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| Os governos FHC I, FHC II e FHC III - este também conhecido como governo Lula - tiveram tons e contornos diferentes, mas a mesma figura. A característica central comum a eles é a pretensão de combinar o desenvolvimento econômico e a justiça social, como disse o candidato Geraldo Alckmin nesta semana, numa espécie de terceira via à moda brasileira. Mas o que temos tido merece mais o rótulo de travada via. A hiperorto doxia macroeconômica de um lado e o assistencialismo social do outro têm sido não propriamente contraditórios, mas inegavelmente insuficientes. Ainda se cresce pouco e se distribui mal. O primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso foi o que lhe valeu o rótulo de neoliberal. Derrubou a inflação al ta, desencadeou privatizações, ampliou abertura comercial, criou agências reguladoras. Também cometeu o con tra-senso demagógico do câmbio fixo, que mais tarde lhe custaria caro, e entrou numa se qüência de escândalos de tráfico de influência. E fez a carga tributária dar um salto, para cobrir os custos dos juros, das crises financeiras e das dívidas estaduais que assumiu, o que é tudo menos um ato neoliberal. Sua principal batalha parlamentar, a emenda da ree leição, não veio baseada numa reforma política; assim, isoladamente, se tornou mais um instrumento que desvirtua a representação democrática. No segundo mandato, o governo FHC tentou responder às críticas de que investia pouco nas áreas sociais. Lançou o Bolsa Família, divulgou estatísticas como a de que quase todas as crianças estão na escola, projetou José Serra no Ministério da Saúde. Mas as novas crises financeiras internacionais e a gestão amadora em áreas como a energética foram apagando suas luzes. O desgaste foi tão grande que, depois de picos de Roseana Sarney e Ciro Gomes nas pesquisas eleitorais, 'Lulinha paz e amor' se estabeleceu como a opção. Lem bre-se que ele agradeceu sua vitória a duas pessoas acima de todas as outras: Duda Mendonça, o marqueteiro hoje afundado em irregularida des; e José de Alencar, o empresário e vice, do PL, que tanto participaria do mensalão. Lula assumiu com José Dirceu para cuidar do braço social e Antonio Palocci do econômico. Enquanto unificava e ampliava dotações do Bolsa Família, cortejava o mercado com juros altos, superávit fiscal e bondades setoriais. Ao mesmo tempo, colhia os frutos de algumas medidas plantadas pelo governo anterior - especialmente o salto de exportações, que incluiu celulares, aço e aviões produzidos por ex-estatais - e os bons ventos da economia mundial. Passando por cima do Congresso com MPs e mesadas, conseguiu aprovar tudo que quis, inclusive aumentos reais do salário mínimo. Mas a dívida pública continuou alta, ainda que desdolarizada, os impostos subiram e a incapacidade de criar ambiente para investimentos produtivos se mostrou vasta. O cres cimento foi igualmente medíocre e a corrupção, maior. O problema dessa estratégia de pôr um pé em cada canoa é que, na busca do equilíbrio, se sacrifica a dinâmica; as canoas andam devagar e se afastam pouco a pouco, até o corpo cair na água. O contribuinte segue sustentando um governo que gasta, por ano, R$ 150 bilhões em juros e R$ 100 bilhões na Previdência. E que investe mal - sem priori dade e com desvios - em educação, tecnologia, saúde, sanea- mento, segurança, justiça, etc. Nenhuma reforma foi feita a sério; o Brasil continua atrasado em muitas áreas. É por isso, além de querer embarcar no ibope da Globo, que todo presidente ou candi dato cita Juscelino Kubitschek. JK seria o símbolo de uma conciliação entre liberalismo e social-democracia, entre abertura e intervenção, en tre 'direita' e 'esquerda'. Curiosamente, o mito da democracia moderna brasileira propõe o mesmo tipo de harmonia superficial entre contrários que se encontra em Dom Pedro II, Getúlio Vargas ou no re gime militar; ou seja, nos períodos em que se forjou a idéia de que o Estado é o autor - no caso, poetastro - da sociedade. As principais questões não são olhadas de frente, e a maioria da população continua desprovida da condição de cidadania. RODAPÉ É uma alegria ver a Bienal de Livros lotada, com muitas editoras fazendo descontos e as palestras sempre com bom público. E lá se pode comprar um livro como O Inimigo do Rei, biografia do escritor José de Alencar por Lira Neto (editora Globo), que só comecei a ler, e O Amor Esquece de Começar, de Fabrício Carpinejar (Bertrand Brasil), crônicas que nasceram em seu blog e são cheias de achados poéticos: 'Não há como discernir as mentiras das verdades, já que a raiva mistura as duas para ser mais contundente.' CADERNOS DO CINEMA É uma diversão Aquele Que Sabe Viver (Il Sorpasso), de Dino Risi, com Vittorio Gassmann, de 1962, lançado agora no Brasil em DVD. Gassmann tinha vocação para personagens expansivos por fora e melancólicos por dentro, como em Perfume de Mulher, do mesmo diretor. Nesse filme que deveria ter sido traduzido como A Ultrapassagem, ele viaja pelas estradas da Itália com um rapaz, Jean-Louis Trintignant, a quem quer ensinar a curtir a vida. Há cenas hilariantes, como quando dança com uma perua ('Modestamente', ele diz, quando ela encosta nele e sente que está 'entusiasmado'), e a bela Catherine Spaak. DE LA MUSIQUE (1) Roberto Minczuk, diretor da Orquestra Sinfônica Brasileira (além da Calgary, do Canadá), se apresentou com a Filarmônica de Londres nos EUA na semana passada. O repertório incluiu o Concerto para Violino de Khachaturian e a Primeira Sinfonia de Mahler. Joshua Kosman, crítico do San Francisco Chronicle (14/3), chamou a apresentação de impressionante e Minczuk de 'herói da noite' por sua união de sutileza e força, de expressividade e precisão. 'As cores brilhantes, vívidas de Mahler pareciam de ver tanto à personalidade da orquestra quanto à liderança de Minczuk. Ele manteve tudo belamente intacto, enfatizando a lenta acumulação de detalhes no primeiro movimento e o ritmo sombrio e sardônico do terceiro. O melhor foi o finale, que deu à noite uma conclusão inusualmente vibrante e focada.' DE LA MUSIQUE (2) A primeira audição dos dois CDs lançados simultaneamente por Marisa Monte, Infinito Particular e Universo ao Meu Redor, revelou um contraste. O primeiro não sai do esquema 'tribalistas', de canções água-com-açúcar-e-trocadilhos para fazer sucesso com a garotada nas rádios; o segundo, ainda que conte também com as parcerias de Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, tem outra qualidade musical, com os sambas de Jayme Silva, Dona Yvonne Lara e Paulinho da Viola, em belos arranjos. A voz de Marisa Monte é muito agradável em todos os registros e às vezes adquire a pureza de um sopro. POR QUE NÃO ME UFANO (1) Lula continua subindo nas pesquisas; venceria no primeiro turno se a eleição fosse hoje. Em relação a Alckmin, tem mais de 20 pontos de diferença. José Serra fez muito bem em manter a palavra de que ficaria na Prefeitura e abrir mão de uma candidatura controversa até mesmo dentro do partido, em favor de um político que, de certa forma, representa mais novidade. Alckmin tem o que mostrar? Tem. Despoluição do Tietê, finanças em ordem, investimentos em ciência e tecnologia, obras diversas como a Estação da Luz, iniciativas de gestão como as Organizações Sociais; até para responder às críticas na área de segurança ele tem números como a queda de homicídios, e ao preço alto dos pedágios a qualidade excelente de muitas estradas. Agora, se a campanha continuar a ser na linha 'sou picolé de chuchu com muito orgulho', alimentando as críticas ao conservadorismo moral de sua entourage, o tal potencial de crescimento nas pesquisas não vai passar de potencial. Sinceramente, até agora não sei o que ele pensa, qual sua visão do Brasil. POR QUE NÃO ME UFANO (2) Soube que Rita Lee sugeriu um Big Brother com os candidatos a presidente. Eles ficariam confinados e um seria eli minado pelo público a cada semana. Mas que ninguém imagine que com isso conheceríamos melhor as idéias e o caráter deles. Tal como no programa da TV Globo, só teríamos informações sobre quem não toma banho todo dia, quem é fofoqueiro, quem está a fim de quem, quem não ajuda a cozinhar e quais as patotas que se formaram. ? | ||
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