Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, março 14, 2006

Está decidido: Alckmin é o candidato tucano à Presidência e O PT tentando seqüestrar o PSDB Por Reinaldo Azevedo



14h40 Está decidido: Geraldo Alckmin é o candidato tucano à Presidência da República. O anúncio será feito no Palácio dos Bandeirantes. — Reinaldo Azevedo


PRIMEIRA LEITURA

O PT, quem diria?, começou a plantar por aí que acha Geraldo Alckmin um adversário mais perigoso para enfrentar Lula do que José Serra, mas, na hora do ataque, quem apanha é mesmo o prefeito. Mais do que isso: a direção do partido, por meio de seu presidente, Ricardo Berzoini, decidiu agora investir no puro e simples terrorismo eleitoral.

Explico-me: do Planalto, vazam “pesquisas” dando conta de que o governador de São Paulo é uma incógnita eleitoral, o que poderia ser problemático para Lula. A suposta tese é a seguinte: aquilo que não se conhece direito traz mais riscos do que aquilo que se conhece. É uma bobagem de várias maneiras diferentes e combinadas. De todo modo, a ação atende a um princípio: há um grupo, ao menos, que quer liquidar em março as eleições que só serão em setembro: o mercado financeiro. E isso se dá com a exclusão de Serra da disputa. Depois, para os mercadistas, restarão duas opções: lulismo com Lula ou lulismo sem Lula. Qualquer uma rende bastante.

Se o PT tivesse realmente um “estudo” como esse, por que o tornaria público? Para ajudar as oposições? Entendo: os companheiros descobriram que Serra seria um adversário mais fraco e, piedosos, resolveram fazer uma advertência aos inimigos porque não gostaria de vê-los esmagados nas urnas. Já me chegaram e-mails dos partidários de Alckmin na linha: “Até o PT acredita que Geraldo é mais forte”. Agradeço a ajuda de petistas e alckministas tentando me provar, unidos, qual é o nome mais combativo da oposição. Eu e os petistas costumamos divergir em muita coisa, se é que vocês me entendem. Não seria agora que estaríamos de acordo.

Mau-caratismo
Se o PT não existisse como é, duvido que um escritor conseguisse inventá-lo para servir à sua ficção. Usualmente, associa-se, e eu mesmo o faço, com correção, o partido à herança do leninismo-stalinismo. É verdade. Nota-se o amor pelo centralismo democrático, ainda que meio capenga; a ética do presente eterno, que ignora qualquer princípio que não seja a sobrevivência e o fortalecimento do próprio partido; a prática do assalto virtuoso ao Estado (justificado por uma causa) etc. Até expurgos foram feitos em ocasiões distintas: tanto em 1984 quanto em 2004.

Mas isso tudo conta apenas uma parte da história. Características como o absurdo cinismo, o escancarado oportunismo, um misto de vandalismo com mau-caratismo teórico, bem, isso tudo não é necessariamente stalinista. Há uma imoralidade essencial que me parece gerada pela nova classe social que ascendeu ao poder com Luiz Inácio Lula da Silva.

A Folha de domingo traz uma entrevista com Berzoini que é de estarrecer. O poderoso chefão do partido que se dizia operário, de massas e de esquerda resolveu associar o nome de Serra a uma suposta heterodoxia econômica — pondo-se, pois, como bastante procurador da ortodoxia —, lançando no mercado o que poderia ser chamado de “risco Serra”, invertendo, rigorosamente, os termos do debate de 2002 — ao menos da face pública daquele debate.

Sobre a idiotia política
É evidente que qualquer analista ligeiramente acima da linha da idiotia poderia inferir em 2002 que as melhores chances de se ter uma política consistente de crescimento estavam com Serra. Era o continuísmo sem continuidade, como escrevi aqui à época, em oposição à continuidade sem continuísmo. Lula, afinal, chegaria ao poder com tal histórico de descrédito que ou virava a mesa e era deposto ou se tornava mais realista do que os mercados. Isso era óbvio a ponto de dar preguiça de escrever. O resultado está aí. O que se disse então está no arquivo, disponível.

O PT escolheu, naquele ano, travar a batalha no campo, digamos, progressista, ainda que, no que concernia à mudança, não soubesse e não pudesse “fazer o ‘O’ com o copo”, como se diz na valente Dois Córregos, que me viu vir à luz. Lula tornou-se o senhor do “mudancismo”, embora, a cada dia que passava, fosse obrigado a se comprometer com mais e mais conservadorismo.

A esperteza de Berzoini
Berzoini, agora, sabe que aquele discurso está desmoralizado. Do Lula reformador, resta só um simulacro, uma biografia vitaminada pelos mistificadores de plantão. O presidente precisa continuar dono de alguns símbolos, de algumas causas retóricas, mas a força de sua postulação, agora, tem um viés essencialmente conservador. Dado esse figurino, é óbvio que espera ter como adversário alguém que, digamos assim, esteja à sua direita, exercitando o discurso da manutenção da ordem.

Dada a maneira como se tem construído a pré-candidatura de Alckmin e dados os apoios que tem plasmado, o partido de Lula esperava ter o governador como adversário porque pretende casar duas operações:

a) Opor ao eventual candidato do PSDB-PFL um Lula oriundo das camadas populares — o que Alckmin não é —, genética e socialmente preocupado com a causa dos destituídos, área na qual o tucano não poderia arrostar com ele. Não é por acaso que o governo tem dado especial atenção, ainda que retórica, ao Nordeste. Em Serra, cravar a pecha de “conservador” seria mais difícil.
b) Na área econômica propriamente, Lula, desta feita, falaria em defesa dos fundamentos da economia, evidenciando o seu histórico de bom comportamento e de fidelidade às regras do mercado. O que Alckmin também garantiria. Daí que haja aquela turma para a qual a eleição, para valer, se dava neste mês, não em outubro.

Reparem que, nessa hipótese, o PT pretende atrair o PSDB-PFL para uma armadilha: se é para manter o que aí está, mudar para quê? Lula tem sido, à sua maneira, “eficiente”. Mas haverá o risco, dirão os petistas, de os “programas sociais” do PT sofrerem alguma forma de mudança, uma vez que Lula se julga o seu patriarca. Com Alckmin, a tarefa de opor o candidato operário ao procurador das elites (ainda que as duas coisas sejam mentirosas) sai tremendamente facilitada.

O truque petista
Eis a razão pela qual Berzoini, então, dá aquela entrevista falando sobre a “heterodoxia” (mentirosa, de resto) de Serra: o recado, como se viu pelo e-mail que recebi, é dirigido menos aos petistas do que aos tucanos e, vá lá, aos setores mais conservadores da sociedade: “Cuidado com Serra! Ele é heterodoxo! A gente é PT, mas a gente é jóia”.

Não é um discurso eleitoral que seria tentado para abater Serra caso ele fosse candidato. Ao contrário: tratava-se de um argumento para mobilizar algumas correntes do próprio PSDB e da opinião pública para barrar a escolha de Serra. Porque, é claro, o candidato que, nas franjas do símbolo, mais se opõe a Lula é mesmo Alckmin. Já o candidato que, nas entranhas da convicção, mais se distancia da prática do PT, com efeito, é Serra.

É uma pena que a entrevista com Berzoini tenha sido tão curta. Mais um pouco, eu o vislumbraria a conclamar os valentes deste país a impedir o “risco Serra” porque, por supostamente heterodoxo, poderia, quem sabe?, trazer risco à estabilidade econômica, esta de que o PT tanto se orgulha, que nos garantiu um crescimento de 2,3% no ano passado.

Pato, não tucano
Uma parte do tucanato evidencia que melhor seria se o símbolo do partido fosse um pato. Está caindo no truque do PT com espantosa facilidade. Os “novos turcos”, por sua vez, que chegam para depor o que consideram a velha guarda do PSDB não querem nem saber. Sua primeira tarefa, clara e explícita, é tomar o aparelho partidário. O resto fica para depois. Aceita o minueto proposto pelo PT.

Eis a questão: uma fatia muito pequena e muito poderosa do eleitorado estava disposta a ganhar a eleição agora, e não em outubro — e, pelo visto, ganhou — podendo apostar, com certeza absoluta, em dois candidatos. Vamos ver o que vai acontecer. A Serra e a uma importante corrente do PSDB, a depender do resultado, restará muita coisa a refletir. E isso inclui, quero crer, pensar até que ponto um eventual novo PSDB, tomado pelos “jovens turcos”, realmente serve de alavanca para mudar o que tem de ser mudado.

O raciocínio é ousado. Mas ousadia, às vezes, é o único nome do decoro.

[reinaldo@primeiraleitura.com.br]
Publicado em 13 de março de 2006.

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