Entrevista:O Estado inteligente

domingo, dezembro 11, 2005

Editorial da Folha de S Paulo

PACTO ANTICORRUPÇÃO As fartas evidências de que setores do PT e do governo Luiz Inácio Lula da Silva enredaram-se numa trama de corrupção, abdicando dos compromissos originais da legenda, causaram profundo impacto na opinião pública. A derrocada ética dos antigos paladinos da moralidade frustrou até mesmo aqueles que, se opondo às propostas de Lula, viram em sua ascensão ao governo federal pelo menos uma oportunidade para combater práticas condenáveis que tradicionalmente assolam a vida pública brasileira.
Essa oportunidade acabou se apresentando, mas por caminhos inesperados: ao revelar-se a face corrupta do petismo, a sociedade pôde perceber que a extensão dos problemas é maior do que se imaginava -e essa constatação tem provocado um saudável debate em torno da necessidade de reformas para cercear a corrupção. É claro que mudanças legais não vão funcionar como panacéia, mas podem ajudar a coibir uma série de desvios, como o difundido uso de recursos de caixa dois em financiamento de partidos e campanhas.
Nesse sentido, é louvável que organizações ligadas a setores do empresariado tenham-se articulado com outras instituições para lançar o chamado Pacto Empresarial pela Integridade e Contra a Corrupção. Por mais que essa mobilização possa ser vista com ceticismo e considerada por alguns inócua ou quixotesca, ela coloca em cena uma parte do problema que nem sempre é tratada como tal -as empresas privadas que doam recursos para campanhas.
O "pacto" lançado na sexta-feira propõe, entre outras medidas, a exigência de registro, fornecido pelos partidos, de contribuições de campanha feitas pelas empresas e a colaboração com os poderes públicos em casos de investigação de irregularidades, facilitando o acesso a livros, registros e arquivos das companhias, mesmo sem ordem judicial.
Idealizado em debates promovidos pelo Instituto Ethos, o texto final será apresentado às empresas privadas para ser subscrito. Se o fizerem, elas estarão se comprometendo a "propagar boas práticas de ética empresarial, que possam erradicar a corrupção do rol das estratégias para obter resultados econômicos".
Não há nada de errado em que empresários tenham interesses e atuem para o governo contemplá-los. É o que fazem os diversos setores organizados da sociedade, como os sindicatos ou o Movimento dos Sem-Terra. É preciso, porém, disciplinar o modo como essas pressões podem ser exercidas, para que transcorram dentro de parâmetros legítimos e não por meio dos expedientes nebulosos que contribuem para colocar o Brasil entre os países vistos como os mais corruptos do mundo.
É elogiável que representantes do empresariado empenhem-se nessa espécie de "auto-regulação". Apenas isso não basta, mas é, sem dúvida, um passo na direção certa.

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