No lugar de responder às críticas da CNBB com animosidade, má-criação e impertinência, o governo e o PT ganhariam mais se prestassem atenção às palavras dos bispos, tomando-as como aviso de quem sempre foi amigo.
Aliada tradicional do PT, a Igreja Católica nada mais fez do que advertir o presidente Luiz Inácio da Silva sobre a expiração do prazo de validade da esperança oferecida na campanha de 2002 e a impossibilidade de renovação automática desse sentimento na alma do eleitorado de forma a motivá-lo, só por isso, a dar mais 4 anos de mandato a Lula.
A CNBB, por meio de seu secretário-geral, d. Odilo Scherer, e de seu presidente, o arcebispo d. Geraldo Majella, foi cartesiana, pragmática e, para quem tem ouvidos de boa vontade para escutar, boa conselheira.
Disse que Lula não atendeu às expectativas criadas na campanha e que assistencialismo é bom, mas não basta, não leva ninguém ao crescimento, no máximo deixa tudo como está para ver como é que fica, de preferência mantendo os assistidos em estado de dívida permanente. Paga em votos, claro.
A menos que pretenda brigar com o eleitorado todo, e principalmente com aquela parcela mais articulada de sua base social, o PT faria melhor negócio ao adotar também a objetividade como critério de conduta - senão de governo, que seja eleitoral - e passar a tratar as questões à luz do dia, sem artificialismos nem tentativas de mascarar uma realidade imutável e uma contingência inexorável: Lula concorre à eleição agora já não como uma hipótese, mas na condição de tese submetida ao crivo da comprovação.
Em seguida à Igreja virão outros aliados tradicionais do PT no mesmo diapasão de cobrança de resultados. Trata-se de uma ilusão vã o governo imaginar que poderá tratar a tudo e a todos o tempo inteiro na base da propaganda e do palavrório inconseqüente.
Observe-se que as críticas da CNBB passaram ao largo de denúncias, das questões éticas, de mensalões, da agenda que o governo se preparou para combater e, para isso, vem criando antídotos.
Os bispos falaram de eficiência governamental. Puseram na mesa a parte que lhes concerne, o desenvolvimento social.Não demora outros setores se apresentarão ao debate com semelhante aflição. A Universidade, por exemplo, quererá ouvir mais que a defesa da política de cotas raciais e a oferta de vagas a estudantes da rede pública como política educacional.
E assim o setor cultural, a indústria, o comércio, os meios de comunicação, os militares, a agricultura, o País todo, interessados em saber onde foi mesmo parar o sentido do trecho inicial do discurso de posse de Lula: "Mudança! Esta é a palavra chave, essa foi a grande mensagem da eleição de outubro... Foi para isso que o povo brasileiro me elegeu presidente da República: para mudar."
Enigma
Pouco antes de sumir no turbilhão da galeria e, em plena reta final do processo de decisão para a escolha do candidato à Presidência pelo PSDB, viajar para o Canadá, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, dizia todo misterioso que o País iria se "surpreender" com a solução encontrada pelo partido, quando do anúncio final.
"Todo mundo vai perceber que nunca houve briga interna e que o jogo esteve combinado o tempo todo", disse Aécio na quarta-feira anterior ao carnaval, no que pareceu naquele dia apenas uma maneira de dar aparência de organização a um ambiente inteiramente desorganizado.
O governador deixou que se disseminasse a versão sobre a hipótese de seu nome voltar à cena como candidato em feitio de solução para o impasse Serra-Alckmin.
Se for verdade, é um lance ousado, não obstante implausível e sobretudo confuso.
Só piora
Ganha, outra vez, força a idéia de prorrogar a CPI dos Correios. Pode ser coincidência, mas cada vez que o governo começa a se movimentar para evitar o prosseguimento dos trabalhos, a CPI ganha uma sobrevida.
Foi assim no final do ano passado, quando vários oposicionistas achavam estrategicamente mais interessante acabar tudo em dezembro. O Planalto entrou na história, trabalhou com afinco e conseguiu o efeito contrário.
Agora repete-se a cena. Estava tudo combinado para terminar em março, no máximo em abril. O governo entrou em campo para evitar a prorrogação, a oposição se reanimou a continuar e o assunto está de novo em pauta.
Motivação
Quando a família de Celso Daniel levantou a suspeita de que prefeito fora morto para encobrir um sistema de corrupção na prefeitura de Santo André, o PT acusou os irmãos do prefeito morto de agir por motivação política.
Agora, diante da decisão dos parentes de Daniel de saírem do País por causa de ameaças e pressões, não faltará quem levante a possibilidade de ser tudo um jogo de cena: uma família inteira deixar seu país, suas vidas, suas carreiras, só para criar dificuldades eleitorais ao PT.