Entrevista:O Estado inteligente

sábado, dezembro 10, 2005

FERNANDO DE BARROS E SILVA A "ralé" e a República

FSP

SÃO PAULO - Alexandra tem 13 anos, sua mãe morreu aos 42, vítima de tuberculose, e seu pai ela nunca viu. Alexandra não tem certidão de nascimento, não sabe ler nem escrever. Lembra-se de ter pedido comida na rua pela primeira vez aos sete anos, depois que sua mãe, com sete filhos, perdeu o emprego de doméstica.
Alexandra foi logo aliciada pelo tráfico: dava "recados", embalava drogas. O nome da menina é fictício, inspirado numa personagem de novela. Alexandra não existiria para o país se não tivesse participado do atentado ao ônibus 350, no Rio, em que inocentes arderam vivos.
O horror do episódio destampa outro, que não redime, atenua ou justifica o primeiro, mas o ilumina. O que o país pode dizer às suas Alexandras? A menina de vida atroz, que agora planeja virar evangélica e sonha um dia ser médica, é a fratura exposta de uma tragédia histórica irredimível.
Na França, o ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, reagiu ao tumulto das periferias chamando os garotos que barbarizaram de "ralé". Em plena Assembléia Nacional, disse que o país "não quer mais aquelas pessoas que ninguém mais no mundo quer".
A declaração choca pelo fascismo, mas também pela transparência. A cruzada de "Sarkô" tem muitos adeptos, mas encontra limites na cultura republicana, bem enraizada no país, segundo a qual todos os franceses, sem exceção, fazem parte de uma "sociedade nacional integrada". Nunca soubemos o que seja isso. O nacional-desenvolvimentismo nos deu um dia a ilusão de que sabíamos.
Aquilo que para a França se coloca como problema -onde foi que a integração social falhou?-, no Brasil, onde ele é imensamente mais grave, foi resolvido por omissão. Em matéria de desrespeito, maus-tratos e descaso pela "ralé", com a licença de "Sarkô", seguimos na vanguarda.
 
Lula é um piadista. Agora diz que a oposição faz "golpismo". A oposição tem sido amena, cordial, preguiçosamente brasileira. Lula sabe disso. Está tão à vontade que conseguiu conceder uma entrevista de 12 páginas à revista "Carta Capital" sem que haja registro da palavra "mensalão".

Arquivo do blog