Alckmin deve ser candidato, avalia Lula
DA REDAÇÃO
Embora tenha mais uma vez evitado admitir que será candidato à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apontou quem considera que será o seu adversário pelo lado do PSDB: "Parece-me que tudo caminha para ser o [governador Geraldo] Alckmin", afirmou. Para Lula, aquele que aparece como seu adversário mais forte nas pesquisas de opinião, José Serra, "pagaria um preço enorme por abandonar São Paulo depois de um ano e quatro meses na prefeitura".
As declarações foram publicadas na última edição da revista "Carta Capital". Na entrevista, de 12 páginas, Lula creditou a maior parte da crise política que enfrenta a uma antecipação da disputa eleitoral pela oposição.
O presidente comparou os ataques ao seu governo aos sofridos pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que chegou a ser vítima de uma tentativa de golpe mal-sucedida em 2002.
REELEIÇÃO
Questionado mais de uma vez, Lula não confirmou se será candidato. Repetiu que só deve anunciar sua decisão em fevereiro ou março do ano que vem, porque "muita coisa vai acontecer" até lá. Indagado sobre o que aconteceria no período, disse: "O Natal e o Carnaval, pelo menos..."
Lula voltou a atacar o instituto da reeleição. "Espero que, em 2006, possamos discutir uma reforma política para que, a partir de 2011, o presidente possa gozar de um mandato maior, sem reeleição. Aliás, no Brasil era assim. E estava bom assim. Não fosse a vaidade de determinadas pessoas."
ALIANÇAS
O presidente criticou a maneira como o PT fechou alianças em 2002, citando-as como uma das causas da crise política. "Eu acho que alguém sonhou demais. Os acordos partidários foram, na minha opinião, pelo menos, equivocados. Acho que o compromisso de dar dinheiro não é o mais correto, porque cada partido tem de fazer a sua campanha."
PT
Ao se negar mais uma vez a especificar o nome daqueles por quem se sente "traído", como declarou em discurso pela TV, em agosto, Lula se intitulou "pai do PT". "ou uma espécie de pai do PT, e sei do sacrifício que fizemos para construí-lo. Ao dizer que me traíram não citei nomes, porque certamente não havia apenas um companheiro envolvido. O que eu disse foi o seguinte: essa prática política nunca foi aceita por nós como uma prática decente. Quem fez me traiu. Era desnecessário. Nós perdemos onde tínhamos de perder, ganhamos onde tínhamos de ganhar, não é o dinheiro que ganha eleição."
Lula ironizou, porém, o cerne das denúncias contra o PT, o esquema montado pelo ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares e o publicitário Marcos Valério de repasse de dinheiro a políticos da base aliada, cuja fonte seriam empréstimos nos bancos Rural e BMG. "Trata-se do ato de corrupção mais inusitado da história da humanidade, ou seja, alguém pratica corrupção com dinheiro emprestado e pagando juros, eu não consigo entender. Tem alguma coisa errada aí."
FHC
Mesmo sem citá-lo durante a entrevista, Lula fez diversos ataques ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Além das críticas à reeleição, Lula criticou os comentários que FHC faz sobre seu governo. "Eu não sei como um presidente da República pode ficar fazendo comentários sobre outro presidente sem olhar o telhado dele. (...) Por uma questão de educação, por uma questão de respeito e por outra ainda: toda vez que você der palpite sobre o que o outro está fazendo, você tem que olhar o que você fez."
Lula também voltou a dizer que optou por não apurar as irregularidades na gestão do seu antecessor. "Eu considerei: estamos tomando posse, 2003 vai ser o ano mais difícil do ponto de vista administrativo, porque é pontapé. Se eu dedicar seis ou oito meses do meu mandato para ficar investigando, apurando, denunciando e brigando pela imprensa, vou deixar de governar um ano."
OPOSIÇÃO
O presidente criticou a oposição por, segundo ele, "provocar a disputa eleitoral em 2005, com o intuito de desgastar a imagem do presidente e do PT". Lula se disse vítima de um "massacre" e se comparou ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez. "Eu não quero ser que nem o Chávez nem o Chávez quer ser igual a mim. O Chávez é o Chávez, e eu sou eu. Agora, eles estão agindo no Brasil como a Fedecámaras [entidade empresarial venezuelana] agiu na Venezuela, sem respeitar o jogo da democracia."
ESQUERDA
Embora tenha declarado que a América do Sul "está indo para a esquerda", Lula se recusou a se rotular como tal. "Você sabe que eu nunca gostei de me rotular de esquerda. Eu sou torneiro mecânico e cheguei à Presidência por obra e graça da paciência."
PIB E JUROS
Lula qualificou a redução de 1,2% no PIB no terceiro trimestre de "notícia péssima". "Eu esperava que não caísse tanto, esperava que chegasse a zero". O presidente disse, porém, que "não tem por que o Brasil não crescer 5%, ou acima de 5%, em 2006".
O presidente criticou o fato de a taxa de juros ser "o único instrumento" que o Banco Central tem para controlar a inflação. "Nós temos conversado sistematicamente e eu tenho mostrado que não se controla a demanda com taxa de juros. Aí controla-se mais o investimento do que a demanda".
Lula qualificou de "normal" a divergência entre os ministros Antonio Palocci e Dilma Rousseff (Casa Civil) em torno do superávit primário. "O Brasil é o único país do mundo em que as pessoas estranham divergências sobre a economia. Eu aqui, dentro da minha sala, inclusive incentivo.
O presidente defendeu Palocci, alvo de denúncias sobre sua gestão na Prefeitura de Ribeirão Preto e de críticas sobre a condução da política econômica. "Se não fosse o Palocci, a gente não teria chegado nessa situação de confiabilidade do Brasil. (...) O que essa elite vendeu nos últimos 90 dias? Vendeu a idéia de que, se a economia está bem, não é por conta do governo. De onde não precisam mais do Palocci. E aí começaram a cutucar-lhe a vida. Eu estou preocupado, porque daqui a pouco eles vão querer analisar o passado do Palocci, e se ele não cometeu heresias até no ventre materno."
SAIBA MAIS
"Carta Capital" apoiou Lula em editorial de 2002 DA REDAÇÃO
Lançada em 1994 pelo jornalista Mino Carta, a revista "Carta Capital" mantém um bom relacionamento com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em 2002, a revista declarou apoio ao petista. A edição de 9 de outubro daquele ano trazia, em sua página 21, o seguinte editorial: "Escolhemos Lula há muito tempo. "Carta Capital" continua com ele no segundo turno".
Em 30 de agosto de 2004, o presidente participou da comemoração do aniversário da revista. Em seu discurso, criticou o "denuncismo" da imprensa brasileira: "A "Carta Capital" faz a diferença. É uma boa política não ter uma preocupação eminentemente de mercado. É preciso pensar na qualidade da informação. Principalmente num momento em que, muitas vezes, o denuncismo pelo denuncismo prevalece sobre a informação".
Em 7 de novembro passado, Lula participou de uma premiação promovida pela revista, na qual tornou a elogiá-la: "Em 11 anos de circulação, a revista firmou-se como referência de jornalismo, ao mesmo tempo independente e de caráter nítido, conseqüente e provocador, sóbrio e arrojado".
Na edição da semana passada, Mino Carta escreveu que "o governo Lula não nos nega seus anúncios, ao contrário do governo Fernando Henrique. De 1994 a 2002, fomos ignorados pela publicidade governista". A revista teve tiragem de 35.300 exemplares em setembro.