Entrevista:O Estado inteligente
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sábado, abril 16, 2005
Augusto Nunes:É preciso deter Severino
16.04.2005 | O roteiro da tragicomédia, reencenada a cada começo de ano, determina que o Legislativo deve reajustar com a discrição possível os salários da turma. E o momento da consumação do aumento costuma ser valorizado pela performance de atores mais experientes: esses conseguem pregar no rosto o leve rubor vislumbrado por romancistas de antigamente em jovens estreantes no lupanar.
No papel de presidente da Câmara, Severino Cavalcanti nem folheou o script. Irrompeu no palco com pose de estrela e foi logo berrando que deputado ganha pouco, merece muito mais. Se os parlamentares cuidam do povo, é natural que o povo pague a conta. Ultrapassara com desconcertante desembaraço a última fronteira da desfaçatez. Mas não parou por aí.
Como parte da platéia reagiu com gargalhadas às primeiras falas do artista, Severino deduziu que estava agradando. E foi em frente. Não via nada demais, avisou, na nomeação de pencas de parentes, dispensados de concurso, para cargos no Legislativo. “Isso só ajuda a família”, explicou. Então a platéia perdeu a paciência e explodiu em apupos. Era muito cinismo para um deputado só.
A indignação do Brasil decente – majoritário, embora pareça ignorar essa evidência – inibiu até parlamentares loucos por dinheiro. Eles próprios acharam perigoso conceder-se um aumento que elevaria seus proventos mensais para cerca de R$ 100 mil, somados salários, gratificações, verbas de gabinete e outras trucagens. O aumento não saiu.
Mas Severino é um guerreiro, e guerreiros perseveram. Baixada a poeira, anexou às verbas de gabinete uma quantia equivalente ao acréscimo salarial rechaçado. Bloqueado o acesso pela estrada principal, o chefão da Câmara chegou aos cofres públicos pela trilha do pântano. Poucos deputados protestaram. Raríssimos prometeram devolver a diferença. E os contribuintes, apresentados ao fato consumado, dessa vez capitularam. Severino ganhou a guerra sem um único tiro.
Nas apresentações seguintes, foi também engraçado – penosamente engraçado – ouvir o falastrão pernambucano sobre o funcionamento do que merecia ser batizado de “Quitanda da Governabilidade”. Quitanda lembra gente humilde, simplicidade, povão, combina com a discurseira eleitoral do PT. E “governabilidade” sugere vocabulário de estadista.
É ali que o Executivo e o Legislativo fazem negócio. O país sabia havia anos da existência da quitanda, mas ninguém ousara descrevê-la com o despudor que sublinha o estilo severino. O governo tem a oferecer cargos, verbas e outros favores. Parlamentares usam como moeda o próprio voto. Adesões pontuais a projetos e medidas importantes para o Planalto alcançam cotações de bom tamanho. Mas o apoio permanente, sobretudo se inclui a reeleição de Lula, vale muito mais.
Velho freguês do lugar, Severino aprendeu a obedecer ao primeiro mandamento da quitanda: negociar sem barulho. Embriagado pela euforia decorrente da ascensão a nº 3 na linha da sucessão presidencial, revogou a lição. Entre murros no balcão, gritou um ultimato a Lula: ou o amigo senador Ciro Nogueira virava ministro ou a oposição teria em Severino o maior dos marechais.
Pegou mal. O berreiro do deputado induziu o presidente da República a interromper a reforma ministerial que já produzira duas mudanças. (A segunda foi a troca de Amir Lando por Romero Jucá no comando do Ministério da Previdência Social. Jucá chegara lá por indicação do presidente do Senado, Renan Calheiros. Feita sem ruídos.)
O estremecimento com Lula durou pouco. Terminou a bordo do Aerolula, na viagem para o enterro do papa. Em voz alta, os parceiros desavindos rezaram juntos o Pai-Nosso. Aos sussurros, acertaram a nomeação de um filho do deputado para um vistoso cargo federal em Pernambuco. Ponto para o clã dos Cavalcanti. Golaço do patriarca.
De bobo o homem não tem nada. Só insensatos continuam a achar engraçado um arrivista vocacional que sempre acaba levando vantagem em tudo. O político Severino devota agudo desprezo por códigos éticos ou princípios morais. Se não for contido, pode reduzir a escombros, em poucos meses, a credibilidade de uma instituição indispensável a democracias genuínas.
Cumpre aos parlamentares minimamente preocupados com o Brasil, fortalecidos pelo apoio militante dos homens de bem, neutralizar a ofensiva desse huno setentão. Os resistentes estarão lutando pela própria sobrevivência. As eleições de 2006 vêm aí, os brasileiros vão ficando menos ingênuos. Com Severino solto no picadeiro, o eleitorado pode sucumbir ao apelo que começa a ganhar força na internet: “Não reeleja nenhum deputado”.
no mínimo
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