Entrevista:O Estado inteligente

domingo, dezembro 11, 2005

JANIO DE FREITAS O tesouro escondido

FSP
O dinheiro malandro, sem identidade e de pinta brava, com que o PT pagou à empresa do vice José Alencar, a Coteminas, revaloriza um episódio breve que ficou no esquecimento. E no entanto, se lembrado pelas inquirições e investigações das CPIs ou policiais, teria levado desde logo à convicção da existência de recursos, como um gordo "caixa três", além dos constatados na torrente Valério/Delúbio.
Tudo indica que a Coteminas, mais do que entrar no dinheiro, entrou numa fria. Não recebeu nem um décimo do crédito por camisetas produzidas para o PT e ainda se viu misturada, no tratamento do caso pelos jornais, aos associados a Delúbio & cia. ilimitada. Mas prestou o serviço involuntário de dar, afinal, a primeira comprovação a uma cansada suspeita da CPI dos Correios: a direção do PT dispôs (ou dispõe ainda) de mais do que os R$ 55 milhões confessados na prodigalidade de Marcos Valério e Delúbio Soares.
No ano passado, o PT continuava tomando empréstimos como em 2003, segundo as suas explicações, para quitar compromissos de campanha. O partido, portanto, ficara no miserê com a eleição de 2002. Mas foi nesse estado que decidiu no ano passado, enquanto recorria aos alegados empréstimos, comprar nova sede nacional.
Aqui mesmo, uma notinha louvou em 27 de junho de 2004 a escolha da área onde o PT buscava a nova sede, na apropriada vizinhança dos bancos que acumulam na avenida Paulista os lucros inigualáveis proporcionados pelo governo Lula/PT. Em sua notícia a respeito, Mônica Bergamo ia à precisão de que eram pedidos R$ 18 milhões pelo imóvel, ao que o PT fazia a contraproposta de R$ 15 milhões. O PT não opôs contestação alguma à notícia e, pouco mais tarde, dele saiu a informação de que o negócio não se consumou pelo problema do preço.
Àquela altura em que o PT ofertava R$ 15 milhões por um imóvel, seu presidente, José Genoino, já era signatário de empréstimos, dizem as suas e outras explicações petistas, para o partido pagar algumas dívidas prementes. O montante ainda é incerto, entre as citações divergentes, mas não há dúvida de que o PT saiu das eleições de 2002 empobrecido e enterrado em dívidas (sorte de Lula que ninguém tenha bisbilhotado as contas de sua campanha). Onde estavam, então, os recursos para o alto investimento imobiliário em uma sede, palavras de José Genoino, "à altura do PT que agora é o maior partido"?
Não era necessário o depoimento de Duda Mendonça, com a referência ao pagamento anormal que recebeu, para suscitar as suspeitas de mais torneiras que as dos condutos de Marcos Valério. Nem esperar pelo mau pagamento à Coteminas, que Delúbio atribui ao saldo final do mecenato de Valério, mas as suas e as contas do parceiro jamais mencionaram.
O episódio da nova sede do PT agrava ainda mais as responsabilidades de José Genoino e a fragilidade dos seus depoimentos. Questiona os outros dirigentes, forçosamente informados de que "nunca o PT teve muitos recursos", como disse José Dirceu na entrevista pós-cassação, e apesar disso candidatava-se a um negócio imobiliário grandioso. E dá mais razão a esforços concentrados das CPIs e da Polícia Federal para desvendar o "caixa três" que o PT teve ou tem (saibam ou não os sucessores de Genoino e Delúbio). Além de outros motivos para o esforço, logo começará mais uma campanha eleitoral ainda movimentada, em grande parte, por dinheiro ilegítimo. Não é à toa que Congresso e governo deixam as próximas eleições sem novas regras contra as influências da corrupção.

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