Entrevista:O Estado inteligente

domingo, março 05, 2006

CLÓVIS ROSSI O que você não lerá

FOLHA
LONDRES - A definição de reportagem que mais me seduz ouvi-a de Carl Bernstein, um dos dois repórteres do caso Watergate. Diz o seguinte: "Reportagem é a melhor versão da verdade possível de obter".
É a admissão de que 90% ou mais dos fatos que os jornais relatam a cada dia ocorrem longe das vistas de seus jornalistas. Logo, os repórteres estão condenados a juntar versões da verdade, ouvidas dos protagonistas, e organizá-las da melhor forma possível e que faça o máximo de sentido.
Esse conceito me vem freqüentemente à cabeça, muito especialmente quando se trata de cobrir viagens presidenciais, como vai acontecer a partir de amanhã, com a visita de Estado de Luiz Inácio Lula da Silva ao Reino Unido.
Cada vez que ouço o relato, pelo próprio presidente de turno ou por seus auxiliares próximos, de como foi a conversa com o presidente xis ou com o primeiro-ministro y, fico com a nítida sensação de que não estou conseguindo obter "a melhor versão da verdade".
Da última vez que acompanhei Lula em Londres (2003), entrei com os fotógrafos, sem querer (e sem poder), na sala em que conversaria com Tony Blair. Lula perguntou quantos meses durava o verão em Londres (fazia muito calor). Tony Blair e acompanhantes riram. "Dura dias, não meses", exagerou Blair, ironizando a conhecida carência de sol de seus compatriotas.
Celso Amorim, o chanceler, brincou: "Tivemos um cônsul em Londres que dizia que fora ao cinema e, por isso, perdera o verão".
Não é esse tipo de diálogo que chega aos jornalistas. Fico me perguntando se, desta vez, Blair vai perguntar: "E aí, Lula, teve ou não o tal de big monthly?". E se Lula não vai contra-atacar observando: "Que baita cascata aquela história de armas de destruição em massa no Iraque, hein, Tony?".
Se o fizerem, não saberemos. Poderosos jamais fingem que são gente. São sempre candidatos à estátua.

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