Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, maio 13, 2005

O real forte de Lula LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS



O governo do presidente Lula, para usar uma expressão em moda no mercado financeiro, é um verdadeiro "conundrum". Essa palavra, na língua inglesa, quer dizer uma coisa difícil de ser entendida em razão do passado. Poderia falar horas sobre as contradições de nosso presidente, de seu governo e de seu partido. Mas vou ficar apenas com o "conundrum" do real forte, ou seja, da taxa de câmbio a R$ 2,45 por dólar.
A história nos mostra que governos de esquerda estão sempre associados a moedas nacionais enfraquecidas e a crises cambiais. O exemplo clássico desse comportamento foi o governo Mitterrand, na França, em 1982. Como Lula, depois de várias derrotas, o candidato do Partido Socialista fora eleito presidente da República. Dois anos depois, o franco francês, a moeda nacional de então, entrou em colapso. Diante disso, Mitterrand mudou de rumo, adotou uma política econômica ortodoxa e conseguiu superar a crise de confiança que quase acabou com sua carreira política.
A vitória de Lula, em 2002, foi recebida dentro desse modelo tradicional de governo de esquerda. O real entrou em colapso, e o fantasma de uma crise cambial sem limites rondou o escritório político de Lula. O acaso, no caso a morte de Celso Daniel, e o aparecimento da figura forte e politicamente madura de Antonio Palocci Filho salvaram o Brasil e o PT de um desastre de grandes proporções. O partido decidiu abandonar suas idéias de esquerda e assumiu o governo e o poder com uma política econômica de direita.
Com certeza, as lições do período Mitterrand serviram como exemplo para essa transição rápida e inescrupulosa, se olharmos para as promessas da campanha presidencial de 2002. Questões éticas à parte, foi uma decisão acertada e em benefício do povo brasileiro. O governo Lula tem uma política econômica correta e o próprio presidente usou seu poder para blindá-la dos ataques da esquerda e dos interesses clientelistas.
Mas esse governo, que surpreendeu a todos com uma política econômica ortodoxa, está agora se superando. Ao permitir que o real se transforme na moeda que mais se valorizou no mundo, nos últimos 12 meses, o governo Lula se equipara à Inglaterra dos anos 30 do século passado. Palocci e Churchill são farinha do mesmo saco. Heróis, para os detentores de riqueza financeira e de dívidas em moedas estrangeiras; vilões, para os empresários do chamado setor real.
Como sou adepto da máxima "mata a cobra e mostra o pau", vamos aos números. Entre maio de 2004 e maio de 2005, o real valorizou-se 22% em relação ao dólar, 18% em relação à libra inglesa, 16% em relação ao franco suíço e ao euro. Mesmo em relação às moedas asiáticas, nossa moeda ficou muito mais forte: 22% em relação ao yuan chinês, 17% em relação ao iene japonês, 16% em relação ao dólar de Taiwan e 7% em relação ao won sul-coreano. Esses são números nominais, pois, como nossa inflação nestes 12 meses foi superior à dessa amostra de parceiros comerciais, a valorização do real é ainda maior.
Esses números rebatem de forma incontestável o argumento balbuciado por nosso presidente, de tempos em tempos, de que esse é um fenômeno mundial e que, portanto, não há nada que possa ser feito. As moedas que estão se valorizando em relação ao dólar americano estão ao mesmo tempo se desvalorizando em relação ao real. Portanto são fatores internos, como o nível de juros no Brasil, que estão provocando esse "conundrum".
O argumento de que o real forte de Lula, da mesma forma que no primeiro mandato de FHC, não vai prejudicar nossas exportações também não se sustenta. Sabemos que o intervalo de tempo que permeia uma ação de política econômica e seus efeitos sobre o mercado -intervalo que os economistas chamam de lag- pode mudar ao longo do tempo. E, quando isso ocorre, as surpresas costumam ser desagradáveis. Certamente é o que está acontecendo agora com a taxa de câmbio.
A surpresa que o governo Lula pode ter é uma redução brusca de nosso saldo comercial em 2006, exatamente no ano das eleições presidenciais.
FOLHA DE S PAULO

Nenhum comentário:

Arquivo do blog