| Merval Pereira - Triste memória |
| O Globo |
| 8/3/2006 |
O PFL começou ontem a testar a tese de que o eleitorado não perdoou Lula dos escândalos de corrupção que ele alega não ter visto, como parecem sugerir as pesquisas de opinião que o mostram novamente na liderança da corrida presidencial. Nos próximos 15 dias, os filmetes do partido na propaganda gratuita da televisão explorarão diversos aspectos dos escândalos ligados ao mensalão, no pressuposto de que as lembranças estão apenas adormecidas no coração do eleitor, e a mesma indignação que levou a uma rejeição de Lula nos primeiros meses da crise política voltará a dominar o eleitorado nas duas próximas semanas. Se é verdade, como dizia Roberto Campos, que o brasileiro tem memória curta, vamos reavivá-la, diz o presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen. A análise das últimas pesquisas de opinião feita pelos líderes do PFL mostraria pelo menos duas vulnerabilidades a serem atacadas: se mais de 80% da população está convencida de que o governo Lula é corrupto, e boa parte desses admite que o presidente está envolvido diretamente, a retomada da dianteira nas pesquisas seria mais resultado do aproveitamento que Lula vem fazendo de sua exposição pública, e da propaganda oficial do governo, do que da reconquista da confiança do eleitorado. Outro ponto, na avaliação dos pefelistas, é o alto índice de rejeição de Lula, em torno de 30%, seja qual for o método que se utilize para medi-la. Com uma rejeição tão grande, ele seria um candidato altamente vulnerável, submetido ao ataque dos adversários políticos, a partir de abril, quando todos os candidatos estarão em atividade e com espaços iguais nos meios de comunicação. Ao contrário de hoje, quando está sozinho na disputa, o presidente terá todos os demais candidatos contra si na campanha eleitoral. Serão 75% contra 25%, faz as contas um dirigente pefelista. Através de pesquisas, tanto qualitativas quanto quantitativas, o PFL constatou, na última leva de filmetes onde dizia que Lula era um "péssimo exemplo" para o país, que a imagem do governo piorou bastante depois da campanha. Ele não pretende testar a reação do eleitorado à exposição maciça das mazelas do governo, mas aguardará que as pesquisas de opinião que vêm sendo divulgadas periodicamente reflitam a reação do eleitorado, aproveitando também o retorno das grandes denúncias pelas CPIs. A prorrogação das CPIs, por sinal, mostra novamente a divisão entre tucanos e pefelistas na condução da política oposicionista. O PFL, desde o início mais agressivo que o PSDB, quer prorrogar os trabalhos para ganhar mais tempo da campanha eleitoral, com o governo sob bombardeio. Nem mesmo a situação delicada em que o deputado Roberto Brant se encontra, com a cassação sendo votada hoje no plenário da Câmara, arrefece o ânimo do PFL. Eles acreditam que Brant será absolvido e que o PFL não ficará com seqüelas desse episódio. Já os tucanos hesitam em apoiar a prorrogação das CPIs, para não dar tempo a que os governistas entrem com mais disposição na investigação do PSDB mineiro. O novo depoimento do marqueteiro Duda Mendonça, cujos dados bancários estão sendo entregues à CPI pelos órgãos de fiscalização americanos, e o depoimento amanhã do delegado de Ribeirão Preto na CPI dos Bingos, que promete revelar detalhes e dar as provas do envolvimento do ministro da Fazenda Antonio Palocci na arrecadação ilegal de dinheiro para o PT quando era prefeito da cidade, dão ânimo ao PFL no que seria uma retomada das denúncias oposicionistas. A direção do PFL não acredita que o eleitorado tenha "perdoado" Lula, mas sim que ele foi "distraído" por medidas do governo, como a convocação extraordinária do Congresso, que desviou a indignação da opinião pública para o Congresso. Não acredita também que a chamada Bolsa-Miami — o dólar baixo que está permitindo viagens internacionais à classe média — tenha poder de mudar os valores dessa mesma classe média, que rejeitaria clima de corrupção existente. Em análises reservadas sobre a situação do país, dirigentes da oposição consideram que o episódio envolvendo o comandante do Exército, general Francisco de Albuquerque, reflete um clima de impunidade que impera no governo a partir da percepção de que a estratégia de Lula de negar sempre aparentemente deu resultado. Mais que a "carteirada" do general, que ainda refletiria resquícios do autoritarismo, essa impunidade estaria representada na pronta reação do Ministro da Defesa e vice-presidente José Alencar, que imediatamente absolveu o general, classificando-o de "um grande democrata". Diante das evidências, pelo menos mais cuidado e recato nos comentários seriam obrigatórios por parte do governo. A própria Comissão de Ética Pública, que supostamente teria pedido explicações ao general, estaria sendo usada para coonestar a atitude, e não para puni-la. A comissão teria perdido a credibilidade depois que um de seus membros, o economista Antoninho Marmo Trevisan, intermediou a negociação de compra pela Telemar da empresa Gamecorp, de jogos digitais e conteúdos para celular do filho de Lula, Fábio Luiz Lula da Silva, por incríveis R$ 5 milhões. Embora a oposição trate com cuidado temas ligados à pessoa do presidente e sua família, é inevitável que eles façam parte da campanha eleitoral à medida que novas denúncias vão surgindo, como a de que o presidente do Sebrae e amigo íntimo de Lula, Paulo Okamoto, além de pagar uma dívida pessoal do próprio presidente, teria pago também dívidas de uma campanha eleitoral malsucedida de Lurian, filha de Lula. Okamoto nega a acusação, mas se empenha no Supremo para impedir a quebra de seu sigilo bancário, que poderia esclarecer essas suas generosas atuações em torno da família do presidente. |
Entrevista:O Estado inteligente
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quarta-feira, março 08, 2006
Merval Pereira - Triste memória
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