O ESTADO DE S PAULO
'Por que o Brasil continua subdesenvolvido se foi capaz de criar a agricultura mais dinâmica e flexível do mundo? Como é tão pobre se possui uma estrutura industrial competitiva que o habilita a exportar produtos sofisticados como automóveis, aviões e equipamentos industriais? Por que há tantas carências se existem, em paralelo, estruturas de serviços comparáveis às dos países ricos? A resposta a essas perguntas cruciais começa pela constatação da mediocridade da maioria de nossos políticos e administradores públicos, mas vai além disso, chegando a uma seqüência de erros econômicos que impediram o crescimento do País. Os últimos 25 anos serão conhecidos como a época da grande crise do Brasil, a sua noite do desenvolvimento, quando se perdeu a esperança no futuro e o sonho quase acabou. A essa noite, entretanto, deve seguir-se o alvorecer, trazido por mudanças importantes, como o crescimento - em plena crise - da agricultura empresarial. A agricultura foio último ramo da economia a atingir padrões mundiais de eficiência e completa, agora, junto com o controle da desordem inflacionária, um novo quadro econômico para o país, onde as condições estão dadas para um novo ciclo de crescimento sustentado, que pode levar-nos à superação do subdesenvolvimento.' 'Olhando para trás, podemos ver que o Brasil tem uma tendência ao rápido crescimento econômico, uma força invisível que parece puxá-lo para a frente. Essa força vem da riqueza natural do país, e das excepcionais precondições ao desenvolvimento: enorme território, população em número razoavelmente baixo em relação ao território, clima favorável, forte identidade nacional, unidade lingüística, inexistência de conflitos étnicos ou ameaças externas. Esses fatores induzem fortemente o crescimento do Brasil. O crescimento ocorre, mas é interrompido por erros econômicos ou acontecimentos desastrosos. Para nos fixarmos apenas na evolução dos últimos 100 anos no Brasil, tivemos os seguintes eventos, para o mal: o nosso crescimento econômico no início do século XX foi abortado pela crise de 1929. Conseguiuse contornar essa crise com o crescimento da indústria, mas ocorreu nova paralisia durante a 2ª Guerra Mundial. O surto de desenvolvimento dos anos 50 foi abortado pela renúncia de Jânio Quadros e a instabilidade política que desembocou no golpe militar de 64. A partir de 1968, os governos militares conseguiram também criar um surto de desenvolvimento, que foi abortado pela crise cambial causada pela alta do petróleo.' 'Essa crise ajudou a tirar os militares do poder, mas, quando se pensou que tudo ia melhorar com Tancredo Neves na presidência, sua comovente morte antes da posse deixou os assuntos políticos à deriva, resultando em mais crise e na confusa Constituição de 88, que estamos reformando até hoje. Depois de uma década perdida, nova oportunidade surgiu com o sucesso do Plano Real e o estancamento da hiperinflação. Estávamos, novamente, diante de uma dessas encruzilhadas econômicas cruciais, com duas tendências conflitantes dentro do governo: os que queriam segurar a cotação do dólar com medo da volta da inflação e os que achavam que a estabilização da moeda era só o primeiro passo, sendo preciso seguir em frente com as reformas econômicas, para desenvolver o País. Lamentavelmente, tomou-se a decisão errada e a oportunidade foi perdida. Fizeram aqui, de forma mais branda, o mesmo engessamento que levou a Argentina a seu mais recente desastre: manteve-se o real artificialmente valorizado, e os juros altos. Criou-se uma enorme dívida para manter a valorização e, pior ainda, o governo federal emitiu muitos bilhões de dólares em títulos internos com correção cambial, para garantir aos investidores que não ocorreria a desvalorização do real. Quando a desvalorização ocorreu, forçada pelo mercado, em 1999, a dívida referente a esses papéis aumentou substancialmente.' 'De nada adiantou segurar artificialmente o câmbio porque a desvalorização acabou acontecendo de forma desordenada, forçada pelas circunstâncias. Os responsáveis pelo erro foram alijados do poder e subiu o PT de Lula, que herdou um país assombrado pela dívida e pela permanente ameaça da nossa mais antiga praga: a crise cambial. O novo governo manteve, inicialmente, a economia engessada para acalmar os mercados, mas depois, por não ter projeto e temer a mudança, passou a repetir os mesmos erros, obtendo como resultado um crescimento econômico medíocre, semelhante ao do governo anterior.(...) Nossos dirigentes parecem ignorar ter sido a agricultura, e não o governo, que salvou o Brasil da bancarrota. A situação econômica recente só melhorou timidamente porque as exportações do Brasil deram um salto sem volta para cima e esse salto ocorreu, principalmente, devido às exportações do agronegócio. (...) Ignora-se também que a agricultura brasileira só pôde criar esse boom de produção e exportações porque teve uma gigantesca evolução em tecnologia e organização empresarial.
Essa evolução agrícola não ocorreu da noite para o dia.' Reproduzi aqui alguns trechos de um livro ainda não publicado, A Agricultura Empresarial, de Antonio José de Oliveira Costa, um bem-sucedido empresário do agronegócio em Piracicaba. Com sensibilidade de avaliação, nutrida pela própria experiência, ao descrever o agronegócio brasileiro e as conseqüências de seu sucesso o autor alarga seu foco de iluminação (talvez sem o pretender) e exibe, por contraste, o que está além da mediocridade da classe política cabocla.
Por sobre as reflexões eleitoreiras devem pairar as brasileiras.?
Entrevista:O Estado inteligente
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