| editorial |
| O Estado de S. Paulo |
| 10/3/2006 |
Pela terceira vez consecutiva - e duas vezes em um mesmo dia - a Câmara dos Deputados contrariou a posição do seu Conselho de Ética, deixando de cassar os mandatos do pefelista mineiro Roberto Brant e do petista paulista Professor Luizinho. No fim do ano passado, outro deputado mineiro acusado de malfeitorias financeiras pelas CPIs que investigam o mensalão e adjacências, Romeu Queiroz, do PTB, também foi premiado pelo plenário com a preservação do seu mandato, embora o Conselho o tivesse condenado por quebra de decoro parlamentar. Bem se dizia à época que "passou boi, passa a boiada". Nos casos de Brant e Luizinho, a passagem da boiada também podia ser prevista por todos quantos atentassem ao que disse à imprensa um político que obviamente tinha motivos para esconder a identidade. Defendendo a realização das duas votações numa mesma sessão, ele confessou: "Assim a gente apanha (da opinião pública) uma vez só." O nome desse jogo ficou igualmente claro: é a política "do leite de pato". A expressão se aplica ao carteado, quando, no fim da noite, fica tudo elas por elas: os derrotados não pagam por suas perdas e o congraçamento é geral. Diga-se desde logo que os pareceres do Conselho de Ética não são invariavelmente irrefutáveis ou à prova de facciosismos. E por uma questão de equanimidade se poderia argumentar que, cada qual a seu modo, o pefelista e o petista apresentaram alegações não de todo descartáveis de saída. Não ficou provada a origem dos R$ 102 mil que Roberto Brant diz ter recebido diretamente da Usiminas para engordar o cofre do PFL mineiro na campanha municipal de 2004. Tampouco ficou provado que Luizinho teria ficado com os R$ 20 mil que - segundo ele - um assessor seu sacou do valeriotudo também para irrigar o caixa 2 de candidatos petistas a vereador. Mas tudo isso desmorona quando se lembra que as provas contra Romeu Queiroz eram insofismáveis e ainda assim ele foi absolvido, por ser benquisto entre os seus pares e pela força suprapartidária do lobby mineiro. E quando se viu, anteontem, a operação casada dos governistas e oposicionistas para resgatar os réus do dia, numa espécie de abraço dos afogados às avessas - não porque eles pudessem ser, afinal de contas, inocentes, mas porque os políticos resolveram firmar uma obscena jurisprudência em favor de si mesmos e dos mesmos costumes pelos quais faz tempo mergulharam no mais profundo descrédito da população. "Não se pode confundir decoro parlamentar com infração eleitoral", disse sem rebuços - e sem corar - o deputado Brant, como se não estivesse embutida no que ele chamou eufemisticamente "infração", sonegação fiscal (dos doadores dos famosos recursos não contabilizados), quando não roubo de dinheiro do contribuinte (expresso nos superfaturamentos de contratos no âmbito das estatais e da administração direta, que formam o caixa 2 dos financiadores escusos de campanhas). Fazendo coro com o aliado político, o líder tucano Jutahy Júnior decretou que "caixa 2 é crime eleitoral, punível com multa pela Justiça Eleitoral, não com perda de mandato". Então fica-se assim: quebra de decoro parlamentar foi o deputado Barreto Pinto ter-se deixado fotografar de cuecas, nos anos 1940 - ou impropriedades do mesmo calibre. Eleger-se ou ajudar correligionários e aliados a se reeleger com dinheiro sujo, para governar e fazer leis, é um mero "erro humano" como diz o presidente Lula da Silva. Não ofende as instituições políticas e se resolve pagando multa, como o motorista que estaciona o carro em lugar proibido. Depois disso, que moral resta ao PSDB e ao PFL para cobrar ética do PT e decoro administrativo do governo Lula? Não acabam de avalizar o que ele disse, para negar a existência do mensalão, que caixa 2 era uma "prática normal" na vida política brasileira? O duplo vexame da Câmara ameaça cobrir de desimportância os trabalhos do Conselho de Ética (que ainda não se pronunciou sobre quatro acusados; outros quatro aguardam decisão do plenário) e as investigações das CPIs dos Correios e dos Bingos. Sem falar no acúmulo de evidências contra o presidente da Itaipu Binacional, Jorge Semek, e o adensamento das suspeitas sobre o ministro Antonio Palocci quando prefeito de Ribeirão Preto e na campanha presidencial de Lula. Não é tudo a leite de pato?
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Entrevista:O Estado inteligente
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sexta-feira, março 10, 2006
Editorial de O Estado de S Paulo Leite de pato
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