PLENA DESARMONIA
Se o debate econômico nos círculos governamentais já não poderia ser considerado discreto às vésperas da divulgação do desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre, a notícia de que a economia andou para trás acirrou as divergências e suas repercussões públicas. Ao longo da última semana, a desarmonia no governo parecia plena. Mal fora alinhavada uma trégua entre os ministros Antonio Palocci e Dilma Rousseff, e o economista Guido Mantega, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), atribuía o fiasco do PIB ao "excesso de zelo do Banco Central".
Ouviram-se também queixas do ministro Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, inconformado com os juros e a excessiva valorização do real, que prejudica as exportações. Por sua vez, Meirelles saiu em defesa das medidas adotadas pelo Comitê de Política Monetária do BC (Copom), acusando seus adversários de mover uma "campanha sistemática a favor do retrocesso".
O acirramento dos ânimos contribuiu para reavivar classificações esquemáticas. Uma série de "ismos" e "istas" voltou à cena. As críticas a Palocci e Meirelles, embora formuladas por um amplo leque de economistas e empresários, foram atribuídas por alguns a "populistas" e "inflacionistas" que pretenderiam, com seus planos, arruinar os esforços para conter a inflação e equilibrar as contas públicas -o "retrocesso" brandido pelo presidente do BC.
Seria mais produtivo se o debate econômico assumisse ares menos infantis e ideológicos. Criticar a política monetária, considerar que a meta de superávit primário poderia permanecer nos atuais 4,25% ou que os investimentos públicos precisam ser elevados não basta para transformar alguém num "populista".
Em linhas gerais, repete-se hoje a divisão que já se verificava no governo Fernando Henrique Cardoso, mas com uma confusa inversão de papéis. É a administração petista que atua como conservadora, enquanto representantes do PSDB, como o prefeito José Serra e o ex-presidente do BNDES Luiz Carlos Mendonça de Barros, a criticam por isso.
O recrudescimento das divergências pode ser fruto de disputas políticas, mas é preciso reconhecer também que é em grande parte fomentado pelo fato de o desempenho da economia permanecer medíocre numa conjuntura global excepcionalmente favorável. Com previsão de crescimento de 2,66% para este ano e 3,5% para 2006, o PIB durante o governo Lula terá se expandido 2,9%, contra os 2,33% dos oito anos de seu antecessor. É pífio.
O Brasil precisa transitar para uma situação na qual as empresas sintam-se estimuladas a ampliar sua capacidade produtiva, o alinhamento dos juros e do câmbio favoreça o crescimento, o Estado seja mais eficiente, e a riqueza, mais bem distribuída. É verdade que não se cria uma situação como essa da noite para o dia, mas tampouco ela nascerá por geração espontânea, de políticas conformistas ou da reverência atemorizada aos interesses rentistas.
O atual governo, porém, não reúne mais condições para promover mudanças. Essa é uma das razões pelas quais a oposição prefere manter a situação. O ministro Palocci pode ser pouco, mas é visto, ao menos, como uma garantia contra aventuras em ano eleitoral.
Entrevista:O Estado inteligente
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