Entrevista:O Estado inteligente
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sexta-feira, abril 15, 2005
JOÃO UBALDO RIBEIRO: Ainda morro disso
Segundo leio de quando em quando e ouço com freqüência, sou politicamente incorreto. Às vezes até me elogiam por essa razão, mas acho que se trata de uma opinião injusta. Considero-me politicamente corretíssimo e faço força para que nada que eu diga ou escreva seja visto por essa ótica, que, para muita gente, denota insensibilidade e falta de sintonia com os sentimentos que a evoluidíssima Humanidade conseguiu aperfeiçoar, ao longo de sua curta existência (tem gente que pensa que é longa, mas, em termos da história do mundo, é microscópica), que temos feito todo o possível para abreviar.
Uma das minhas afirmações mais reprovadas é que os índios não são os primeiros brasileiros. Faz poucas semanas repeti isso e novamente me acusaram de ser preconceituoso e ter raiva dos índios. Chato, mas não vou mudar de idéia, pois os primeiros brasileiros não foram mesmo eles. Os primeiros foram os que nasceram no país que se formou e passou a chamar-se Brasil. Os índios constituíam populações primitivas separadas e, evidentemente, não faziam a mínima idéia de Brasil, nem mesmo da tal Pindorama, que seria o nome dado por eles a todo o nosso território, numa formidolosa demonstração de sofisticação sociopolítica e antecipação de conceitos só desenvolvidos antes da época em que viviam por aqui em comunidades mais ou menos neolíticas.
Tampouco é preconceito dizer que os índios não são bons por natureza, não têm os defeitos dos não-índios e sua vida é não melhor que a nossa. Pensar assim é que é preconceito, porque, se os índios fossem imunes aos maus sentimentos e ações, não seriam humanos, seriam uma espécie semi-angelical. Claro, muitos índios não foram expostos ao que nós somos, mas não há nada que diga que, se participassem significativamente da vida pública não seriam proporcionalmente tão corruptos quanto os, vamos dizer para simplificar, brancos. Claro que haveria, percentualmente, tantos ladrões, mentirosos, falcatrueiros e mutreteiros entre eles como entre nós. Quanto ao desmatamento e a agressão à natureza, aliás, muitos deles são líderes ou agentes. Terão aprendido conosco, mas, se fossem melhores de nascença, não aprenderiam. Aprenderam porque são gente como nós, suscetível às mesmas ambições ilícitas a que tantos não conseguem resistir.
Há também a questão da “cultura africana”. Que “cultura africana”? Novamente, o preconceituoso não sou eu. Preconceito tem quem acha que um continente quase duas vezes maior do que a América do Sul só tem uma cultura. São tão limitados, os africanos, que pensam do mesmo jeito, falam a mesma língua, comem as mesmas coisas, têm a mesma religião e se consideram irmãos. Na verdade, se consideram tão irmãos que se metem em morticínios horrendos e comenta-se com inexplicável espanto o absurdo de uma guerra de negros contra negros. Por que não se usa o mesmo critério quanto a guerras de brancos contra brancos, como a segunda guerra mundial? Não existem “divindades negras”, cuja veneração seja observada por todos os da raça negra. Negros de etnias diferentes se julgam, com razão, tão diferentes entre si quanto, por exemplo, um alemão de um francês, brancos tanto um quanto outro. Mas a escravidão é vista como um fenômeno racial, como se os negros (que praticavam e ainda praticam a escravidão entre eles próprios, como, aliás, nós, os brasileiros, também) tivessem sido escravos durante toda a história.
Na realidade, a escravidão é um fenômeno econômico e político e os escravos eram sempre os vencidos, de qualquer cor. Os escravos trazidos para o Brasil não foram capturados no laço pelos brancos maus, como no cinema. Pelo contrário, eram negros de nações subjugadas por outros povos também negros, vendidos aos brancos como escravos com tanta satisfação como, por exemplo, um romano antigo vendia um inimigo branco aprisionado. Ninguém estava vendendo irmão nenhum, estava vendendo gente vista como inferior e atrasada, que tinham derrotado e escravizariam ou matariam. Ser negro, assim como ser índio, não torna ninguém melhor nem pior, a não ser em função das condições sociais em que se vive, o que já é outro papo, que não dá nem para começar aqui. Pergunte a um massai se ele se vê como irmão de um ibo e ele vai achar, de novo com razão, que você é maluco, ou ignorante, ou ambas as coisas. A comida “africana” que se faz na Bahia é, sim, de origem africana mesmo, mas dos povos que foram parar lá. Negros de outras regiões a reconheceriam como sua tanto quanto um brasileiro proclamaria guacamole o nosso prato nacional.
Também me acham preconceituoso quando mudo de assunto, ao falarem, por exemplo, na misteriosa sabedoria oriental, botando no mesmo saco chineses (que em si já são numerosos sacos), japoneses, coreanos e até indianos. Claro, não existe sabedoria oriental homogênea nenhuma, assim como não existe uma única cultura africana. Dão-me aulas, para citar um caso, sobre a comida japonesa e como a misteriosa sabedoria oriental descobriu séculos antes de nós que o peixe é uma fonte sadia de proteína animal e que alimentos crus não só podem ser saborosos como mais nutritivos. A verdade é que, de-pois de milênios sem terra para criar gado e sem combustível para cozinhar, os japoneses desenvolveram maneiras de superar essas limitações, mas foi por necessidade de sobrevivência. E eu poderia dizer muito mais, mas já basta o que vou receber de acusações de preconceito. O pessoal toma pensamentos emprestados, tem preguiça de examiná-los e se chateia ao vê-los questionados. Encerro com a lembrança da homenagem que me prestaram uma vez na Áustria, através da “cultura sul-americana”: seis incas de gorro e poncho, tocando música andina e cantando em quíchua. Foi meio sacalzinho, mas valeu a intenção e pelo menos era preferível a um concerto para berimbau e orquestra.
O GLOBO
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