Entrevista:O Estado inteligente

domingo, setembro 10, 2006

As eleições num boteco do Leblon João Ubaldo Ribeiro

ESTADO


- Como é que é, animado com a eleição, já sabe em quem vai votar?

- Animado? Tu já viu alguém animado com esta eleição? Eu lembro isto aqui nas outras eleições, a esta altura já estava tudo fervendo, tu te lembra que o Saraiva quis cobrir o Ferreirinha de porrada porque o Ferreirinha disse que o Lula alisou o cabelo porque achava que não ficava bem uma pessoa amulatada ser presidente da República?

- Lembro, lembro, a gente até apartou. O Saraiva é lulista religioso, não se pode dizer nada do Lula na frente dele.

- Não se podia. Agora mudou bastante. Quer dizer, continua eleitor do Lula, mas, quando você quer abordar o assunto, ele finge que não ouve e começa a esculhambar a diretoria do Vasco, ele agora se dedica somente a ser vascaíno doente, é lulista só por vício mesmo, nada de vibração.

- Bem, em última análise ele tem razão. Lula é o melhor candidato mesmo. Era o melhor candidato na eleição que ganhou e continua a ser agora.

- Não, tu tá brincando. Tu tá achando que este governo...

- Eu não tou falando de governo, tou falando de candidato, candidato eficiente, que sabe se eleger.

- Tu acha?

- Acho e, se tu não acha, é porque não sabe ou não quer ver. Ele não entende xongas de governar merda nenhuma, não sabe nada disso, nem quer saber. Agora, candidato, meu amigo, vamos nos curvar, o homem é bom.

- Bem, de fato dizem que ele tem carisma, etc. Mas...

- Frescura de carisma, não é nada disso. É que ele sabe fazer campanha. Ele é esperto e neguinho já foi na dele. Não pense que ele acha que está enganando ninguém, não. Ele tá sabendo que todo mundo tá sabendo qual é a dele, o brasileiro aprecia a boa malandragem, o cara safo, que diz qualquer coisa e continua o rei dos inocentes. Qual seria o outro candidato a presidente que apoiaria dois candidatos ao governo do mesmo Estado, ao mesmo tempo? Só ele. E numa boa, malandro, quem quiser que vá reclamar, que ele faz um esporro, chama de elite, diz que não é nada disso e se queixa de injustiças, ele é um gênio, talvez o famoso gênio da raça. E o povo está com ele.

- É, nisso eu concordo, o povão está com ele.

- O povão só não. Todo mundo, porque ele joga com pau de dois bicos, eu já falei que ele é esperto, o brasileiro aprecia isso. Veio de baixo, se fez na vida sem trabalhar nem estudar, é um exemplo, neguinho entrou na dele. Do lado do povão, é isso mesmo, vem o bolsa-família, quebra o galho, isso aqui vira a Legião Brasileira de Assistência em forma de país e ninguém incomoda mais. Todo mundo no interior - e nem só quem precisa - já está com o rango e a cachacinha garantida, eles entraram na dele. Então ele joga esse bico pro lado dos pobres e pro lado dos ricos, que ele não é besta, ele segura a barra e estão todos os bancos felizes e satisfeitos, eles também tão na deles. Ele pisca o olhinho pros dois lados, ele é danado e um cara-de-pau fora de série, brasileiro gosta disso, ele é esperto, se virou muito bem pra subir na vida.

- Não, pode sair na eleição. Há quem ache que o Alckmin tem chance.

- Tudo é possível neste mundo, mas eu acho que o Alckmin ganha apertado no bairro dele. Agora, aliás, é Geraldo, não é? É, Geraldo. E ele com aquela cara de Salustiano, chefe da contabilidade-geral... Salustiano, não, ele é mais Sinval, Durvaltércio..., chefe da contabilidade da rede autorizada Brastemp em Araraquara, com grande futuro na empresa. Ele pode ser até um grande administrador, mas Geraldo não cola, e ele fala como contador. Quando ele está indignado, acho que a temperatura se inflama até até uns 36 graus e a pressão dispara a 12 por 8. Entenda, estou falando de candidato. Com Lula não tem pra ninguém, meu camaradinha. Tá todo mundo vendo ele fazendo tudo o que sempre esculhambou nos outros numa boa, na malandragem, o brasileiro aprecia isso. O pobre está achando que está levando a melhor e o rico sabe que está levando a melhor. Ele é um gênio.

- Então tu vai votar nele.

- Não, conclusão apressada. Eu só disse que ele é o melhor candidato. Isso não significa que eu vou votar nele.

- Heloísa Helena!

- Na mosca. Essa aí mesmo.

- Engraçado, eu também simpatizo com ela, mas, agora que ela virou candidata, tou achando ela assim meio como jogador fora da posição, eu gosto mais dela lá dizendo desaforos no Senado do que como candidata.

- Não, como candidato ninguém chega perto do Lula. Meu caso é especial. Aliás, era até para eu não contar, mas, afinal, não é crime nenhum e o Brasil de hoje impõe muita revisão de conceitos. Eu vou lhe ser sincero: eu vou votar na Heloísa Helena por tesão. Eu não posso ver, que fico maluco. Tu te lembra da vez em que ela apareceu no Senado de saia, tu viu as pernas dela? Aaaaai! Falsa magra, cara, de oculinhos redondos e aquelas pernaças! Eu não posso ver! Tu já pensou uma mulher daquelas... Aaaaaaai! Agora mesmo está me dando uns arrepios aqui.

- É, na avaliação eu acho até que concordo, eu e muitos caras. Grandes pernas. Mas eu acho que ia amarelar, não ia conseguir encarar, eu tenho medo de mulher poderosona. E, além disso, mesmo ela sendo isso tudo, você acha certo votar numa candidata a presidente somente porque acha ela um tesão?

- Meu caro compatriota, na atual conjuntura nacional, você é capaz de me apresentar alguma razão melhor?

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