Entrevista:O Estado inteligente

sábado, setembro 09, 2006

Zuenir Ventura Bárbaros de nós mesmos

Na sua comovente carta ao jornal, relatando a dor “avassaladora, lancinante” pela perda da filha de 17 anos, Gabriel Padilla conta que viu os rastros da tragédia antes mesmo de chegar ao local exato onde jaziam os corpos dos cinco jovens mortos no acidente da Lagoa: “A violência da colisão não deixava dúvida do excesso de velocidade, da imprudência, certamente da bebida.” Lembrei-me do que escrevi aqui há cerca de um ano, quando essa mesma mistura levou um rapaz alcoolizado a atravessar com seu bólido o canteiro da Vieira Souto para matar o aposentado Cláudio Moniz (e continuar impune até hoje): “Experimente parar de madrugada em frente a uma boate e observe o número de jovens que saem embriagados e vão dirigir seus carros. O que esperar de alguém ao volante de uma poderosa picape, depois de ingerir sete cervejas, quatro doses de vodca e uma de uísque, que foi quanto o estudante Ioannis Papareskos bebeu, conforme se apurou conferindo sua comanda de consumo na boate?” Até quando os jovens vão continuar matando e se matando no trânsito à média de um por dia? Em meio ao pranto, o pai de Ana Clara responde: “enquanto não houver consciência de serem prudentes e responsáveis na direção”. A juíza da 1aVara da Infância e da Juventude, Ivone Caetano, responsabiliza as famíliaspelos acidentes: “Os pais não vigiam seus filhos, nem checam suas informações.” Mas nem sempre a tarefa é fácil.

Às vezes eles escorrem como água pelas mãos, como disse ainda Padilla, que sempre procurou orientar seus filhos contra os riscos do trânsito.

Em geral, nos chocamos e nos escandalizamos apenas quando o número de mortos ultrapassa a rotina. Falamos então, como das outras vezes, em aumentar a fiscalização, promover campanha educativa, estimular a prevenção e buscar os culpados. O que há de novo agora é que os parentes das vítimas estão se mobilizando para transformar esse acidente num exemplo e numa lição. “Espero que toda essa tristeza sirva de alerta e ajude a evitar novas tragédias”, disse Sólon Lemos Pinto, padrasto de Felipe Tavares de Azevedo, que, triste ironia, não gostava de carro nem de dirigir.

Também a mãe de Ana Clara, a professora Maria Vitória Padilla, vai fazer palestras educativas na escola em que leciona, transformando a sua dor numa ação pedagógica. De fato, é fundamental que a sociedade aprenda desde cedo que a violência do crime e a do trânsito são os nossos dois piores flagelos urbanos.

Com a diferença de que no primeiro caso somos vítimas dos bandidos; no segundo, de nós mesmos. Somos os nossos próprios assassinos, os bárbaros de nós mesmos, e sem a desculpa da miséria ou da exclusão social.

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