domingo, junho 04, 2006

Pensamentos ludopédicos DANIEL PIZA

Estado

Sinopse

Por não usar as mãos, extensões mais diretas da ação consciente,
paradoxalmente o futebol dá maior poder à imaginação, à criatividade,
à abstração. O craque é quem simula na mente com mais velocidade e
precisão o que vai fazer. E para executar fisicamente o que concebe
intelectualmente ele precisa ter ensinado lições ao corpo. O primeiro
cabeceio, por reação fisiológica, é sempre de olhos fechados. Ninguém
nasce sabendo jogar futebol; o dom inato, por assim dizer, precisa
ser adquirido. Intuição e raciocínio não ocupam áreas isoladas do
cérebro. Por isso, o mérito maior do futebolista é pensar rápido.

Em todos os outros esportes, ganha quem erra menos. No futebol é
possível alcançar o sucesso mesmo quando se erra mais. É óbvio que o
esforço para acertar é fundamental; acontece que o ludopédio permite
corrigir erros com muito mais facilidade do que em outros esportes
coletivos. O que pode fazer o futebol feio é o que o faz bonito. São
muitas as situações em que um erro - por egoísmo ou altruísmo, não
importa - se revela um acerto. Um drible pode valer três passes, e um
passe também pode substituir três dribles. O que confere consistência
à decisão é o resultado que a sucede: futebol é narrativa. Instantes
- líricos, heróicos, trágicos ou patéticos, todos eles - pedem contexto.

Futebol, como capoeira, é luta e dança ao mesmo tempo. O guerreiro
precisa ser um pouco bailarino até para adivinhar a coreografia do
adversário. O bailarino precisa aprender com o guerreiro a se
movimentar sem a bola. Há jogadores mais guerreiros, há jogadores
mais bailarinos; mas o craque de qualquer posição é sempre uma fusão
de ambos. Pelé foi o maior jogador de todos porque lutava com
disciplina e vigor e dançava com sutileza e malícia - um híbrido de
Hércules e Astaire. Não havia diferença para ele entre jogar com
habilidade e jogar com força. O belo era o letal. Daí que o futebol
não é mímica nem da guerra nem da arte; é uma coisa a meio, o que
significa que é uma terceira coisa. Teatro & fato. Eis por que cabem
tantos estilos nacionais na gramática do futebol - geometria em
reinvenção pela memória lúdica.

Nunca se viu briga de torcida no beisebol ou no tênis. Nenhum esporte
move tanta paixão em tantos países. Casais brigam por causa dele na
maioria dos lares do mundo. Futebol atrai fanatismo, mas não pode ser
culpado por ele; nacionalismo, machismo e vandalismo são problemas
que o antecedem e o transcendem. Mas uma lição do século 20 - quando
o futebol se tornou o mais globalizado dos esportes, com todas as
ressonâncias simbólicas e econômicas que isso envolve - é que o homem
não escapa à barbárie fugindo dela, fingindo que ela não está dentro
dele. O futebol não pode ser questão de vida ou morte, porque sua
semelhança é com a vida em todos os aspectos: circo de nervos,
metamorfose contínua de inferno a paraíso, indefinição entre
espetáculo e moralidade.

RODAPÉ (1)

Li muita coisa interessante nas férias, a começar por Everyman
(Houghton Mifflin), nova novela de Philip Roth, um livro sobre a
humilhação das doenças, com parentesco com O Animal Agonizante, de
2002, que só agora chega à edição brasileira. Em Os Criadores
(Campus), do historiador e jornalista britânico Paul Johnson, os
melhores ensaios são sobre figuras antigas como Chaucer e Dürer,
embora o contraponto entre os estilistas Dior e Balenciaga seja
curioso; mas os textos dão ênfase mais às vidas que às obras, e
comparar Disney favoravelmente a Picasso, embora pareça divertido,
não passa de reacionarismo. E a edição de bolso de O Mundo Assombrado
pelos Demônios (Companhia das Letras), de Carl Sagan, vem a calhar
num momento em que fantasias levadas a sério como O Código Da Vinci
dominam o entretenimento. Sagan propõe um misto de ceticismo com
capacidade de admiração que soa estranho a brasileiros. ..

RODAPÉ (2)

Muito se falou no Brasil sobre os 150 anos de Freud, exceto que ele
mesmo aprovaria tentativas de verificação orgânica dos mecanismos
psíquicos; e nada sobre os 200 anos de John Stuart Mill, autor do
seminal On Liberty, pensador otimista demais, mas que é um bálsamo
contra sistemas ideológicos.

DE LA MUSIQUE

Carioca, de Chico Buarque, é uma decepção. A crítica de MPB não ousa
dizer, mas o CD peca pela monotonia melódica, pelos arranjos
superficiais e, pior, pelas letras de escassos achados poéticos,
marca da casa. Como nos últimos CDs compostos por Caetano Veloso,
toda faixa parece se resumir a fiapos de canções passadas. A parceria
com Edu Lobo em ritmo de embolada rap, Ode aos Ratos (não, claro, não
é sobre os mensaleiros), do CD Cambaio, a delicada Ela Faz Cinema e,
evidentemente, a já conhecida Imagina, com Tom Jobim, cantada com
Mônica Salmaso, são as que se ouvem. Mas até no mediano CD anterior,
As Cidades, havia a bela Cecília.

CADERNOS DO CINEMA

Não deixe de comprar o DVD de Memórias do Subdesenvolvimento, de
Tomás Gutiérrez Alea, 1962, filme de uma coragem moral rara no cinema
político brasileiro. Sérgio, o intelectual europeizado que vaga pela
Havana de Fidel, se sente deslocado num mundo em que coerência e
maturidade são artigos de luxo...

A ARTE DE EXPOR

Que seja preciso que o Masp seja flagrado fazendo "gato" em linha
elétrica - o cúmulo simbólico do atual estado das coisas no Brasil -
para que se façam protestos, não deixa de ser também um emblema. Há
12 anos acompanhei a crise que levou Júlio Neves ao poder, e desde
então os problemas só se acumularam; enquanto ele sonhava com novos
prédios, a sede e a programação deterioraram rapidamente. O museu,
cheio de mandarins quatrocentões que preferem fazer doações para o
MoMA, precisa de uma sociedade de amigos que coloque ou consiga
dinheiro para sua autonomia, além de um novo conselho que fiscalize a
gestão. Como está, o Masp não é diferente de um clube de futebol
gerido por bando de cartolas.

Felizmente a cidade está com boas exposições para ver no momento.
Além de Degas (que o Masp recebe porque cedeu obras para a mostra
itinerante, que vi em Londres anos atrás) e Volpi (no MAM), há os pré-
colombianos no CCBB, Santos-Dumont no Museu da Casa Brasileira e novo
recorte da coleção Nemirovsky na Estação Pinacoteca. O que não se vê
é arte atual de qualidade.

POR QUE NÃO ME UFANO

O que preocupa não é apenas o que aconteceu em São Paulo em 15/5, mas
o que o crime organizado pode ter descoberto a partir do que
aconteceu. A reação das autoridades, da imprensa e da população à
série de ataques a bases policiais e ônibus sem passageiros e à onda
de rebeliões em presídios pode ter dado aos Marcolas outra idéia de
seu próprio potencial. Era para ser uma jornada de sustos; terminou
sendo a revelação de um método. A descrição de São Paulo como Bagdá
no fim de semana, para lá de imprecisa, mostrou como é fácil criar
pânico e chantagear o Estado - ou seja, como é fácil imitar em ponto
muito menor o terrorismo que atormenta o Iraque ou a guerrilha que
traumatiza a Colômbia. A cidade parou de funcionar e pensar.

Boatos voaram feito abelhas, e o debate não foi nada senão passional.
Logo se viu a velha divisão entre o bordão malufista "bandido bom é
bandido morto" e a demagogia ongueira "o que falta é educação" (ou
então dizem, como o técnico de som da Câmara, que o salário baixo
explica a corrupção). Isso inclui profissionais da área, que ora
praticam carandirus, ora liberam TVs para a moçada ver a Copa. Não se
parou para notar que o problema é essa polarização, e a conseqüente
falta de uma política inteligente que dose as medidas e estabeleça
metas. O sistema prisional é uma indústria de criminosos; em vez de
regenerar, torna-os ainda mais perigosos. A sucessão de promessas não
cumpridas só faz piorar o quadro. Impunidade, corrupção e oportunismo
compõem o caldo em que a violência engrossa. Mensaleiros absolvidos,
assassinos confessos de classe média soltos, tudo alimenta a tragédia.

Ninguém se saiu bem. O governo estadual, que fez uma transferência
temerária de líderes da facção e seguramente não sabia que a ação
iria além dos motins em presídios, não se explicou a contento; o
governador Cláudio Lembo, num discurso de sintomática mistura entre
catolicismo e petismo, chegou a culpar a "elite branca" por não ser
solidária e por gastar seu dinheiro em restaurantes. O governo
federal ofereceu o envio de tropas do Exército (pífios 4 mil homens),
o que técnica e moralmente não era necessário; Lula não tardou a
politizar o discurso, sem explicar onde anda o "maior plano nacional
de segurança jamais feito no Brasil" outrora prometido. Congressistas
trataram de aprovar um pacote de leis para fingir satisfazer a
indignação popular. Enquanto isso, Marcos Camacho, o Marcola, filho
de boliviano, há mais de cinco anos dedicado a converter o PCC numa
máfia - com seus códigos, táticas e braços políticos e jurídicos -,
enxergava o poder que nem sabia ter nas mãos.

E-mail: daniel.piza@grupoestado.com.br Site: www.danielpiza.com.br