores votaram por um corte maior na taxa de juros — comenta Luiz Roberto Cunha.
A situação tem alguns pontos positivos, com a inflação baixa permitindo crescentes cortes nas taxas de juros. No entanto, o PIB decepcionou muito no ano passado e a produção industrial divulgada em janeiro chegou a ser desconcertante, porque ninguém esperava uma queda assim tão forte. Há fatores jogando a favor de uma recuperação da indústria, lembra Luiz Roberto Cunha, como aumento do salário mínimo e a Copa do Mundo. De qualquer maneira, o dado de ontem foi um balde de água fria em quem estava apostando que este ano será muito melhor do que o ano passado. Pode ser tão morno quanto 2005, para desânimo do governo.
No indicador de produção industrial do IBGE, há sinais preocupantes. A queda da produção de bens de capital foi muito forte, o que indica diminuição do investimento. Houve quedas fortes em veículos automotores, indústria farmacêutica e aparelhos e material elétricos. A indústria farmacêutica chegou a cair 10%.
Um dos dados usados para antecipar a produção industrial do IBGE é o da Anfavea. Em fevereiro, a produção de automóveis cresceu 5,7% na comparação com o mesmo mês do ano passado. Mas a produção de tratores teve queda fortíssima de 43,4%. A de caminhões também caiu: 5,8%.
O Credit Suisse não acha que o resultado da indústria em janeiro indique o fim do ciclo de crescimento, mas, enquanto o mercado espera crescimento do PIB de 3,5% em 2006, ele projeta 3%.
Por outro lado, o resultado negativo mostra que as pressões inflacionárias são fracas e, portanto, os juros podem cair num ritmo mais forte.
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