| O Estado de S. Paulo |
| 12/9/2006 |
As cabeças bem pensantes do País - algumas delas pertencentes a políticos de governo e oposição - vivem cobrando, com toda razão, a elevação do nível e o aprofundamento do debate político para além da troca de desaforos, do bate-rebate de acusações e frases feitas. Mas quando aparece alguém abrindo algumas cartas na mesa para uma boa discussão política, as reações são de uma infantilidade atroz, de resistência ao raciocínio, numa preferência nítida pela ligeireza de interpretações a traduzir como que um receio de concordar pela necessidade de brigar para demonstrar engajamento e tirocínio. A carta do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao PSDB, convidando o partido a refletir sobre erros e acertos do passado recente a fim de reorganizar a agenda do futuro iminente, acabou chamando mais atenção pelo que continha de velho do que pelo que propunha de novo. Das sete páginas do documento, menos de duas são dedicadas aos assuntos que acabaram tendo destaque e provocando reações exacerbadas. Só se prestou atenção à avaliação sobre a conduta ética do atual governo, os erros do PSDB como oposição nos últimos quatro anos e o implícito reconhecimento da derrota eleitoral. Nesse trecho inicial, Fernando Henrique não diz uma única novidade, limitando-se a repetir o já sabido e por muitos - inclusive por ele - já exaustivamente dito. Fez uma espécie de introdução para situar o leitor sobre o que falará e a respeito de que cenário tratará. Daí em diante, disserta sobre variadas questões, tendo como ponto central o alerta a seu partido para que retome o exercício da reflexão - forte na origem e abandonado com a conquista do poder - e se dedique a um processo de reconstrução do valor da política e da reaproximação entre os mundos público e privado (vale dizer, Estado e sociedade), cuja separação hoje se expressa no horror que a pessoas em geral nutrem pela política. É ruim a discussão? É, como avaliam os próprios companheiros de partido de Fernando Henrique, "desagregador" abrir o debate, como está posto no documento, sobre a necessidade de uma reforma política não sob a ótica da justificativa por "erros estruturais", mas na perspectiva do esclarecimento da população sobre o significado concreto de temas como o voto distrital? Os adversários foram rasos na reação - preferindo sempre atribuir tudo "ao desespero" pelo desempenho ruim no lugar de entrar no embate das idéias -, mas neles até se compreende a necessidade de alimentar o contraditório eleitoral. Agora, nos aliados e nos, digamos assim, independentes, surpreende a ligeireza da interpretação de que a carta de FH tenha o condão de abrir crise na campanha à eleição presidencial e a avaliação de que o ex-presidente se manifestou em hora errada. Primeiro, o nome da crise não é fulano nem beltrano. É conseqüência de vários dos pontos que o ex-presidente aborda no documento e solenemente ignorados por causa dos ressentimentos em torno da figura dele e também por uma vocação generalizada à simplificação. Prestar atenção ao que está escrito nas sete páginas dá trabalho e, pior, corre-se o risco de acabar concordando com Fernando Henrique, a quem se critica quando cala e quando fala. Quanto ao momento, a campanha eleitoral é o "gancho" natural para a abordagem de assuntos de natureza política. Alguns tucanos acharam que o ex-presidente "atrapalhou" Geraldo Alckmin, como se estivesse nas mãos dele esse poder. Prefeririam, talvez, que se omitisse ou tergiversasse, falando artificialmente na possibilidade de um sucesso hoje para lá de remoto. Fernando Henrique Cardoso nem sempre é adequado em suas manifestações. Não o foi, por exemplo, quando rompeu a promessa de se impor uma quarentena depois de deixar a Presidência e, já no primeiro ano de governo do sucessor, falava além do aceitável para o momento. Agora, entretanto, deu uma opinião, propôs uma discussão e o fez na condição de ex-presidente que não pretende abandonar a vida política. Aliás, como fazem os outros ex, nem sempre com propostas à reflexão. Há os que adoram empregos em embaixadas, os que se dedicam à prestação de serviços ao poderoso de plantão e os que perderam, com o impeachment, a moral diante da Nação. "Dura lex" Partidos e políticos declararam arrecadações de campanha em valores bem superiores aos esperados nestes tempos bicudos e bem mais elevados que os declarados em eleições anteriores. É o típico caso em que se aplica uma frase do diretor da Polícia Federal, Paulo Lacerda: "O sujeito, quando é infrator, não vira honesto, fica com medo." Coisas Se para o governador Cláudio Lembo escrever carta é "coisa de velho", para uma parcela considerável da humanidade a expressão usada por ele e a depreciação do ato de escrever são coisas de gente sem educação. |
Entrevista:O Estado inteligente
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terça-feira, setembro 12, 2006
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