A campanha eleitoral, e este período de pós-campanha que estamos vivendo, ainda muito radicalizado politicamente, revelaram a importância do uso da internet como instrumento de mobilização e de discussão. Para o jornalista Rosental Calmon Alves, professor de comunicação da Universidade de Austin, no Texas, e um dos maiores especialistas no assunto, a revolução digital tem como impacto mais importante a transferência de poder dos meios de comunicação de massa para os indivíduos.
Essa transferência de poder significa, para Rosental, que os cidadãos “dependem menos dos meios de comunicação de massa, pois têm agora acesso a uma infinidade de outras opções para buscar informação e entretenimento”.
Entre essas opções, destacamse os produtos criados pelos mesmos indivíduos, através de blogs, de redes sociais (como Orkut e MySpace), do correio eletrônico (email), dos torpedos (instant messaging).
Nos dados demográficos do Orkut, dos mais de 4,8 milhões de usuários cadastrados na rede, o Brasil está em primeiro lugar, com 66,49% (cerca de 3,16 milhões de membros). Em segundo estão os Estados Unidos, com 8,52%, e, em terceiro, o Irã, com 6,72%.
Durante a campanha eleitoral, segundo pesquisa de Bernardo Sorj, da UFRJ, no Orkut, espaço típico de jovens de classe média, predominaram as comunidades anti-Lula. Os membros das principais comunidades antiLula totalizavam mais de 600 mil em outubro. As principais comunidades Orkut pró-Lula/anti-Alckmin passavam pouco dos 100 mil.
Segundo Rosental, “há uma gigantesca e rica conversação entre milhões e milhões de indivíduos, o que até há poucos anos não era possível”. Ele ressalta que a transferência de poder para os indivíduos não se restringe apenas ao caso dos meios de comunicação de massa, está acontecendo em muitos negócios e, obviamente, na vida política. A palavra-chave aqui é “desintermediação”.
A revolução digital está promovendo um fuzilamento virtual de muitos intermediários, ao dar aos indivíduos o poder de ir diretamente às fontes de produtos (e-commerce), de informação, de entretenimento e, cada vez mais, de engajamento na vida política.
O mais importante para Rosental é o crescimento rápido da penetração de acesso à internet por banda larga.
“Além de facilitar a navegação pela rede, a banda larga abre todo um mundo novo de multimídia, como o uso de vídeo nos sites e uma intensa troca de vídeos através de mensagens entre os usuários”. Além disso, os blogs continuam crescendo de forma extraordinária, tanto em número, duplicando a cada 18 meses, como de audiência, ressalta Rosental.
Outro interessante fenômeno, muito presente na campanha deste ano, é o marketing viral, que nasceu das possibilidades de rápida disseminação de informações na internet, da mesma maneira que no mundo real se espalham boatos e rumores.
Rosental ressalta que as campanhas políticas, obviamente, constituem um campo fértil para isso, mas para ele “não está claro se notícias plantadas e rumores podem realmente sobreviver na selva virtual, pois os cidadãos estão muito mais ativos e muitos estão vacinados contra boatos”.
Mas a disseminação viral é um fenômeno inegável e importantíssimo, diz ele. “Um vídeo ridicularizando um político ou mostrando um clipe onde ele ou ela foi mal pode ter uma repercussão enorme.
Muitas vezes, as táticas de guerrilha de marketing viral querem mesmo é chegar à mídia tradicional, para atingir assim o resto do público, que não tem acesso à internet”. E também ganhar a credibilidade que os meios tradicionais ainda detêm. No caso do Brasil e de países com baixa penetração da internet, Rosental diz que há gente que não acredita que a rede possa realmente ter tanta importância para as campanhas eleitorais.
Mas um caso já clássico entre nós é o do referendo das armas, quando o lobby armamentista usou muito a internet, com resultados positivos para seus interesses. Para tentar avaliar o impacto do fenômeno na campanha presidencial deste ano, os professores Bernardo Sorj e Mauricio Lissovsky, da UFRJ, fizeram uma pesquisa que ainda não tem resultados conclusivos.
Sorj fez estudo semelhante durante a campanha do referendo sobre a venda de armas e descobriu na “campanha paralela” pela internet que os marqueteiros estavam usando a ferramenta para fazer propaganda não-oficial.
Os e-mails, como voltou a acontecer na campanha deste ano, são muitas vezes assinados por “personagens” inventados por assessores e publicitários para espalhar boatos a favor e contra candidatos, envolvendo órgãos de imprensa e instituições oficiais. As notícias verdadeiras se misturam com as falsas, o que pode tirar a credibilidade do noticiário da rede, mas tem influência em larga escala.
Como Rosental ressalta, essa repercussão informal não vale apenas por sua audiência, ou seja, pelo número de usuários que ela envolvera.
“Não é uma questão quantitativa, mas sim qualitativa.
É uma repercussão interativa, uma discussão aberta e participativa de pessoas interessadas em política, que talvez sejam poucas, mas têm um grande poder ao se engajar nas campanhas através de um meio participativo como a internet”.
Segundo o Pew Internet & American Life Project, instituição americana que estuda o impacto da internet, 57 milhões de internautas dos Estados Unidos lêem blogs diariamente. Eles são abastecidos por cerca de 1,2 milhão de novos conteúdos por dia, ou uma média de 50 mil por hora. No Brasil, dos quase 30 milhões de internautas, estima-se que algo como 25% vasculhem blogs todo dia em busca de informação ou entretenimento.
Entrevista:O Estado inteligente
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