Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, dezembro 14, 2005

CLÓVIS ROSSI O Brasil para exportação

FSP
 HONG KONG - Tem horas, pena que poucas, em que você não consegue entender como é que o Brasil empaca a cada tanto.
Visto de longe, às vezes (sublinhe o "às vezes", por favor), parece um grande país. Fique com o exemplo de ontem. O G-20, grupo de países em desenvolvimento criado por iniciativa de Brasil e Índia (e hoje claramente liderado pelo chanceler Celso Amorim), chamou para uma reunião praticamente todo o mundo em desenvolvimento (é uma coleção de siglas que consumiria todo o espaço se fosse listá-las).
Foi gente de mais de cem países dos 150 que fazem parte da Organização Mundial do Comércio.
Não, não pense que vou dizer que aclamaram o Brasil, proclamaram Luiz Inácio Lula da Silva o guia universal dos povos. Nada disso. A reunião foi "sóbria", na descrição de um diplomata que dela participou (e é brasileiro).
Serviu para identificar convergências e desacordos nas negociações da Rodada Doha, o mais recente ciclo de liberalização comercial, lançado há quatro anos.
A novidade é que se tirou a tutela sobre os países pobres que os europeus tentam exercer. Jogam com o que o jargão comercial chama de "preferências tarifárias". Tradução: a produção de países muito pobres entra na Europa sem pagar impostos e sem submeter-se a cotas (ao contrário do que ocorre com o Brasil).
Se, como pede o Brasil, desaparecerem as cotas e as tarifas de importação, a preferência para os pobres desaparece também.
Identificada a divergência, lida-se com ela maduramente, mas com a consciência de que há mais a ganhar na aliança entre os iguais ou parecidos do que sob tutela dos poderosos. Sem triunfalismo, no entanto. Não se trata de voltar ao impossível (o não-alinhamento entre comunismo e capitalismo, como na Guerra Fria).
Trata-se de negociar o capitalismo em condições mais eqüitativas. Ponto para esse estranho Brasil.

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