O GLOBO
Ogoverno Lula está aumentando os gastos na base de 10% reais ao ano. O projeto de Orçamento para 2007 prevê nova elevação das despesas. O programa para o segundo mandato promete novos aumentos reais para o salário mínimo, logo, ampliando o déficit na Previdência, e outras contratações de funcionários públicos. Ainda nesta semana, a Câmara dos Deputados aprovou medidas provisórias que elevam salários de várias categorias do funcionalismo e abrem espaço para novas contratações.
No outro lado desta história, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, comenta que o déficit da Previdência está passando dos limites e observa, en passant, que algo precisa ser feito”. O secretário do Tesouro, Carlos Kawall, assegura que não há crise à vista, mas concorda que a expansão dos gastos não pode continuar no ritmo atual. O ministro Bernardo diz, a propósito, que o Orçamento de 2007 será cortado depois de aprovado.
Para completar a rodada de contradições, empresários que jantaram com Lula na última segunda-feira garantiram que o presidente comprometeu-se com estes objetivos: redução dos gastos correntes de modo a abrir espaço para uma reforma tributária com redução de impostos; e reforma trabalhista, de modo a reduzir os custos da mão-de-obra.
Nada disso combina. Assim, onde está a verdade? A maioria dos analistas econômicos acredita que está na expectativa de reforma e contenção dos gastos públicos. O projeto de Orçamento de 2007 e o anúncio de novas bondades seriam “mentiras de campanha”, toleráveis como o caixa dois.
O ministro Paulo Bernardo reforça essa interpretação quando diz que certos temas — corte de gastos, reforma da Previdência — são polêmicos demais para serem tratados em época eleitoral. Mas a realidade dos números tornaria obrigatório o arranjo das contas públicas depois das urnas.
Um dos empresários que jantaram com Lula, Josué Gomes da Silva, da Coteminas presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil, está seguro de que o próximo governo não apenas fará reformas como também avançará nos acordos de livre comércio com União Européia e, sobretudo, Estados Unidos. Muitos setores da economia brasileira, como o têxtil, estão ameaçados de perder mercado porque diversos países concorrentes estão fechando esses acordos bilaterais de comércio com os maiores centros consumidores, o americano e o europeu.
Mas assim como a intenção de reforma da Previdência e corte de gastos se opõe ao que o governo anda fazendo, também a disposição de fechar acordos comerciais seria uma guinada radical na diplomacia de Lula. Esta desprezou solenemente os acordos feitos por alguns países latinoamericanos com os EUA, definindo-os como “acordinhos”. Para a visão esquerdista da diplomacia atual, acordos com os EUA constituem uma “capitulação”. Enquanto isso, empresas instaladas no Brasil mudamse para países que têm acordos para exportar para os EUA pagando menos impostos.
Essa realidade acabaria se impondo às ideologias e o Brasil partiria para posições mais pragmáticas, tal é a expectativa de empresários que estiveram com o presidente.
Portanto, há aqui uma interpretação comum: o governo Lula, no segundo mandato, vai acabar fazendo coisas diferentes das que está fazendo e das quais muitos de seus integrantes e de sua base política não gostam. E as fará pressionado pela realidade, do mesmo modo que, no primeiro mandato, aumentou o superávit primário para pagar juros e manteve o regime de metas de inflação, com BC independente e juros elevados, coisas que horrorizavam o velho PT.
Por outro lado, membros do governo, do PT e o próprio Lula têm afirmado que o primeiro mandato foi um período de sacrifícios, que teria exigido ações atípicas. Isso sugere que, no segundo mandato e consagrado com enorme votação, Lula e seu pessoal podem muito bem achar que chegou a hora de fazer “do nosso jeito”.
Esse jeitão, deste ano, não comporta reforma da Previdência, mas aumentos das pensões. Não inclui reforma do setor público, mas contratações de servidores e ampliação da máquina. Não prevê programas sociais com foco específico, mas extensão do Bolsa Família assistencial. Não permite corte de gastos e, portanto, redução da carga tributária. Nem sequer imagina acordos comerciais com os EUA.
Inclui combate à inflação, o que pode ser feito com juros altos, se a coisa voltar.
há compromisso de superávit primário de 4,25% do PIB, o que pode ser obtido com mais arrecadação e alguma “martelada” nas contas públicas. Se o setor externo ajudar um pouco, dá para levar esse jeitão populista-estatal-nacionalista. Mais do mesmo de hoje. Não cresce, mas dá voto.
Entrevista:O Estado inteligente
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