Entrevista:O Estado inteligente
Cora Rónai Estava escrito nas estrelas
o globo
Oano de 1989 foi um dos piores da minha vida. Nas eleições, na contra-mão da maioria dos meus amigos, escolhi votar em Covas, que julgava um homem de bem, comprometido com o Brasil. Ao contrário de Lula, que me parecia no máximo pitoresco, e de Collor, evidentemente doido. O problema é que decidi não só votar em Covas, mas também ajudar sua candidatura. Distribuía folhetos e santinhos, e usava, nas janelas do meu carro, uns bonitos adesivos de propaganda, feitos pelo Millôr.
Pois nunca me senti tão discriminada e tão só quanto então. Num instante nossos amigos deixaram de ser amigos e viraram petistas full-time , soltando fogo sagrado pelas narinas ideológicas. Praticamente cortaram relações comigo e os que pensavam como eu. Um ou outro ligava, mas não conseguia disfarçar a superioridade autocongratulatória, de quem dá uma esmola ou visita uma comunidade carente. Eram visivelmente superiores àquelas pessoas que tinham o impudor de pensar diferente, e que mereciam, no mínimo, o ostracismo social. Estavam sendo ideologicamente magnânimos. Vivi desde situações bizarras, como a discussão com um casal de milionários consumistas defendendo o pseudo-proletariado no sofá da sala repleta de peças art-nouveau, às constrangedoras, como o dedo espetado no meu peito por uma estagiária do "Jornal do Brasil" que, no elevador, me cobrava não estar usando um button do PT, Pureza Total.
O pior era voltar para casa. Meu caminho passava pelo Garota de Ipanema, que se transformara em point. Petista, claro: não havia outros. O mundo era petista. Entrar na Vinicius com o sinal fechado virou pesadelo. Meu pobre Fiat atravessava um corredor polonês em que levava murros e era chutado pelos democratas alcoolizados. Quando eu finalmente estacionava na garagem, antes de desabar em prantos, ainda tinha que tirar os lulalás que haviam sido colados na lataria. O que me esperava lá em cima não era melhor: ofensas e ameaças nojentas na secretária eletrônica.
***
Atravessei a ditadura mais ou menos incólume, apesar de ser jornalista, como tantos, abertamente contra o regime. A questão é que, dos militares, não se esperava outra coisa senão antagonismo e "pau neles!" (nós). Aquela era a ordem natural das coisas, a lei e a ordem, eles de lá, nós de cá. Mas como lidar com amigos e companheiros de idéias subitamente transformados em inimigos encapuzados com a máscara da ideologia? Como lidar com a indiferença e a descrença, ou, no máximo, com a "infinita paciência", com que os amigos recebiam meus desabafos?
A questão é que, para eles, não havia partido mais democrático do que o PT, santamente mergulhado em eternas reuniões para decidir as menores coisas. O que acontecia lá fora eles não sabiam, nem queriam saber. Ignorância é poder!
A violência na secretária eletrônica e na lataria do automóvel era excesso natural de uns poucos "radicais"; meu sufoco dentro do carro sacudido pela turma da Vinicius era bobagem de boneca intelectual, coisa de mulherzinha.
Perdi alguns amigos, perdi toda a confiança em outros. Mudei de trajeto, desliguei a secretária e, decisão pequeno burguesa, jurei que jamais votaria no PT. Quando Covas perdeu no primeiro turno, passei a defender o voto nulo. A vida do carro, do qual tirei os adesivos, melhorou muito; já a minha não. Pouca gente entende o voto nulo como manifestação política. Não passava pela cabeça de ninguém que uma pessoa razoavelmente letrada e medianamente civilizada pudesse optar por anular o voto. Para mim, que considero o voto uma procuração que passo a alguém para exercer meu direito de cidadania, não havia outra saída.
Meus ex-amigos petistas estavam convencidos de que, não sendo Lula, eu era, inevitavelmente, Collor. Sem coragem de declarar. Para eles era mais fácil "raciocinar" assim. É curioso, e ao mesmo tempo assustador, que não tenha ocorrido a nenhum deles que pudesse haver algo profundamente errado com a premissa de que, numa eleição livre, alguém precisasse esconder seu voto. Mais curioso (e igualmente assustador) era observar o pequeno número de carros que circulavam com adesivos do Collor. Qualquer pesquisa de opinião pública feita a partir de adesivos de vidros de automóveis daria vitória esmagadora para o PT.
Até hoje me pergunto quantos votos o PT não perdeu naquele ano por causa da sua falta de vocação para o diálogo, ou melhor, sua falta de desconfiômetro — e da truculência da sua militância. Sempre que ousei tocar nesse assunto com petistas, nenhum jamais reconheceu que houve ali qualquer coisa errada. Tudo mero exagero de xiitas exaltados. Exatamente como hoje, exceto que a violência deu lugar à roubalheira. Não sei o que é pior.
***
Mas nem tudo são más notícias. Na semana passada, em Pelotas, os psicopatas Fernando Siqueira Carvalho, Marcelo Ortiz Schuch e Alberto Conceição da Cunha Neo, que assassinaram a cadelinha Preta arrastando-a pelas ruas amarrada a um carro, aceitaram a transação penal proposta pelo Ministério Público. Isso, em linhas gerais, significa que não foram condenados, mas receberam penas: multa de R$ 5 mil para cada um, e prestação de serviços à comunidade, no canil municipal, por oito horas diárias, durante um ano. É muito, mas muito menos do que mereciam, mas já é um começo. Há alguns anos, nada lhes teria acontecido.
Arquivo do blog
-
▼
2005
(4606)
-
▼
julho
(532)
- Do foguetório ao velório Por Reinaldo Azevedo
- FHC diz que Lula virou a casaca
- DORA KRAMER A prateleira do pefelê
- Alberto Tamer Alca nunca existiu nem vai existir
- Editorial de O Estado de S Paulo Ética do compadrio
- LUÍS NASSIF A conta de R$ 3.000
- As elites e a sonegação JOSÉ ALEXANDRE SCHEINKMAN
- Lula se tornou menor que a crise, diz Serra
- JANIO DE FREITAS A crise das ambições
- ANTÔNIO ERMÍRIO DE MORAES Responsabilidade e amor ...
- ELIANE CANTANHÊDE É hora de racionalidade
- CLÓVIS ROSSI Não é que era verdade?
- Editorial de A Folha de S Paulo DESENCANTO POLÍTICO
- FERREIRA GULLAR:Qual o desfecho?
- Editorial de O Globo Lição para o PT
- JOÃO UBALDO RIBEIRO Não é por aí
- Miriam Leitão :Hora de explicar
- Merval Pereira Última instância e O imponderável
- AUGUSTO NUNES :A animada turnê do candidato
- Corrupção incessante atormenta a América Latina po...
- Blog Noblat Para administrar uma fortuna
- Diogo Mainardi Quero derrubar Lula
- Tales Alvarenga Erro tático
- Roberto Pompeu de Toledo Leoa de um lado, gata dis...
- Claudio de Moura Castro Educação baseada em evidência
- Dirceu volta para o centro da crise da Veja
- Ajudante de Dirceu estava autorizado a sacar no Ru...
- Até agora, só Roberto Jefferson disse a verdade VEJA
- O isolamento do presidente VEJA
- VEJA A crise incomoda, mas a economia está forte
- veja Novas suspeitas sobre Delúbio Soares
- VEJA -A Petrobras mentiu
- Editorial de O Estado de S Paulo A conspiração dos...
- DORA KRAMER O não dito pelo mal dito
- FERNANDO GABEIRA Notas de um pianista no Titanic
- Economia vulnerável GESNER OLIVEIRA
- FERNANDO RODRIGUES O acordão
- CLÓVIS ROSSI A pizza é inevitável
- Editorial de A Folha de S Paulo A SUPER-RECEITA
- Editorial de A Folha de S Paulo O PARTIDO DA ECONOMIA
- Zuenir Ventura O risco do cambalacho
- Miriam Leitão :Blindada ou não?
- A ordem é cobrar os cobradores
- Mas, apesar disso, o PSDB e o PFL continuam queren...
- Em defesa do PT Cesar Maia, O Globo
- Senhor presidente João Mellão Neto
- Editorial de O Estado de S Paulo 'Novo fiasco dipl...
- Editorial de O Estado de S Paulo 'Erros', fatos e ...
- DORA KRAMER Um leve aroma de orégano no ar
- Lucia Hippolito :À espera do depoimento de José Di...
- LUÍS NASSIF Uma máquina de instabilidade
- ELIANE CANTANHÊDE Metralhadora giratória
- CLÓVIS ROSSI Socorro, Cherie
- Editorial de A Folha de S Paulo SINAIS DE "ACORDÃO"
- Editorial do JB Desculpas necessárias
- Villas-Bôas Corrêa A ladainha dos servidores da pá...
- Editorial de O Globo Acordo do bem
- Miriam Leitão :Apesar da crise
- Luiz Garcia A CPI e os bons modos
- Merval Pereira Torre de Babel
- DILEMA PETISTA por Denis Rosenfield
- Ricardo A. Setti Crise mostra o quanto Lula se ape...
- Um brasileiro com quem Lula preferiu não discutir ...
- Editorial de O Estado de S Paulo Do caixa 2 ao men...
- Que PT é esse? Orlando Fantazzini
- Alberto Tamer China se embaralha para dizer não
- DORA KRAMER Elenco de canastrões
- LUÍS NASSIF Uma questão de tributo
- PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. Antídoto contra a mudança
- JANIO DE FREITAS Questão de ordem
- Responsabilidade DENIS LERRER ROSENFIELD
- DEMÉTRIO MAGNOLI A ética de Lula e a nossa
- ELIANE CANTANHÊDE Caminho da roça
- CLÓVIS ROSSI Legalize-se a corrupção
- Editorial de A Folha de S Paulo PRISÃO TARDIA
- Lucia Hippolito :Uma desculpa de Delúbio
- Cora Ronai
Não, o meu país não é o dos delúbios...
- Miriam Leitão Dinheiro sujo
- MERVAL PEREIRA Seleção natural
- AUGUSTO NUNES Tucanos pousam no grande pântano
- Villas-Bôas Corrêa- Lula não tem nada com o governo
- José Nêumanne'Rouba, mas lhe dá um bocadinho'
- Entre dois vexames Coluna de Arnaldo Jabor no Jorn...
- Zuenir Ventura Apenas um não
- Editorial de O Estado de S. Paulo As duas unanimid...
- Luiz Weiss O iogurte do senador e a "coisa da Hist...
- Nunca acusei Lula de nada, afirma FHC
- Editorial de O Estado de S Paulo Triste tradição
- Editorial de O Estado de S Paulo Lula sabe o que o...
- A mentira Denis Lerrer Rosenfield
- As duas faces da moeda Alcides Amaral
- LUÍS NASSIF O banqueiro e a CPI
- FERNANDO RODRIGUES Corrupção endêmica
- CLÓVIS ROSSI Os limites do pacto
- Editorial de A Folha de S Paulo O CONTEÚDO DAS CAIXAS
- Editorial de A Folha de S Paulo A CRISE E A ECONOMIA
- DORA KRAMER À imagem e semelhança
- Miriam Leitão :Mulher distraída
- Zuenir Ventura aindo da mala
- Merval Pereira Vários tipos de joio
- Zuenir Ventura Saindo da mala
- Márcio Thomaz Bastos pode depredar o Direito brasi...
- blog luiz weiss O BMV toma conta de você
- "Foram muitas reuniões..." blog luiz Weiss
- O PSDB, o PT, o caixa dois e mistificações
- Corrupção - abcesso ou septicemia? José Pastore*
- DORA KRAMER À espera de um milagre
- LUÍS NASSIF Atrás da saída honrosa
- JANIO DE FREITAS A defesa desaba
- De Golbery a Zé Dirceu CESAR MAIA
- ELIANE CANTANHÊDE De crenças e crendices
- Editorial de A Folha de S PauloCAMINHO ERRADO
- Editorial de A Folha de S Paulo ASSASSINATO EM LON...
- Blog do NOBLAT -Lucia Hippolito
Semana decisiva ...
- Stédile: ‘Este governo já acabou’
- PSDB-MG usou valerioduto em 98-Azeredo diz desconh...
- Editorial de O Globo Idéia fixa
- Miriam Leitão :Pessimismo cresce
- Luiz Garcia Refundação
- Arnaldo Jabor Temos de criar uma nova esquerda
- Merval Pereira Leitores éticos
- AUGUSTO NUNES :Uma vestal sai do templo e cai na vida
- Dirceu e “aquilo” no ventilador Antonio Fernandes
- Blog Noblat Recordar é viver: Quem te viu, quem te vê
- O risco de virar um clone Ricardo Noblat
- Lucia Hippolito :A crise bate à porta do Planalto
- Editorial de O Estado de S Paulo Triste tradição
- Editorial de O Estado de S Paulo Lula sabe o que o...
Nenhum comentário:
Postar um comentário