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Em recente entrevista ao jornal "O Estado de S.Paulo", apresentei uma analogia entre a economia brasileira neste início de 2006 e um homem com coração novo, transplantado.
Filho de um dos primeiros cardiologistas brasileiros, cresci no meio médico ouvindo sempre falar da condição fundamental do coração para nossa vida. Lembro-me de meu pai alertando para um seu paciente: "Seu coração é fraco e você precisa levar uma vida extremamente regrada, sem forçá-lo".
Por essa razão, a imagem de um coração novo, no organismo econômico brasileiro, e da liberdade reconquistada para crescer me veio à mente enquanto conversava com o jornalista Paulo Moreira Leite. Essa associação com a nossa balança de pagamentos eu já havia feito antes, a partir de um ensinamento de um dos grandes economistas brasileiros que conheci: Mario Henrique Simonsen.
Ele dizia, na virada da década de 80: "A inflação machuca; a balança de pagamentos mata". O que ele queria mostrar é que, quando houvesse uma crise nas nossas contas externas, a solução seria a desvalorização de nossa moeda, única forma de manter viva a economia; a questão da inflação, que apareceria logo em seguida, poderia ficar para depois. O primeiro objetivo seria lutar pela vida representada pela solvência externa.
Por isso, quando entramos nas crises dos anos 80, a inflação interna se eleva de forma brutal e a praga da indexação financeira se alastra por toda a economia. Os juros elevados funcionavam como um inibidor da atividade econômica, para evitar sobrecarga no coração. E qualquer tentativa da economia para crescer mais forte acabava obrigando o Banco Central a aplicar o torniquete dos juros para evitar a sangria de dólares.
Hoje, estou convencido de que essa é a explicação correta para a sensação de que o juro no Brasil precisa ser muito mais elevado do que nos outros países emergentes. Embora possam ser alinhados outros fatores, como insegurança jurídica e uma história passada de irresponsabilidade fiscal, eles não resistem a uma crítica minimamente inteligente de comparação com outros países.
Se estou certo em minha análise, e a economia brasileira tem hoje um coração saudável, a política econômica deve sair do foco de proteger alguém que pode desfalecer em momentos de tensão. Teremos um trabalho grande para desmontar procedimentos de política econômica que foram criados no período de "proteção do coração doente, fraco", e, principalmente, medos e pânico de uma economia crescendo a mais de 6% ao ano. Protegidos por um saldo estrutural no mercado de câmbio pelos próximos anos e uma trajetória que permite zerar o risco cambial da dívida pública externa líquida ainda em 2006, as crises cambiais do passado são fantasmas que precisam ser exorcizados. E, nessa situação, o espaço para uma redução agressiva dos juros internos está aberto.
Sabemos que os juros internos não dependem apenas da credibilidade externa. Eles devem ser fixados em função da política monetária e do sistema de metas de inflação. Antes de cair sobre minha cabeça uma torrente de críticas, quero deixar claro que o que pode ser reduzido imediatamente é esse prêmio negativo que fomos obrigados a pagar no passado pela fragilidade de nossa balança comercial. O nível de juros que o Banco Central, livre desse seu trabalho de guardião de nossas reservas cambiais, poderá operar vai depender do combate à inflação.
Na entrevista ao "Estado", enfatizei que o nível de juros que permitirá a estabilização da inflação vai depender do grau de liberdade de administração dos gastos fiscais totais do governo. O governo precisa ganhar novamente controle do Orçamento como instrumento de gestão de demanda agregada da economia. E preciso dizer, com coragem, que uma série de reformas nas regras do Orçamento são necessárias para dar condições para que um Banco Central, que confie na política fiscal do governo, possa gerir a política monetária com eficiência e voltada também para o maior crescimento econômico possível.
Entrevista:O Estado inteligente
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