Entrevista:O Estado inteligente

domingo, março 19, 2006

Gaudêncio Torquato Por que Nildo iria mentir?

Gaudêncio Torquato
O que é um homem verídico? É um homem sem meandros, sincero ao mesmo tempo em sua vida e em suas palavras e que reconhece a existência de suas qualidades próprias, sem nada acrescentar a elas e sem nada delas subtrair, respondia Aristóteles em seu tratado de ética. Um homem sem curvas expressa sinceridade ao conferir força ao caráter das palavras. Já o caráter das palavras se espelha na riqueza de deta lhes, nas minudências, esses pequenos arremates de idéias e lembranças que brotam, de maneira instintiva, das associações mentais de interlocutores em conversa aberta. Pois é esse mapa de respostas francas, circunstanciadas, minuciosas que o caseiro Francenildo Costa Santos, pelas páginas do Estado (14/3), apresenta ao País, no mais contundente depoi mento até agora dado sobre as andanças do poderoso ministro da Fazenda, Antonio Palocci, por uma casa de Brasília, on de a República de Ribeirão Preto teria montado esquema de recepção e distribuição de dinheiro ilícito.
Nildo, como o caseiro é conhecido, veste por inteiro o figurino aristotélico quando rejeita enfeitar com adereços a história que conta. Quando diz
'do lado dele, não sou nada', arrematando que o ministro Palocci mente ao dizer que nunca freqüentou a casa do Lago Sul, o piauiense recorre à precária condição material para fazer contraponto a 'quem é tudo', buscando na grandeza moral de um homem pacato a base para construir uma teia de situações tão devastadoras quanto críveis: 'o carro Peugeot prata, vidro escuro; jogando tênis com dr. Rogério e Rui, à tarde; tinha que chamar de chefe; sempre pagavam na terça ou na quinta; pediu para desligar os sensores em volta da casa; nunca saiu cheque, só dinheiro.' O ministro Palocci nega ter ido à famosa mansão. E diz que o caseiro está mentindo.
Que razões teria o caseiro para mentir? O argumento de que
os partidos de oposição se apóiam em denúncias bombásti cas para fazer estragos eleitorais e atingir a imagem do candidato Lula não resiste à análise.
Nos tempos de Collor, Eriberto França, motorista de Ana Acioli, secretária do presidente, confirmou que empresas de PC Farias faziam depósitos em contas
fantasmas. O ambiente social era francamente favorável às oposições. Não é o caso de hoje.
As artimanhas da situação ou oposição não passam ao largo de uma mídia vigilante e dos sistemas que controlam operações ilegais: Ministério Público, Polícia Federal e as próprias comissões parlamentares de inquéri to. Houvesse sido cooptado, com dinheiro, emprego e vantagens, o caseiro Nildo seria fatal mente flagrado e seu logro reverteria em favor de Lula, com aplausos gerais para o ministro da Fazenda. Nunca as vísceras do País foram tão removidas, a partir de grampos, gravações te lefônicas, meios avançados de segurança eletrônica, detetives particulares e monitoramento de casos suspeitos.
Fosse patranha, a versão de Francenildo Santos estaria, a esta altura, triturada, razão pela qual se torna crível a confissão: 'Fiquei com medo e resolvi falar.' Esse é o ponto central. Medo de ser escorchado pelos poderosos. Medo de ser indiciado, eis que seu nome foi citado pelo mo
torista Francisco das Chagas Costa, que também confirmou ter encontrado por três vezes, pelo menos, o ministro na casa de nº 25, também conhecida por reunir recepcionistas agenciadas por Jeany Mary Corner. A versão do motorista também é negada. Por que o motorista Chagas iria mentir? O depoimento, também cheio de detalhes e com direito a choro, na CPI dos Bingos, pareceu convincente. Mas não é o próprio Palocci que tem versão contraditada? Negou ter viajado em jati nho do empresário Roberto Colnaghi para Brasília. Ante o desmentido do amigo de que nin guém pagou o aluguel do avião, o ministro reconheceu ter cometido 'imprecisão terminológica'. Viajou.
Não é de hoje que se escreve a história com falsas versões.
Confúcio (quem diria, hein?) falsificou um calendário histórico chinês alterando algumas pala vras. O texto original dizia: 'O senhor de Kun condenou à morte o filósofo por ter dito frito e co zido.' O sábio substituiu a expressão 'condenou à morte' por 'assassinou'. Lenin queria descrever a exploração e a opres são da Ilha Sakalina pela burguesia russa. Ameaçado pela polícia do czar, substituiu Rússia por Japão e Sakalina por Coréia. Os métodos burgueses japoneses lembravam os métodos burgueses russos. A subtração ou acréscimo nas letras da História tem sido um subterfúgio de homens que mexem com idéias para satisfazer o ego e preservar poder.
O ministro Antonio Palocci tem o direito de tentar reforçar o escudo que se procura armar em torno de sua imagem. Afinal de contas, trata-se do fiel escudeiro
de um modelo econômico que agrada ao establishment. Defenestrá-lo do governo pode gerar tumultos inconvenientes. Mas a pergunta remanesce: e a demo
Alegar não saber dirigir em Brasília é balela. Palocci tem de encarar a verdade
cracia não tem de pagar um preço? A honra, a honestidade, a li sura não são valores inalienáveis do paradigma da administração pública? Ou é o caso de fazer valer a ética dos poderosos sobre a ética dos humildes? O ministro Palocci esquece que, na esfera da política, há sempre um Marco Antonio à espreita de circunstâncias. O impetuoso general, na versão de Shakespeare, proferiu a oração fúnebre diante do corpo do amigo César. Com eloqüência repetia que o assassino Brutus era um homem honrado. Porém o que ficou na memória dos romanos foi a descrição bárbara do crime.
Diz-se que Deus está nos detalhes. Os detalhes das versões que correm sobre a República de Ribeirão Preto são tantos que as insistentes negativas de Antonio Palocci acabarão no limbo.
Alegar não saber dirigir em Brasília é balela. Quem tem boca vai a Roma. Pois foi usando a boca que este escriba, na direção de um carro alugado, descobriu, no meio da noite, no centro confuso de uma Roma desconhecida, um
hotelzinho onde tinha reserva.
As vielas eram tão estreitas que, por algumas vezes, perdido, só podia sair com carro de ré. Palocci tem de encarar a verdade.
Por que Nildo iria mentir?
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