FOLHA
A morte do livro como veículo da literatura já foi profetizada várias vezes, na chamada época moderna. E não por inimigos da literatura, mas pelos escritores mesmos. Até onde me lembro, o primeiro a fazer essa profecia foi nada menos que o poeta Guillaume Apollinaire, no começo do século 20.
Entusiasmado com a invenção do gramofone (ou vitrola), acreditou que os poetas em breve deixariam de imprimir seus poemas em livros para gravá-los em discos, com a vantagem -segundo ele, indiscutível- de o antigo leitor, tornado ouvinte, ouvi-los na voz do próprio poeta. A profecia estava equivocada, mas o erro do poeta é compreensível, já que, com o gramofone, os poetas modernos estariam mais próximos dos antigos aedos.
De qualquer modo, Apollinaire, que foi um bom poeta, revelara-se um mau profeta, já que os poetas continuaram a se valer do livro para difundir seus poemas enquanto o disco veio servir mesmo foi aos cantores e compositores de canções populares, que são de fato os aedos modernos. E a tal ponto que houve até quem afirmasse a substituição do poema pela canção popular: a poesia teria, assim, por morte do poema, se transferido do livro para o disco.
Mas ainda desta vez os propagadores de maus presságios pisaram na bola, uma vez que, décadas depois dessa profecia, os livros de poemas continuam a ser editados, com a ajuda, hoje -vejam vocês!-, da revolucionária tecnologia da informática. (Mas já há quem garanta que o livro -e não só os de literatura- vai morrer agora, substituído pelo computador. Mal sabe, essa gente, que há 40 anos inventei o livro-poema que o computador não pode substituir!).
O mais recente profeta do fim do livro é o romancista norte-americano Philip Roth, que, numa entrevista, fez o prenúncio. Na verdade, ele anunciou o fim da própria literatura e não por falta de escritores, mas de leitores. Certamente, referia-se a certo tipo de literatura, pois obras de ficção como "O Código Da Vinci" e "Harry Potter" alcançam tiragens de milhões de exemplares em todos os idiomas.
Outro fenômeno que contradiz a tese de que as pessoas lêem cada vez menos é o crescente tamanho dos "best-sellers": ultimamente, os volumes ultrapassam as 400 ou 500 páginas, havendo os que atingem mais de 800. Tais dados põem em dúvida, mais uma vez, as previsões da morte do livro e da literatura.
Não concordo com elas, quando mais não seja porque me parecem simplificadoras da questão. Se é verdade que, só em estado de delírio, alguém afirmaria que mais gente lê livros do que vê televisão, também se equivocaria quem visse nessa diferença de interesses um indício de que em breve ninguém mais lerá livros.
A visão simplificadora consiste em não levar em conta alguns fatores que estão ocultos, mas atuantes na sociedade de massa: fatores qualitativos que a avaliação meramente quantitativa ignora. Começa pelo fato de que são as obras literárias de qualidade, e não as que constituem mero passatempo, que influem na construção do universo imaginário da época. É indiscutível que tais obras atingem, inicialmente, um número reduzido de leitores, mas é verdade também que, através deles, com o passar do tempo, influem sobre um número cada vez maior de indivíduos -e especialmente sobre aqueles que constituem o núcleo social irradiador das idéias.
Costumo, a propósito desta discussão, citar o exemplo de um livro de poemas que nasceu maldito: "As Flores do Mal", de Charles Baudelaire, cuja primeira edição, em reduzida tiragem, data de 1857. Naquela mesma época havia autores cujos livros alcançavam tiragens consideráveis, que às vezes chegavam a mais de 30 mil exemplares. Esses livros cumpriram sua missão, divertiram os leitores e depois foram esquecidos, como muitos "best-sellers" de nossa época. Enquanto isso, o livro de poemas de Baudelaire -cuja venda quase foi proibida pela Justiça-, que vem sendo reeditado e traduzido em todas as línguas, já deve ter atingido, no total das tiragens, muitos milhões de exemplares. O verdadeiro "best-seller" é ele ou não é?
Não é a quantidade que importa. A cidade de São Paulo deve ter hoje uns 10 milhões de habitantes, mas os moradores desta megalópole, na verdade, vivem em pequenos grupos de uns poucos amigos e conhecidos. Ninguém, de fato, convive com milhões. Só alguns indivíduos da sociedade multitudinária são conhecidos de tantas pessoas, que ele mesmos desconhecem. É bom, para o escritor, vender muitos livros e poder viver de seu trabalho, mas nada se compara ao encontro pessoal com alguém que lê e ama sua obra. A propósito disto, costumo contar a história de um bêbado aqui do bairro que, ao me ver passar, gritou: "Ferreira Gullar, famoso e eu não sei quem é!". Já meu amigo Raí, que vende livros usados sobre um plástico estendido na calçada, a poucos metros de minha casa, sabe muito bem quem sou eu; o mesmo posso dizer daquele mendigo que me declarou em alto e bom som: "Poeta, esporadicamente leio os seus livros". O que posso querer mais?
Entrevista:O Estado inteligente
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