Entrevista:O Estado inteligente

domingo, março 12, 2006

CELSO MING É o sistema imunológico

O Estado de S.Paulo

Quarta-feira, esta coluna criticou um desses diagnósticos apressados sobre os males do sistema produtivo brasileiro: o de que está em curso um processo inexorável de "desindustrialização". Falta falar sobre o que fazer.

Desindustrialização é um termo genérico que está servindo para agasalhar problemas de naturezas diversas, até mesmo mau gerenciamento empresarial, e para sugerir (quando não exigir) soluções milagrosas ou inadequadas.

Um grande número de setores está perdendo mercado aqui dentro e talvez ainda mais lá fora. Algumas empresas estão sendo transferidas para a Ásia. Um número grande de postos de trabalho deixa de ser criado aqui dentro. A rentabilidade de áreas produtivas inteiras está caindo, como parece ser o caso dos têxteis e dos calçados.

Esses problemas não foram inventados; eles existem. A diferença é que alguns os preferem chamar de "off-shoring", que é a migração de fábricas ou de projetos para outras paragens do planeta; outros, de "outsourcing", que é um jeito de parar de fabricar matérias-primas e bens intermediários e se abastecer no exterior; outros, ainda, de perda de competitividade, que tem inúmeras explicações.

De qualquer forma, está em curso uma redivisão global do trabalho, de mercados e de atividades econômicas, em busca de mais eficiência e menores custos. Nessa corrida, quem chega primeiro bebe água limpa e suja a dos que vêm depois.

No Brasil, quem insiste na idéia da desindustrialização não pretende ficar apenas no diagnóstico. Quer soluções mais vagas ainda, como "mudar radicalmente essa política econômica equivocada", desvalorizar a moeda e baixar imediatamente os juros, ou então, instituir um confisco sobre exportações de commodities, para constituir um fundo em defesa das indústrias que enfrentam hoje os dramas da sobrevivência. Ao mesmo tempo, os lobbies trabalham por uma política de proteção e defesa geral e irrestrita da indústria, com direito a hospital no BNDES e tudo o mais, como nos tempos áureos da substituição de importações.

Estão todos no camarote do transatlântico e a água vai entrando a golfadas por debaixo da porta. E aí, o que fazer? Chamar uma faxineira que se encarregue de enxugar tudo, com pano de chão, rodo e balde? Se for apenas o rompimento de um cano hidráulico, então a recomendação é entregar tudo a um encanador competente. Mas, se tudo aconteceu porque houve uma trombada com um iceberg e há um rasgão de 20 metros no casco do navio, então é melhor largar tudo e procurar um colete salva-vidas.

A tarefa é muito maior do que simplesmente dar um nome novo à doença e atacar os sintomas (juros escorchantes, câmbio baixo demais, carga tributária insuportável). Mais eficiente seria focar o problema de fundo, que é a gastança do setor público, a mesma que exige uma dívida alta, puxa os juros para onde estão, põe em marcha uma gigantesca máquina de arrecadar impostos. É isso que tira competitividade da indústria.

Se essa é a doença, é preciso refortalecer o organismo e o procedimento passa a ser emprender urgentemente as reformas: da Previdência Social, do sistema tributário e do Judiciário.

Esses não são os únicos problemas que tiram competitividade do setor produtivo. A infra-estrutura, quando existe, é uma calamidade; as regras de jogo são pouco confiáveis (falta de sistema regulatório); os investimentos são insuficientes; e tal.

Cada doença pede seu tratamento. O que falta não é mais proteção; é, antes, fortalecimento do sistema imunológico.

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