ESTADO
Com as sutilezas habituais, a Ata do Copom divulgada ontem pelo Banco Central deu algumas justificativas para o corte nos juros básicos (Selic) de 0,5 ponto porcentual, maior do que o esperado, determinado na reunião de 30 de agosto. E deu a impressão de que procurou reforçar seu também habitual conservadorismo com argumentos novos.
Apenas para situar melhor quem eventualmente não tenha acompanhado de perto a ação do Copom, a decisão tomada na última semana de agosto foi reduzir os juros básicos de 14,75% para 14,25% ao ano. O Banco Central vinha dando ênfase especial aos passos seguintes. Insistia em que o afrouxamento dos juros viria "com maior parcimônia", dando a entender que seria menos generoso na distribuição da ração de dinheiro para o mercado. Por isso, imediatamente antes da reunião, as apostas do mercado se concentravam no corte de 0,25 ponto porcentual. No entanto, veio um corte maior. Essa diferença entre o que o mercado esperava e o que aconteceu de fato deixou a impressão de que o próprio Banco Central foi surpreendido pela melhora dos fundamentos da economia ou, então, que não administrara adequadamente as expectativas do mercado para o que iria acontecer.
A ata registra o fato de que a inflação de julho ficara mais baixa do que o esperado e, mais do que isso, que "se consolida um cenário benigno (...), com potenciais repercussões sobre o comportamento dos preços nos anos à frente". Anota que o consumo avança mais rapidamente do que a produção industrial, sem mencionar que o abastecimento possa estar sendo preenchido com aumento das importações e, portanto, com mercadorias mais baratas do que as produzidas internamente, fator que deve estar contribuindo para conter a inflação.
Também enfatiza a melhora das condições externas: o medo já não é mais o de que os juros americanos tenham de subir, mas que a economia esteja em recessão. Este é um fator que tende a pressionar para baixo os preços das commodities, com impacto positivo para a inflação brasileira. Mesmo que não estivesse acontecendo esse ambiente mais favorável lá fora, a maior resistência da economia brasileira a choques externos já poderia dispensar reforço adicional dos juros, ao contrário do que acontecia há meses.
Desta vez, a ata do Copom fez análise mais aprofundada para a situação do mercado do petróleo, fator que vinha pressionando fortemente a economia mundial. Lá ficou reconhecido que os preços internacionais estão em recuo, mas que persistem a volatilidade e a incerteza.
E é nesse capítulo que, pela primeira vez neste ano, o Banco Central entendeu que devesse preparar os espíritos para um reajuste nos preços da gasolina no mercado interno ainda em 2006 e para seu impacto imediato sobre a inflação.
Essa observação vem na contramão do próprio movimento dos preços internacionais nas duas últimas semanas. Depois de terem atingido o pico de US$ 78 por barril de 159 litros, os preços internacionais resvalaram para os US$ 66. Isso sugere que eventuais reajustes dos preços internos dos combustíveis, a entrar em vigor depois das eleições, possam ser inferiores a 5%. Se isso se confirmar, o impacto sobre a inflação interna não deverá ser relevante, especialmente depois de conhecidos os números de agosto, que não estavam disponíveis na última reunião do Copom.
Logo na abertura da ata, o Banco Central reconhece que uma inflação bem mais baixa do que a esperada neste ano produz um arrasto menor sobre o comportamento dos preços. Isso, em princípio, poderia justificar maior agressividade no corte dos juros. No entanto, o Banco Central preferiu enfatizar a necessidade "de atuação cautelosa" e que "a preservação das importantes conquistas obtidas no combate à inflação (...) poderá demandar que a flexibilização adicional da política monetária seja conduzida com maior parcimônia".
Desta vez, a evocação da palavra "parcimônia" parece ter sido feita mais com objetivo de manter a coerência anterior do que para ser entendida como prenúncio de que tenha acabado a fase de corte de 0,5 ponto porcentual.
Entrevista:O Estado inteligente
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