Entrevista:O Estado inteligente

domingo, março 05, 2006

EDITORIAL DE O GLOBO Hora da Índia


Por que a Índia se recusa a assinar o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares? A resposta oficial dos indianos é a mesma de outros países que querem desenvolver as suas bombas: o TNP apenas consagra as desigualdades militares e tecnológicas existentes, reconhecendo o status de potência nuclear dos países que já têm armas e proibindo a todos os demais desenvolver a tecnologia para fabricá-las.

A razão prática é que a Índia está cercada de vizinhos poderosos e bulhentos. Disputas territoriais já levaram o país à guerra com a implicante China nuclear, e com o igualmente nuclear e temperamental Paquistão, seu irmão siamês, com o qual tem desde o nascimento profundas divergências políticas, religiosas e territoriais.

Quinta-feira, durante visita do presidente George W. Bush à região, Índia e Estados Unidos anunciaram a assinatura de um acordo nuclear, criticado em alguns quadrantes e elogiado noutros. Fica acertado que as instalações nucleares civis indianas serão fiscalizadas, em troca de fornecimento de tecnologia e de combustível pelos americanos.

Uma das desvantagens apontadas pelos detratores seria estimular pretendentes ao status de potência nuclear, como Coréia do Sul e Irã, a fabricarem suas armas a qualquer custo, pois o acordo americano-indiano comprova que dispor da bomba é uma forma segura de obter privilégios nas relações internacionais. A maior vantagem seria permitir algum tipo de inspeção num país que, por não ser signatário do TNP, está totalmente livre da fiscalização da Agência Internacional de Energia Atômica.

Há um ganho geopolítico evidente: ao aproximar-se da Índia, única democracia com mais de um bilhão de habitantes, os EUA esperam contrabalançar a influência da China.

O tratamento diferente dado ao Paquistão, arqui-rival da Índia e aliado dos EUA contra o terror, também faz sentido. Não poderá haver pacto nuclear de espécie alguma com o regime de Musharraf, que além de ser uma ditadura tem exportado tecnologia nuclear para países como o Irã. Difícil será manter algum tipo de controle sobre o programa nuclear paquistanês — e impedir o acirramento das rivalidades.

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