Entrevista:O Estado inteligente

domingo, setembro 10, 2006

Europa acorda, Brasil hiberna

ESTADO

Alberto Tamer*

Enfim, uma notícia boa da Europa. Após seis anos de semi-estagnação e crescimentos pífios, o PIB europeu deverá crescer 2,7%, ante as médias de 1% e 1,2% dos anos anteriores. A primeira informação divulgada há dois dias, de 2,5%, referia-se apenas aos 12 países da Eurozona. Acrescentado os do Leste Europeu, que passaram a integrar a comunidade, eleva-se para 2,7%. São dados oficiais da Comissão Européia recebidos com um suspiro de alívio. É resposta tão esperada ao apelo dos Estados Unidos, inclusive persistente e incisivo de Greenspan, que a União Européia (UE) viesse em seu socorro para substituí-lo, em parte, na sustentação do crescimento mundial.

Greenspan, todos os economistas e autoridades de Washington sabiam que os EUA não poderiam continuar crescendo acima de 4% por mais tempo. Contavam com a China, sim, mas era o único país, mesmo com um desequilíbrio preocupante, a manter um crescimento do PIB mundial em torno de 4% e 5%. E não vai manter mesmo, neste ano nem em 2007.

A Comissão Européia, em dados divulgados nesta sexta-feira, mantém alguma cautela, temendo os efeitos do preço do petróleo, com um euro valorizado, e os desequilíbrios mundiais decorrentes da Ásia e a Rússia crescendo enquanto a maioria dos outros países está marcando passo.

BRASIL HIBERNOU

Aqui, nem convém falar do Brasil. Hibernou indiferente à miséria, à pobreza ou à simples sobrevivência. Meu caro leitor, perdoe-me o desabafo, mas já estou cansado de fazer comparações e simplesmente repassar para os leitores - e aqui incluo o governo - o que os outros estão fazendo de certo e nós de errado, porque os outros crescem, passam na nossa frente e nós ficamos não só parados, mas recuamos fazendo exatamente o oposto do que os outros fazem.

Não acontece nada, nunca acontece nada na passividade que domina a sociedade. Só restam os pobres semi-analfabetos que não têm voz e também se acomodaram na sua pobreza.

Vamos mudar de assunto, certo? Você, que não desanimou, deve estar mais irritado e triste do que eu. Afinal, é o nosso país!

O QUE DIZ A UE

A comunidade européia, informa-me este dinâmico e jovem correspondente do Estado em Genebra, Jamil Chade, estava meio desanimada com o desempenho dos primeiros meses, mas, com os últimos resultados, reviu a previsão de crescimento de 2,3% para 2,7%. Para terem uma idéia, o PIB da zona do euro, os 12 países mais desenvolvidos do bloco, havia ficado em 1,4% no ano passado, uma miséria considerando um PIB de US$ 11 trilhões, apenas alguns pontos abaixo dos EUA. E tinha sido assim nos últimos cinco anos.

A economia européia é vital para o crescimento econômico mundial porque representa 18% do comércio mundial, também semelhante aos 19% dos EUA. O declínio foi simplesmente brutal, pois em 1963, por exemplo, os europeus eram semilíderes do comércio mundial. Quanto? Nada menos que 27%!!! Foi um despencar sem-fim no desastre dos desentendimentos internos, com a França, como sempre, discordando de todos, como lidera agora a discórdia em torno dessa negociação que ainda chamam de Doha.

ALEMANHA AJUDOU

A Alemanha, que ainda hoje carrega o peso da união, a absorção da estraçalhada parte oriental, cuja economia fora primeiro sugada e depois arrasada pelos comunistas, num processo inédito de colonialismo selvagem que eles tanto condenavam - os grandes libertadores do operariado que só o empobreceram -, voltou a crescer neste ano. (Eu estive varias vezes em Berlim Oriental e vi. Saindo das fronteiras do muro violentador, parecia ainda a Berlim do fim da 2ª Guerra.)

Uma das principais novidades do relatório da Comissão Européia para até o fim do ano, informa-me Jamil Chade, é que, depois dos primeiros meses de retração, a economia está voltando a crescer. A estimativa da comissão para este ano é surpreendente: 2,2%. (A revista britânica The Economist, que colhe semanalmente dados de todas as fontes, registra 2,4% no segundo trimestre e prevê 3% até o fim do ano. Um ou outro é um fato novo.) O dínamo da economia européia voltou a funcionar. O país que espanta é a Espanha. A Comissão Européia prevê nada menos do que 3,5%.

A Polônia, outro país que está dando um verdadeiro show de atração de recursos e investimentos diretos (Ah! os eternos investimentos que sumiram do Brasil...), está superando todos os demais e ainda, de acordo com a comissão, deve crescer, acreditem, 5%. E foi lá que começou a revolta pela liberdade!

A Itália, que, juntamente com a Alemanha, estava estagnada nos primeiros meses do ano, também se anima naquela sua eterna confusão política e onde predomina, como aqui, a informalidade, deve continuar em marcha lenta, 1,7%.

REINO UNIDO SOLITÁRIO

O caso do Reino Unido é especial. A expansão do PIB estava, no segundo trimestre, em 2,6%, deve terminar o ano com um pouco mais, entre isso e 3%, mas é o único país da União Européia cuja economia vem se expandindo anualmente. Não afundou na estagnação dos seis anos passados e é o terceiro maior receptor mundial de investimento direto.

Os britânicos há muito se distanciaram da Europa Continental, não aderiram ao Euro e voltaram seu comércio para o Atlântico dinâmico Nafta (EUA, Canadá, México) e nem querem ouvir falar de um tal de Mercosul ou aquele outro que o generalíssimo Hugo Chávez quer criar para toda a América do Sul.

Vocês sabem quanto a América Latina(e aí incluo o México e os países centrais) representa do comércio mundial? 5%! E a maior parte disso é o petróleo que o generalíssimo, muito esperto, continua exportando para os EUA (80%) simplesmente porque é um óleo pesado que só algumas refinarias americanas estrategicamente ali instaladas podem processar.

Resumindo, após seis anos de paralisação, a Europa se reanima, vai até importar mais do Brasil, este nosso país que continua hibernando à espera, juro, não sei do quê.

at@attglobal.net

Arquivo do blog