Se fosse um partido com boas chances de disputar a Presidência, estaria comemorando os resultados trazidos pelo última Datafolha: Lula perde ou ganha no 2º turno por até nove pontos percentuais. José Serra ganharia de Lula, por sua competente visibilidade nacional. Geraldo Alckmin ficaria a apenas nove pontos do presidente, mas nem começou a povoar o imaginário do distraído eleitor nacional.
Em outubro, teremos uma disputa republicana. Lula é o favorito, mas sem essa do "já ganhou". O desempenho da economia e os fatos da política trouxeram de volta as chances de qualquer bom oponente, desde que se expresse bem e demonstre ter experiência de governo, boas idéias e, sobretudo, honestidade de propósitos.
No PSDB, as opções são claras: lançar um prefeito ou um governador, podendo também ser um "ex". Sendo prefeito, em meio de mandato, não passaria por prova eliminatória. Quem quer ser presidente precisa estar preparado e disponível para ser eleito. Prefeitos em pleno mandato, como Cesar Maia ou Serra, descumpririam seriamente o seu pacto eleitoral e o programa de trabalho prometido. No Brasil, temos que começar a valorizar o trabalho cumprido à risca e a obra entregue tal como combinada. Gestor que larga suas responsabilidades no meio do caminho é mau exemplo.
Cerca de 25% a 30% do eleitorado continuará decididamente indeciso até o último jogo da Copa. Alckmin tem muito chão pela frente para mostrar sua cara. Tem estampa, um currículo político completíssimo, governou com pulso e seriedade o maior Estado do país, é maduro sem ser velho e tem uma família bonita, para as fotos. O que lhe falta, então? Como sempre, o projeto, bem empacotado, se possível num discurso vibrante, que empalme o sonho eterno do povo, de prosperidade e liberdade.
Aqui começam os desafios do candidato. Tucanos são aves de toca. É preciso desentocar o programa para além das expressões de efeito, como ser bom gerente ou ser bom de papo. É preciso ser bom de Brasil. Esse é o desafio de Alckmin, filho de "Pinda". A calorosa Pindamonhangaba, cravada no sopé da Mantiqueira, é base para a escalada serrana que leva a Campos do Jordão e à divisa de três Estados essenciais para a política brasileira: Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro.
Para ganhar, Alckmin tem que adotar essa visão triangular de um projeto nacional, com o horizonte do alto da montanha que o leva até Minas. JK, tardio herói mineiro, fez o muito que fez porque, em sua época, o presidente não era tão patrulhado, quer pelos que nos autolimitam a ambição de crescer, quer pela cláusula pétrea do juro alto, que virou o novo totem da religião brasiliense, que sacrifica empregos e renda no altar da purificação do financismo nacional.
Mais que isso: um péssimo time perde até com bons jogadores. É o caso do Brasil público, que consome 40% da renda nacional gerada no país, que tem uma dívida líquida (a bruta é bem maior!) de R$ 1 trilhão rolada, quase toda, no curto prazo e ao juro do dia, enquanto se esbanjam mais de 95% do Orçamento (aliás, por que ainda não votaram o de 2006?) tragados por incontáveis gastos correntes, deixando os investimentos -vide estradas e outras infra-estruturas vitais- ao deus-dará.
O que invoca, em seu favor, o afável, mas firme, candidato Alckmin para propor vestir a armadura do guerreiro e conduzir seu país à superação do mito da "estagnação consentida"?
Embora Davos não acredite mais, o Brasil pode. E pode ser com Alckmin. O Brasil inteiro precisa querer. Desenhar um futuro que faça de fato avançar a necessária aliança entre os povos da nossa América luso-hispânica. Nisso, Lula investiu bastante. Muito mais é preciso. Rasgar estradas, físicas e virtuais, comunicando nossos povos definitivamente. Preparar a educação digital da próxima geração, sem deixar escapar um só jovem, uma só criança. Instilar a mentalidade do estudo, do trabalho, da pesquisa científica, da livre expressão artística. Deixar brotar a vivacidade empresarial do brasileiro, sem o sufocar no lodaçal burocrático, na infra-estrutura inviável, no funcionalismo insensível.
Tarefa para gigante. Quem governou São Paulo duas vezes fez um bom ensaio geral. Contudo, o grande segredo é inverter a equação política do passado recente: não mais governar o Brasil para São Paulo, erro palmar das últimas décadas de vícios úteis à paulicéia, mas, sim, governar o Brasil com a visão estendida até sua última fronteira e para além desta, com os olhos na inserção global da nossa brasilidade.
Já elegemos um príncipe e um popular. Agora, que tal eleger um projeto? Para o PSDB, esse projeto tem a cara de Geraldo Alckmin
Entrevista:O Estado inteligente
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sábado, fevereiro 11, 2006
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