Todos, menos um menino de 9 anos. Ele anotou no caderno três palavras – “baixinho, gordinho, simpático” sem parentesco com o que fora dito na aula sobre o tema. Com extraordinária concisão, descrevera a figura de Getúlio Vargas, presidente da República naquele junho de 1951.
Eleito pelas urnas, o chefe de governo tinha muita força. Nem de longe, porém, lembrava o onipotente ditador do Estado Novo. Em 1945, a ressurreição da democracia havia restaurado as fronteiras entre os poderes. O presidente já não podia tudo. Mas o menino crescera ouvindo histórias dos tempos da ditadura.
Elas ensinavam que, durante oito anos, aquele homem baixinho, gordinho e simpático prendera e soltara, nomeara e demitira, mandara e desmandara. Getúlio – o gaúcho que gargalhava, o Gegê das marchinhas carnavalescas, o Velho recluso na fronteira – unificara todos os poderes. A resposta do menino, portanto, fazia sentido. Mais de meio século depois, poderá ser repetida no Brasil do Terceiro Milênio.
Como Getúlio, o presidente Lula é baixinho, gordinho e simpático. Como Getúlio, gosta de posar de “pai dos pobres”. Como Getúlio, ama intensamente o poder – e acha que o Legislativo e o Judiciário mais atrapalham que ajudam. O ditador removeu as pedras no caminho. Lula trata de manter sob controle os demais poderes. O Supremo Tribunal Federal já foi domado. A bancada governista é majoritária.
Até dezembro, Lula terá nomeado sete dos 11 ministros do STF. Antes da soporífera sabatina no Senado, o candidato ao STF é submetido a uma conversa sem testemunhas com o presidente. É difícil imaginar Lula interessado em questões jurídicas. O que lhe interessa saber é se o futuro ministro leva jeito para agir como um bom companheiro. Nem precisa ser um Nelson Jobim. Um Eros Grau está de bom tamanho.
Controlado o Judiciário, chegará a vez do Legislativo. Se ocorrer em outubro a dedetização do Congresso, o plano de anexação será neutralizado, mesmo que Lula se reeleja. Se os milhões de indignados anularem o voto, o governo correrá para a barraca de vendas e aluguéis instalada na feira do Congresso. Nesse tipo de negócio, o governo é do ramo. Paga o preço pedido. E os picaretas serão bem mais que 300.
Problemas ambulantes
Nos anos 50, o prefeito de Taquaritinga providenciava uma passagem de trem e alguns trocados para que os forasteiros sem teto nem fortuna seguissem viagem. A cidade não dispunha de verbas ou empregos para absorvê-los. O jeito era embarcar os caminhantes na direção de Rio Preto, maior e mais rica.
No interior de São Paulo, a disseminação de programas sociais ou mesmo paliativos assistencialistas extinguiu o deserdado itinerante. A figura acaba de ressuscitar na capital governada por José Serra. O prefeito resolveu oferecer dinheiro e bilhete de ida para que os órfãos da esperança regressem aos lugares de origem. Quando não sabe resolvê- lo, Serra faz o problema viajar para outras paragens.
Puro prazer em Copacabana
Os Rolling Stones, a maior banda da história, retocaram o poema de Drummond: já eternos, não se cansam de ser modernos.
Não importa quando nasceram seus hits: continuam contemporâneos, transgressores. Como Mick Jagger, um Nureyev do rock.
No dia 18, a multidão reunida em Copacabana verá muito mais que um show irretocável. Verá como é o paraíso na praia.
Já não é hora, companheiro
Transformado num viveiro de gatunos pela tribo dos delúbios e silvinhos, o PT deveria ter cuidado prontamente da varredura na casa. Se tivesse liqüidado as ratazanas, punido os pecadores e juntado os trapos da bandeira da ética na política, o partido exibiria musculatura suficiente para revidar as pancadas desferidas por Fernando Henrique.
Como os mandarins preferiram tratar com brandura os companheiros ladrões, a indignada reação aos ataques de FH soa tão convincente como um discurso do doutor Enéas. Ministro da Previdência, Ricardo Berzoini fabricou a maior fila do mundo. Presidente do PT, imagina liderar um campeão da ética. Vai acordar com o estrondo nas urnas de outubro.
Bem-vinda seja a degola coletiva
Afila da guilhotina exibe no momento 11 deputados, todos com o terno manchado que identifica velhos de carteirinha do valerioduto. O PT tem cinco representantes. Quatro são do PP. Os dois restantes abrilhantam o PFL e o PL. Esse time faria bonito em qualquer campeonato de maracutaias. Não faltam craques. Há um ex-presidente da Câmara (João Paulo Cunha), um presidente de partido (Pedro Corrêa), um reincidente compulsivo (José Mentor, diplomado na CPI do Banestado) e um famoso colecionador de patifarias (José Janene).
O espertalhão Janene decidiu ficar doente no mesmo dia em que foi envolvido no escândalo do mensalão. (A roubalheira nunca lhe afetara o coração. Só sucumbiu à visão do carrasco.) Para poupar os figurões, os cardeais da Câmara planejam entregar cabeças do baixo clero. Todos juram inocência. Todos são culpados.
Com ligeiras diferenças de grau, todos são criminosos. Não se limitaram a atropelar o decoro parlamentar. Atropelaram a ética, a Receita Federal e a legislação. A Câmara nada perderia se todos fossem cassados. E sairia ganhando o Brasil.
A coluna informa que o Cabôco Perguntadô e os jurados do Yolhesman Crisbelles estão gozando de merecidas férias. Ficarão longe desta página por um período de quatro semanas.