"Todo mundo já esperava que vários episódios da crise política reaparecessem durante a campanha eleitoral.
Delúbios, Silvinhos, Genoínos, dólares na cueca, mensalão, valerioduto, as alegres moças da dona Jeanne, o uso e o abuso do caixa dois, carrões blindados, jatinhos emprestados.
Era previsível que tudo isto voltasse a aparecer durante a campanha.
Todo mundo também já esperava que houvesse alguma contaminação entre a crise e as eleições. Aquela obsessão quase doentia do ex-deputado José Dirceu de utilizar todas as manobras para adiar o inevitável, isto é, sua cassação, atropelou o calendário e jogou a conclusão dos outros processos contra deputados mensaleiros para o início da campanha.
Tudo o que o Planalto não queria.
Todo mundo também já esperava que alguma munição tivesse sido economizada, tanto pelo governo quanto pela oposição, para ser usada na campanha eleitoral.
Afinal, PT e PSDB são quase irmãos gêmeos. Um se considera o avesso do outro, mas na verdade são bastante parecidos. Ambos se conhecem bem demais. Virtudes e defeitos.
Os dois partidos nasceram em São Paulo, seus caciques são quase todos paulistas. PT e PSDB fazem política em São Paulo disputando quarteirão a quarteirão.
Talvez, até por isso, o PT e o PSDB são a favor da manutenção da verticalização das alianças. Querem restringir o número de partidos que podem realmente entrar na disputa. Querem ser os únicos na competição.
Além disso, tucanos e petistas têm a cultura do dossiê. Compõem dossiês contra adversários, colecionando processos, falcatruas, malfeitorias, discursos antigos, recortes de jornais, fotos comprometedoras, enfim, toda sorte de material que faz a alegria da “patrulha da lama” nas eleições.
OK. Tudo isto estava mais ou menos no script.
Mas o que não se esperava era um repique da crise, patrocinado em grande parte por mais uma onda de denúncias envolvendo o ministro Antônio Palocci.
Agora não é mais a turma de Ribeirão, que pode ter seus ressentimentos contra Palocci. Agora é o motorista, agora é o caseiro da tal mansão do Lago Sul de Brasília, chamada de República de Ribeirão Preto.
Depois da devastadora entrevista do caseiro ao jornal O Estado de S. Paulo, contando detalhes do que acontecia na tal mansão, inclusive várias visitas de Antônio Palocci, não basta o Ministério da Fazenda divulgar uma nota dizendo que o ministro não dirige em Brasília. É até patético.
Não bastam telefonemas aflitos de Palocci a banqueiros amigos para que influenciem os senadores da CPI dos Bingos.
Se Lula não tomar cuidado, o caso Palocci pode se transformar numa grande dor de cabeça para sua reeleição."