Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, março 16, 2006

EDITORIAL DE O GLOBO A fuga



Teorias conspiratórias à parte — e elas não morrem nunca, agarrando-se a qualquer fiapo de mistério ou incerteza — foi comprovado pela autópsia que o ex-presidente Slobodan Milosevic morreu, se não de causas naturais, pelo menos de causas comuns. Não foi assassinado na prisão.

Para muitos, houve uma espécie de injustiça divina: o supremo oportunista que infligiu tantas mortes e tanto sofrimento ao povo da antiga Iugoslávia, incitando guerras civis na tentativa de construir sobre as ruínas da federação forjada pelo marechal Tito o insano projeto ultranacionalista da Grande Sérvia, teve a mais misericordiosa das mortes, no isolamento de sua cela, enquanto juízes de um tribunal internacional em Haia apuravam sua responsabilidade nos mais selvagens crimes cometidos na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. É como se um criminoso da sua ferocidade não merecesse do destino tratamento tão suave.

Para outros, Milosevic escapou da justiça dos homens pela porta dos fundos, frustrando o desejo universal de que ele, com seus projetos alucinados, seu cinismo homicida de manipulador de ódios étnicos seculares, pagasse, neste mundo, lenta, dolorosa, se possível pedagogicamente, pelas atrocidades que perpetrou.

O Milosevic que saiu sorrateiramente da vida entra para a História como o líder desvairado que sepultou econômica, geográfica e psicologicamente um próspero país europeu sob uma montanha de mais de 200 mil cadáveres.

Sua carreira, é claro, não se desenvolveu no vazio, movida apenas por uma vontade sobre-humana e por suas habilidades de excelente tático (e péssimo estrategista, que ganhou batalhas e perdeu todas as guerras). O sérvio que restabeleceu no continente os campos de concentração e o genocídio é produto da indiferença dos EUA e da Europa que só no fim dos anos 90, por iniciativa tardia mas decisiva dos EUA, enfrentaram o arruaceiro dos Bálcãs. Que não se vá com ele o projeto do tribunal internacional para criminosos do seu porte. Pois se com a morte Milosevic burlou a justiça, também é fato que estava privado de liberdade quando morreu — como deveriam estar seus cúmplices foragidos Radovan Karadzic e Ratko Mladic.

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