domingo, junho 04, 2006

Brava gente brasileira JOÃO UBALDO RIBEIRO

ESTADO

Ponto de vista

Não, ainda não estou na Alemanha. Acho que vou ser dos últimos a
chegar lá. Não sei bem o que isso quer dizer, mas de vez em quando me
assalta o receio que me atribuam missões tais como escrever
comentários sobre a atuação dos gandulas. Subestimam temerariamente
meus dotes de comentarista futebolístico, no que serão desmentidos
pelos fatos, como se verá no decorrer do prestigioso certame a ser
conduzido na bela nação tedesca. Deverei entrar em ação assim que
chegar e mal posso esperar o momento em que o Parreira me convidará
para dar uns palpites na escalação inicial e nas táticas a serem
empregadas.

Mas estive fora uns dias. Compareci a uma solenidade em Fort
Lauderdale, na Flórida, na qual diversas personalidades foram
premiadas, por sua atuação junto às comunidades brasileiras nos
Estados Unidos ou pelo "conjunto da obra", como brasileiros que de
alguma forma contribuem ou contribuíram positivamente para a imagem
do País. Uma dessas premiadas foi a grande Hortência, deusa do nosso
basquete, que já tanto orgulho nos trouxe ao peito e que desfruta do
reconhecimento merecido por ser uma das melhores atletas do mundo.
Entrei em natural abestalhamento de tiete, mas ela é muito simpática
e hoje ostento em meu currículo pelos menos uns oito beijinhos no
rosto dela, a maior parte deles meio roubada, mas, de qualquer forma,
não é proeza para qualquer um.

E tive minha primeira experiência com uma "colônia" brasileira no
exterior. Antigamente não existia isso, pelo menos que eu saiba - e
já morei nos Estados Unidos, em lugares diversos, algumas vezes.
Havia sempre brasileiros, de estudantes a aventureiros por
temperamento, que costumavam formar grupos, promover uma eventual
feijoada ou churrasco, dar festinhas de carnaval e coisas assim. Mas
nada em grande escala. O Brasil era um país de imigração.
Estrangeiros vinham para cá em busca de horizontes e trabalho, às
vezes de liberdade, e muitos ajudaram e ajudam o país a funcionar, ao
menos no que ele ainda funciona. Não existiam lá fora bairros
brasileiros, comércio brasileiro, publicações brasileiras,
organizações de brasileiros.

Agora, não. Agora são dezenas de comunidades, em vários pontos dos
Estados Unidos, inclusive Fort Lauderdale. É uma sensação estranha,
pelo menos para um brasileiro de minha geração. Isso não ocorria, não
entrava na cabeça de quase ninguém abandonar de vez o Brasil e ir
viver numa terra estrangeira, muitas vezes enfrentando dificuldades
infernais. Agora, não. Agora, com uma certa melancolia, me levanto no
auditório da premiação, na hora em que um coral começa a cantar o
Hino Nacional. Assisto a números de canto e dança brasileiros, vejo a
força que eles fazem para não perder de vez o seu país, para orgulhar-
se dele de alguma forma, por pequena ou modesta que seja.

Converso com diversos, ouço histórias de lutas inacreditáveis. Uns
poucos deixaram o Brasil para viver o "sonho americano" mitologizado
principalmente pelo cinema. Mas a maioria foi para lá por
necessidade, porque aqui não tinha futuro, porque não suportava mais
a violência de que já diversos tinham sido vítimas irrecuperáveis. A
maioria enfrenta trabalho duro, condições de vida espartanas e,
certamente, algum preconceito. É possível coligir uma história de
bravura e coragem praticamente de todos os nossos emigrantes pobres
ou remediados e dos que, à custa de sete dias de trabalho por semana
e feitos comparáveis, estão hoje relativamente bem de vida.

Lêem notícias do Brasil, assistem a tevês brasileiras, procuram
acompanhar, sempre desiludidos, o que acontece aqui. Não se sentem
americanos, não se sentirão jamais. Agora na Copa, formarão turmas
nos bares brasileiros, outras na casa de quem tiver o melhor espaço
ou a melhor tevê, vão agitar bandeiras e vestir camisas da Seleção,
vão sofrer mais do que os torcedores que estão no Brasil, porque lá
não há quem entenda seu comportamento e a solidão dos guetos é um
fantasma que sempre acompanhará essas nossas "colônias". Dividirão
despesas, talvez alguém cozinhe um prato típico, vão aparecer
batucadas, o Brasil que eles não podem, nem querem, abandonar de
todo, estará entre eles.

Na Europa os perfis certamente são diversos, mas o mesmo tipo de
fenômeno ocorre. Houve gente que economizou até o último centavo,
para poder sair do país onde está na Europa e ir até a Alemanha, pelo
menos a um jogo do Brasil. Aquelas bandeiras, faixas e estandartes
brasileiros que aparecem nos estádios talvez sejam, em sua maior
parte, desse pessoal. Sem perspectivas em sua terra, obrigados a
emigrar para sobreviver, não obstante desejam, precisam preservar seu
orgulho brasileiro.

É, não queria, mas acho que acabei escrevendo um texto triste. Pelo
menos eu fico triste, quando vejo um país rico como o nosso, que
podia abrigar mais gente e muito melhor, cuja natureza é tão
generosa, vendo seu povo gradualmente transformar-se em fugitivos - e
muito mais gente gostaria de sair, mas não pode, por uma razão ou por
outra. Depois de presenciar já uma manifestação dessa diáspora
vergonhosa que possivelmente está apenas começando e que, repito, não
é maior porque o mundo das oportunidades não se abre facilmente, vejo
com outros olhos aquelas torcidas que sempre aparecem onde quer que o
Brasil esteja numa disputa. Vejo brasileiros honestos, trabalhadores,
pessoas de que obviamente precisamos, condenadas, não a morar no
estrangeiro propriamente, que pode não ser sacrifício nenhum, mas a
serem praticamente cuspidas pela mãe gentil, que, não obstante, se
obstinam amorosamente em não perder.