o globo
Dois tipos primitivos e desprezíveis de políticos tiveram ontem determinado o fim de suas carreiras, pelo menos no futuro imediato. Um, Roberto Jefferson, por repulsa de seus pares, teve o mandato cassado num processo eminentemente político, menos pelo motivo oficial, de não ter provado a existência do mensalão -— mesmo porque ainda faltam as investigações de duas CPIs — e mais por ser réu confesso de ter recebido R$ 4 milhões do caixa dois do PT, e de ter usado indicações para cargos em estatais para arrecadar dinheiro para o PTB.
Outro, o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, atropelado por um cheque endossado por sua secretária, que prova cabalmente que ele pediu propina para manter o concessionário do restaurante da Câmara.
Severino Cavalcanti, depois de ter desistido de presidir a sessão em que a Câmara cassou o mandato de Jefferson, já pensava ontem em renunciar ao seu mandato. Para tentar uma "saída honrosa", arranjou a desculpa de que os R$ 7.500 seriam uma doação de Sebastião Buani para a campanha para deputado em Pernambuco de um filho seu que já morreu. Como a prestação de contas da campanha não registra essa doação, na prática Severino Cavalcanti está jogando para seu filho morto a acusação de ter usado caixa dois.
É sintomático da deturpação moral desse tipo de político procurar se esconder atrás do financiamento de campanhas políticas, como se o "dinheiro não contabilizado" fosse um crime menor do que receber propina pura e simples. Já foi assim há cerca de 15 anos, quando PC Farias atribuiu a "sobras de campanha" a dinheirama que não tinha explicação oficial. Nos dois casos atuais, está provado que ambos venderam-se, embora por motivos diferentes.
Severino Cavalcanti, saído das sombras do baixo clero para a presidência da Câmara por um desvio de conduta de parte ponderável da oposição junto com a base aliada do governo, se utilizava de suas funções administrativas para achacar prestadores de serviços da Câmara. Era um mero "petequeiro", no linguajar dos pequenos criminosos verbalizado por Roberto Jefferson.
Já o ex-presidente do PTB, que, saído de programas populares de televisão como advogado de porta de cadeia, passou a maior parte de sua carreira política no mesmo baixo clero da Câmara onde até ontem reinava Severino Cavalcanti, usou e foi usado pelo governo Collor e, não por coincidência, foi guindado novamente ao primeiro time pelo governo Lula. Deixou de ser um "petequeiro" qualquer para, transformado em aliado fundamental do governo, montar um grande esquema de corrupção em vários órgãos públicos, como está sendo provado na CPI dos Correios.
Ontem, mudando de atitude, Roberto Jefferson acusou o presidente de ser responsável pela corrupção, se não por ação, por omissão. E o acusou, indiretamente, de ter mentido, quando comparou sua atitude de dizer que nada sabia à do ex-presidente do PT José Genoino, a quem chamou diretamente de mentiroso. Genoino, que negara em seu depoimento na CPI conhecer os acordos envolvendo dinheiro com os partidos aliados, foi o autor do acordo que transferiu R$ 4 milhões para os cofres do PTB, como reafirmou ontem da tribuna Roberto Jefferson.
Também insinuou que o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, planejou fazer um pronunciamento na televisão para jogar a culpa da corrupção nos Correios no PTB, por orientação do presidente Lula. Para quem ameaçava com grandes denúncias explosivas, foi um traque que deve ter aliviado o Palácio do Planalto. A opinião de Jefferson sobre a falta de aptidão do presidente da República pelo trabalho não tem a menor importância.
Pode ser até que afete ainda mais a popularidade do presidente Lula, que já está em queda, porque Roberto Jefferson transformou-se em um ídolo popular, com seu jeito histriônico e sua capacidade de engabelar o eleitorado, numa demonstração de que ainda temos muito o que aperfeiçoar em nosso sistema eleitoral. Será, porém, apenas uma disputa entre dois políticos populistas, com credibilidade entre o eleitorado menos esclarecido.
No plenário, sua filha, a vereadora pelo Rio Cristiane Brasil já se prepara para receber os muitos votos que seu pai lhe trará. Ela trouxe do Rio uma claque que aplaudiu Roberto Jefferson quando ele chegou à Câmara, e provocou um pouco de tumulto nas galerias da Câmara. Atitude parecida, aliás, com a de seu maior inimigo político, o deputado José Dirceu, que retornou à Câmara com o apoio de uma claque do PT do Distrito Federal.
A opinião de Jefferson sobre qualquer assunto nunca teve a menor importância. Ele só é crível quando assume seus crimes e denuncia seus cúmplices. Nesses momentos, ele tem a credibilidade do mafioso que rompe com sua quadrilha e passa a denunciá-la. Se tivesse condições de acusar diretamente o presidente Lula pelo esquema de corrupção que foi montado no e pelo governo, o teria feito, tal a raiva que destilou durante seu discurso.
Não o fez, ou porque não tem mesmo testemunho a dar, ou porque não tem coragem de acusar diretamente o presidente, ficando no meio do caminho, com indiretas e evasivas. Em qualquer dos casos, deu um fôlego importante ao presidente Lula, embora tenha acusado seu governo de ser o mais corrupto com que conviveu, um testemunho de peso diante dos antecedentes do denunciante.
Entrevista:O Estado inteligente
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